Operador de esquema de propinas do PMDB, Lúcio Funaro relata à Polícia Federal ter pago R$ 20 milhões ao ex-ministro Geddel Vieira Lima; confira trechos do depoimento

Lúcio Funaro relata à Polícia Federal ter pago R$ 20 milhões ao ex-ministro Geddel Vieira Lima.

Lúcio Funaro relata à Polícia Federal ter pago R$ 20 milhões ao ex-ministro Geddel Vieira Lima.

Reportagens dos jornais Estadão e Folha e da Revista Veja revelam relações estabelecidas no âmbito do Caso Lava Jato, em que é citado um dos mais destacados políticos da Bahia, o ex-ministro e presidente estadual do PMDB, Geddel Quadros Vieira Lima. Além das reportagens, o político é citado em depoimento pelo corretor de valores Lúcio Bolonha Funaro, considerado pela Procuradoria-Geral da República um dos operadores do esquema de propina do PMDB.

Em depoimento prestado nos dias 2 e 14 de junho de 2017, à Polícia Federal, em Brasília, Lúcio Funaro elenca as personalidades do PMDB para quem ele trabalhava, citando, dentre outras personalidades: Eduardo Cunha, ex-deputado, condenado á prisão no Caso Lava Jato; Eliseu Padilha, ministro-chefe da Casa Civil; Moreira Franco, ministro da Secretaria​-Geral da Presidência da República; e o ex-ministro Geddel Vieira Lima.

Segundo Lúcio Funaro, o esquema gerou “comissões expressivas, no montante aproximado de R$ 100 milhões”. O dinheiro foi destinado principalmente à “campanha para Presidência da República no ano de 2014” e à campanha do ex-deputado federal Gabriel Chalita à Prefeitura de São Paulo em 2012. Além dos esquemas revelados, o depoente relatou que arrecadou de fundos para campanhas do PMDB em 2010, 2012 e 2014, e que envolveu, além do PMDB, partidos coligados.

Dentre as empresas que repassaram recursos, Lúcio Funaro cita o Grupo J&F, dos empresários Joesley e Wesley Batista; a BR Vias, da família Constantino, dona da empresa aérea Gol; LLX, renomeada Prumo Logística, que tem como sócio Eike Batista; e a Cibe, sociedade formada entre os grupos Equipav e Bertin

O operador relatou que pagou “comissão” ao ministro da Secretaria-Geral da Presidência e um dos principais aliados do presidente Michel Temer, Moreira Franco e a Eduardo Cunha. O dinheiro estava relacionado à liberação de recursos do FI-FGTS em 2009. Nessa época, Moreira Franco ocupava a Vice-Presidência de Fundos de Governo e Loterias da Caixa, gestora do Fundo de Investimento.

Ao ex-ministro Geddel Vieira Lima, Lúcio Funarou revelou ter pago R$ 20 milhões por “operações” realizadas através de recursos da Caixa Econômica Federal. Os recursos, eram “comissões” por liberações de crédito a empresas do grupo J&F.

Lúcio Funaro revela que foi ele quem apresentou Geddel Quadros ao empresário Joesley Batista. O peemedebista era então vice-presidente de pessoa jurídica da Caixa, e o grupo J&F, holding que controla a JBS, segundo Funaro, tinha interesse em obter linhas de créditos junto a instituição.

Todos os citados, a exceção os irmãos Batista, negaram envolvimento no esquema de corrupção, que tinha em Lúcio Funaro um dos operadores. Algumas empresas, a exemplo da BRVias e Caixa Econômica relataram que colaboram com as investigações federais.

Trechos dos depoimentos em que é citada a participação de Geddel Vieira Lima

O Jornal Grande Bahia selecionou trechos dos depoimentos de Lúcio Funaro, à PF, em que cita Geddel Vieira Lima. Confira:

— O depoente conhece GEDDEL VIEIRA LIMA há cerca de vinte anos em razão da família dele possuir fazenda de gado na Bahia e fornecer gado para a JBS SA;

— QUE por conta dessa relação anterior o depoente Funaro entregou à PF imagens de contatos com Geddel;

— GEDDEL VIEIRA UMA era de fato o principal contato de JOESLEY com o governo MICHEL TEMER; QUE alem de JOESLEY, o declarante já esteve em contato com outras pessoas do grupo J&F INVESTIMENTOS, WESLEY BATISTA, JOSE BATISTA SOBRINHO, ANTONIO BATISTA, FERNANDO MENDONC;;A, HUMBERTO JUNQUEIRA, ADESIO UMA (projeto ELDORADO), JOSE CARLOS GRUBIZICH (projeto ELDORADO), ANTONIO BARRETO, DENILTON e os secretários de JOESLEY, FLÁVIO e NEILA, alem de ERICA, secretária de WESLEY

— QUE estranha alguns telefonemas que sua esposa tem recebido de GEDDEL VIEIRA UMA, no sentido de estar sondando qual seria o ânimo do declarante em relação a fazer um acorda de colaboração premiada;

— QUE foi o declarante quem apresentou GEDDEL VIEIRA LlMA a JOESLEY BATISTA a época em que GEDDEL era vice-presidente de, pessoa juridica da CAIXA ECONÔMICA FEDERAL – CEF, visto que o grupo J&F tinha interesse em obter linhas de créditos junto a esta instituição;

— QUE a primeira operação efetuada para a J&F foi a liberação de operação de crédito para a conta empresarial;

— QUE apos essa fez mais empréstimos e outras operações de credito para a própria J&F e outras empresas do grupo, como VIGOR, ELDORADO, FLORA e SEARA;

— QUE a ultima operação de credito viabilizada pela declarante foi de uma linha de credito no valor de R$ 2,7 bilhões para a compra da ALPARGATAS, ocorrida em dezembro de 2015;

— QUE nesta época GEDDEL já havia saído da vice-presidência, mas continuava controlando-a;

— QUE no dia 12 de dezembro de 2015, JOESLEY BATISTA teria ido ate a casa do declarante acompanhado por sua esposa, a fim de solicitar-lhe que entrasse em contato com GEDDEL para que este interviesse para liberação do empréstimo referido anteriormente;

— QUE GEDDEL falava diretamente com JOESLEY, mas nunca tratava com ele a respeito de comissões, sempre esperando que o declarante lhe confirmasse que a operação de credito poderia ser liberada;

— QUE de todas as operações feitas como grupo J&F, GEDDEL VIEIRA LIMA recebeu ou receberia comissões, pagas pela declarante, com exceção da operação de liberação de linha de crédito da compra da ALPARGATAS, porque o destinatário teria recebido a comissão devida pela J&F, na qual giraria em tomo de R$ 80 milhões;

— QUE estima ter pago a GEDDEL aproximadamente R$ 20 milhões em espécie a título de comissão decorrentes das operações de crédito que teria viabilizado junto à CEF;

— QUE o declarante também pagou comissões a GEDDEL de operações de crédito em favor da MARFRIG e do grupo BERTIN;

— QUE com relação a operação realizada por GEDDEL para o grupo CONSTANTINO quando era vice-presidente de pessoa jurídica da CEF, no valor aproximado de R$ 60 milhoes, não houve cobrança de comissão devido ao fato de a ser um valor expressivo e HENRIQUE CONSTANTINO ter emprestado seu veículo particular algumas vezes ao declarante e a GEDDEL VIEIRA LlMA;

— QUE o declarante operava nas duas vice-presidemcias da CEF sob influencia politica do PMDB da Câmara, quais sejam, Vice-Presidência de Fundos de Governo e Loterias e Vice-Presidência de Pessoa Jurídica;

— QUE o declarante não tinha relacionamento próximo com o presidente MICHEL TEMER, visto que quem fazia a interface com ele era EDUARDO CUNHA, HENRIQUE EDUARDO ALVES e GEDDEL VIEIRA LIMA

— QUE apos assumir a Secretaria de Governo GEDDEL VIEIRA LIMA informou ao declarante que manteve contato com JOESLEY em seu apartamento na Bahia durante fins de semana;

— QUE nos mencionados encontros JOESLEY reportava suas reivindicações perante o governo e recebia de GEDDEL as respectivas respostas;

— QUE isso foi dito por GEDDEL ao declarante, por mensagens telefônicas, antes de ser preso em julho de 2016;

Mensagens por WhatsApp

Lucio Funaro entregou à Polícia Federal reproduções de diálogos entre sua mulher, Raquel Funaro, e Geddel Vieira Lima. As trocas de mensagens foram realizadas através do aplicativo WhatsApp, sendo registradas em oito datas, entre 17 de maio e 1 de junho de 2017, período em que foi deflagrada pela PF a Operação Patmos.

Segundo relato de Lúcio Funaro á PF, as trocas de mensagens foram feitas por um certo ‘Carainho’. Os investigadores federais atribuem ‘Carainho’ como pseudônimo de Geddel Vieira Lima.

Lucio Funaro está preso na Papuda, em Brasília, desde 1 de julho de 2016, quando foi alvo da Operação Sépsis.

Advogado de Geddel Vieira Lima, Gamil Föppel emite nota

— A defesa técnica do Senhor Geddel Vieira Lima rechaça a prática de qualquer ilicitude por parte do seu constituinte. É importante ser ressaltado que, desde que se viu injustamente enredado em procedimentos de apuração instaurados em seu desfavor, o Senhor Geddel Vieira Lima colocou-se à disposição de todas as autoridades constituídas, comparecendo espontaneamente para prestar declarações, inclusive com deslocamentos para capital federal, disponibilizando os seus sigilos bancário e fiscal, não criando qualquer óbice para o prosseguimento das investigações.

—Vale salientar que, conforme asseverado até mesmo por delatores premiados, desde que se afastou do cargo de Ministro de Estado, o Senhor Geddel Vieira Lima passou a reservar-se na sua intimidade, distanciando-se de qualquer contato com membros do Governo Federal e, principalmente, com pessoas investigadas.

— Inclusive, tratou-se de manchete de diversos veículos de informação, o alegado “sumiço” do Senhor Geddel Vieira Lima que, sempre confiando na serenidade da justiça e probidade de sua conduta, espera que seja prontamente restaurada a realidade histórica dos fatos.

Salvador, Bahia, 21 de junho de 2017.

Gamil Föppel, OAB-BA nº 17.828

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Delação de Lúcio Bolonha Funaro contra Michel Temer, Gedel Vieira Lima e Eduardo Cunha – 1

Delação de Lúcio Bolonha Funaro contra Michel Temer, Gedel Vieira Lima e Eduardo Cunha – 2

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Sobre o autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto Oliveira da Silva (Carlos Augusto) é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF). Atua como jornalista e cientista social. Telefone: (75)98242-8000 | E-mail: [email protected]nalgrandebahia.com.br.