O povo de terreiro se levanta em defesa da liberdade de culto e contra o racismo religioso

Na Bahia de todos os santos, inquices, vodus e orixás, o povo de terreiro se levanta em defesa da liberdade de culto e contra o racismo religioso.

Têm sido sistemáticos os ataques, agressões, perseguições, intolerância e racismo religioso contra o Candomblé e seus rituais – cerimônias realizadas em momentos específicos -, particularmente o rito sacrificial de animais, sejam de bípedes ou quadrúpedes.

De antemão afirmo, prezado leitor, que você pode ser o que queira, direito de escolha sua: praticar culto religioso que não seja de matriz afro-brasileira, pode ser vegano, ativista em defesa dos animais etc. Você só não tem o direito de exercer intolerância e racismo religioso.

É assegurado o direito constitucional dos cidadãos à liberdade de consciência e de crença, como invioláveis, cabendo ao Estado garantir a proteção aos locais de culto e a suas liturgias (CF, arts. 1º, III, 5º, VI).

Se for o caso, prezado leitor, se quiseres protestar contra o sacrifício de animais, vá para a porta dos abatedouros e se manifeste. Será um ato estúpido, claro, mas não persiga o culto dos negros e mestiços, não pratique racismo religioso.

Todavia, por que esses ativistas, intolerantes religiosos, ou supostamente defensores dos animais, não protestam contra os grandes frigoríficos nacionais?

Porque serve aos seus propósitos de exercício de racismo religioso perseguir e discriminar os cultos do povo de santo, de pele negro-mestiça. O Candomblé é uma religião de oprimidos, durante séculos foi duramente perseguido, e continua a sofrer discriminações.

Na Bahia, as últimas leis estaduais que criminalizavam o Candomblé só foram abolidas — pasmem — em 1979. Entretanto, de lá para cá muitas conquistas sociais, institucionais e jurídicas foram alcançadas pelos cultos afro-brasileiros, como o respeito e a salvaguarda pelo Estado brasileiro.

Respeito e salvaguarda que almejam alcançar um dia os cultos ayahuasqueiros, ao qual o Candomblé cedeu o lugar de religião mais perseguida e discriminada no território nacional. Pois os cultos ayahuasqueiros, que fazem uso de uma milenar bebida sacramental de origem indígena, estão a todo instante ameaçados pelo aparato institucional do Estado, que promovem duas políticas: salvaguardas de um lado e, do outro, incertezas.

E qual a argumentação dos cultos afro-brasileiros para a manutenção dos seus ritos sacrificiais?

Transcrevo, a seguir, um trecho de artigo de Maria Stella de Azevedo Santos, a venerável Mãe Stella de Oxossi, Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá.

Didaticamente, como boa professora, nos seus artigos Mãe Stella transmite a nós, leigos da rica religiosidade ioruba, coisas sobre o surgimento do cosmo (cosmogonia), como realizam sua liturgia (rituais públicos), seus dogmas (verdades inquestionáveis de um grupo) e praticam seus rituais (cerimônias realizadas em momentos específicos).

Mãe Stella assim se revela para diminuir preconceitos e discriminações que o povo de santo ainda venha a sofrer.

A sábia sacerdotisa Maria Stella de Azevedo Santos, Mãe Stella de Oxóssi, tem os seus artigos publicado no site http://mundoafro.atarde.uol.com.br/balaio-de-ideias-ritual-e-sacrificio/

Leiam!

Ritual e sacrifício (trecho)

Maria Stella de Azevedo Santos

A grande polêmica que fazem com a religião dos orixás é o fato de em alguns de seus rituais animais serem sacrificados. Uma prática que existe desde quando o homem precisa alimentar-se. Sempre foram realizados por muitas religiões, mas que aos poucos foram deixando de existir em algumas. A pergunta é, então, por que o candomblé ainda faz o que, para muitos, é considerado uma barbaridade?

A resposta é simples: essa religião tem uma profunda relação com o planeta Terra, tanto que suas danças são feitas com os pés totalmente plantados no chão, diferente do balé, que parece demonstrar que os bailarinos, dançando nas pontas dos pés, desejam alcançar o céu. Essa ligação com a terra não poderia excluir a necessidade que o homem tem de se alimentar para sobreviver. Oferecemos aos deuses tudo aquilo que nos mantém vivos e alegres: alimentos, flores, perfumes, água limpa e fresca. Tranquilizo os leitores dizendo que no dia em que os homens deixarem de ter na mesa galinha, galo, carneiro, porco, boi… naturalmente esses animais deixarão de ser ofertados aos deuses. Se um dia o sacrifício humano existiu foi porque as tribos se alimentavam de seus semelhantes. Se a desculpa para crítica de sacrifício de animais se deve ao fato de eles serem seres vivos, gostaria de lembrar que laranja, alface, couve também são seres vivos.

Afinal, quando arrancamos uma raiz de inhame para que ela faça parte da nossa farta mesa de café da manhã, nem lembramos que sacrificamos um ser vivo. Neste caso é para nos servir de alimento, e quando arrancamos uma flor pelo simples prazer de curtir sua beleza? Gostaria, apenas, que as pessoas que criticam os nossos rituais refletissem sobre o que foi dito anteriormente, com o coração e a mente aber ta, e chegassem às suas próprias conclusões. Não é nosso interesse forçar alguém a crer em nossas verdades, mas é nossa obrigação fornecer subsídios para ajudar as pessoas a ampliarem o conhecimento de suas mentes, a fim de que seus corações possam ficar cada vez mais livres de preconceitos, o que faz com que eles se tornem mais purificados.

Caso tudo o que falei ainda não tenha servido para que o sacrifício de animais no candomblé possa ser compreendido, quero lembrar que os animais de que o povo se alimenta no seu dia a dia são mortos em série, de maneira cruel, nos abatedouros. Os nossos animais são reverenciados desde que são escolhidos nas feiras livres, até o momento em que são oferecidos aos orixás, quando cobrimos seus olhos com folhas específicas de calma e cantamos a fim de diminuir o estresse que eles possam estar sentindo. Além disso, eles não são animais quaisquer, são escolhidos aqueles que o sacerdote consagrado para esta função percebe que já estão no momento de passar para outro estágio evolutivo. Não matamos o animal, damos a ele um novo nascimento, por isso cantamos: Bi ewe yeje para lala ie, Ògún pere pa = Demos-lhes um novo nascimento, você resistiu à prova, ultrapassou seguramente privações e sofrimentos, você não está morto, está vivo. Somente Ogun mata.”

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá.

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Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: juarezbomfim@uol.com.br.