Toda solidariedade ao jornalismo ameaçado pelo rei Janot | Por Ernesto Marques

Jornalista José Reinaldo Azevedo e Silva pediu demissão da revista Veja após STF divulgar escutas telefônicas. Ação do Estado violou direito fundamental ao sigilo da fonte.

Jornalista José Reinaldo Azevedo e Silva pediu demissão da revista Veja após STF divulgar escutas telefônicas. Ação do Estado violou direito fundamental ao sigilo da fonte.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, parece obstinado a roubar de Chatô o epíteto de “rei do Brasil”. Chatô usava as empresas do seu império midiático para chantagear e extorquir de acordo com seus interesses. Janot abusa do poder do cargo que ocupa, mas não lhe pertence. O episódio mais recente, tendo como alvo o jornalista Reinaldo Azevedo, prócer da extrema-direita entre jornalistas, não guarda qualquer relação com a cruzada contra a corrupção que faz muita gente de boa fé aplaudir seus excessos. É nada além de um gesto grotesco de intimidação contra toda a imprensa e uma gravíssima ameaça ao livre exercício da atividade jornalística.

Profissionais que, como Azevedo, se lambuzaram com os vazamentos seletivos e festejaram a mesma violência quando os alvos do PGR eram Lula e Dilma, por exemplo, agora condenam a afronta evidente à Lei das Interceptações Telefônicas. Só agora percebem a espada de Dâmocles sobre suas cabeças. Jornalistas e blogueiros “sujos”, há muito tempo na resistência crítica à cruzada moralista que devasta o país, entendem ser dever de coerência condenar as atitudes imperiais do rei Janot e expressar solidariedade a um colega e também algoz. Sem festejar seu infortúnio, cabe refletir se presunçoso e arrogante autor de “Máximas de um país mínimo” faz jus a gesto tão magnânimo.

Reinaldo Azevedo se fartou nos banquetes onde reputações alheias eram a entrada, o prato principal e a sobremesa. Ao lado de seus antigos pares e hoje desafetos, como Olavo de Carvalho, oráculo da direita mais empedernida, o delatado Diogo Mainardi e Joice Hasselman, vilipendiam diariamente a profissão praticando um jornalismo declaratório rebaixado e servil, mas essencial ao ativismo judiciário que hoje ameaça a imberbe democracia brasileira.

“Tio Rei” experimenta o gosto amargo do veneno que tem destilado nos últimos anos. Se for merecedor da solidariedade misericordiosa que lhe hipotecam jornalistas de há muito atacados por ele sem falsos pudores, haverá de fazer alguma inflexão. Só o tempo dirá se vai conseguir deixar de ser o mínimo que é: um raivoso neoliberal, instilador do ódio e da violência tão em voga nesses tempos temerbrosos.

Agredida 24 horas por dia e merecedora da solidariedade geral, e não apenas corporativa, é a profissão de jornalista. Agredida por jornalistas, como Reinaldo et caterva. Agredida pela omissão de jornalistas narcotizados pela fábula da objetividade, incapazes até de assumir o próprio lado e sair em defesa, por exemplo, da tal cláusula de consciência que lhes daria o direito de dizer não às ordens do departamento comercial. Agredida pelos empresários da comunicação, beneficiários da acumulação de dinheiro e poder a partir da exploração econômica e simbólica do trabalho nas redações. Agredida por quem ataca jornalistas com processos cíveis e criminais, usando a Justiça e o poder econômico para impor a censura e incutir a auto-censura.

Definitivamente, não é necessário expressar solidariedade a Reinaldo Azevedo para condenar os abusos de membros do Ministério Público, do Judiciário e da Polícia Federal. Isso não significa regozijo pela violência da qual hoje é vítima, mas foi e é um cúmplice dedicado.

Quem merece solidariedade é a nossa democracia, novamente ameaçada antes de completarem-se os 30 anos de promulgação da Constituição Cidadã de 1988. Ai reside uma dolorosa contradição: vem dela o poder que subiu à cabeça do rei Janot. É o mesmo poder que fez de Geraldo Brindeiro, escolhido por FHC, passar à história como “engavetador geral da República” por não dar andamento às inúmeras denúncias de corrupção, como a compra de votos para a PEC da reeleição.

Procurador Geral da República escolhido por Tancredo Neves ao ser eleito presidente na última eleição indireta, em 1985, o jurista Sepúlveda Pertence colaborou com a Assembleia Nacional Constituinte eleita no ano seguinte. Ajudou a redefinir o Ministério Público a partir da sua experiência de procurador durante o regime militar e do seu reconhecido saber jurídico. Tinha sido defenestrado do Ministério Público por obra do Serviço Nacional de Inteligência, monstro institucional da ditadura. Criado pelo general Golbery do Couto e Silva, o SNI viria a tragar o seu criador quando ele ousou tramar o fim do regime.

No processo da AP-470, em 2005, Pertence conheceu a criatura da qual era um dos pais: “não sou Golbery, mas também criei um monstro”. Carlos Lacerda, o “Corvo” demorou mais de uma década para ser devorado pela ditadura monstruosa que ajudou a criar. Vejamos quanto tempo Tio Rei precisará para compreender as ameaças para ele mesmo, para seus colegas e para o Brasil, intrínsecas ao monstro que ele tem ajudado a alimentar e afiar os caninos. Foi apenas uma mordidinha…

*Ernesto Marques é jornalista.

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