Ex-presidente Fernando Henrique Cardoso: “28 partidos no Congresso. 70 esperando… Não dá! É preciso que os líderes se juntem para a aprovar logo a cláusula de barreira”

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso participa em Buenos Aires da reunião anual do Círculo de Montevidéu.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso participa em Buenos Aires da reunião anual do Círculo de Montevidéu.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso participa em Buenos Aires da reunião anual do Círculo de Montevidéu, reunindo na quinta-feira (11/05/2017) e sexta-feira (12), políticos, ex-dirigentes, intelectuais e empresários da América Latina. Entre os participantes, estão o ex-presidentes Ricardo Lagos (Chile) e Julio Maía Sanguinetti (Uruguai), o ex-premiê espanhol Felipe González e o atual presidente argentino, Mauricio Macri.

A Venezuela é um dos assuntos principais do encontro, mas FHC também falou sobre a crise política no Brasil com Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires. O ex-presidente explicou que “a corrupção sempre existiu, mas como desvio de conduta pessoal. “Não para sustentar um governo no poder”. Ele procurou diferenciar o Brasil de agora de quando foi presidente entre 94 e 2002.

Fernando Henrique Cardoso acredita que seja importante um pacto com líderes, principalmente com Lula, como forma de criar as bases para superar a crise política, mas descarta essa possibilidade que hoje seria interpretada como um pacto secreto para frear a Lava Jato. Leia os trechos da entrevista:

— Quando a Odebrecht disse que há décadas existe essa corrupção estrutural, isso envolvia o período do seu governo também, não é? Não havia essa corrupção, ou havia e o senhor não sabia?

Fernando Henrique Cardoso — O que ele disse? Ele disse que acontecia e que eu não sabia e que ele mesmo não sabia dizer como acontecia. Eu procurei me informar. Não consegui saber nada. Se aconteceu, eu não soube. Segundo, a tese da Odebrecht é de que sempre houve. Naquela época, não havia tanta preocupação. Eu não posso garantir se houve ou se não houve porque não havia essa obsessão de “Caixa 2”. E os recursos do meu lado foram fáceis porque o outro lado era o Lula. Naquela época, o Lula aparecia como se fosse o Ferrabrás [cavaleiro mouro, personagem épico medieval]. Está na Justiça. É muita gente. O volume de dinheiro nas campanhas era pequeno. Então, eu não acho que tenha havido a influência do Caixa 2, se é que houve, não é comparável.

— Mas com Collor e PC Farias houve…

FHC — Não! Houve outra coisa – sobra de campanha e corrupção quase pessoal.

— Fica parecendo que ocorria uma corrupção no Brasil há décadas, mas, durante o seu governo, abriu-se uma parêntese…

FHC — Não! A que vinha há décadas nunca parou. Não é uma corrupção política, nem organizada pelo governo. É de pessoas.

— Um desvio pessoal de conduta?

FHC — É. Desvio pessoal de conduta que, quando eu sabia, eu combatia.

RFI O senhor disse recentemente que é contra esse “acordão”. O senhor acredita para seja importante para superar a crise no Brasil uma espécie de “pacto da Moncloa” como uma necessidade de consensos para o país?

FHC — Isso eu acho que é importante.

— O senhor e outros líderes, especialmente o Lula, poderiam sentar-se e criar bases para uma saída para a crise brasileira?

FHC — Antes da crise agora com Lava Jato, eu mesmo dei sinais de que achava que tinha chegado o momento de nós nos unirmos para discutir as questões. Agora é mais complicado porque tudo dá a aparência de que estamos reunidos para frear a Lava Jato. Mas vai chegar o momento em que, não eu que já estou aposentado, mas os que estão na ativa têm que encaminhar. O sistema político que nós montamos na Constituição de 1988 hoje está diferente, corrompido. 28 partidos no Congresso. 70 esperando… Não dá! É preciso que os líderes se juntem para a aprovar logo a cláusula de barreira. Sobre essas questões, sim. Eu nunca me neguei a discutir. O que eu não quero é ter uma pauta secreta que vai dar a impressão de que você está querendo frear a Lava Jato.

— O senhor seria favorável a acabar com o presidencialismo de coalizão?

FHC — A coalizão em si não é errada. O modo é que é errado. O nosso sistema leva a isso porque, pelo nosso sistema, o presidente se elege sempre por maioria absoluta, mas como governa depois se o seu partido tem 20% do Congresso? Você é obrigado a fazer aliança. Aliança ao redor do quê? Eu tinha um projeto, um partido. Isso foi substituído por esse toma-lá-dá-cá o tempo todo. Aí não dá. É por aí a saída.

— O Brasil perdeu totalmente a capacidade de influência na Venezuela. Os próprios diplomatas dizem.

FHC — Perdeu, é verdade.

— Não só o Brasil, mas um grupo de países. O presidente Nicolás Maduro não quer nem saber de escutar esses países. Como é possível fazer Maduro aceitar uma mediação -até estão com medo de dizer mediação- uma negociação com um grupo de países através de uma saída democrática e negociada?

FHC — É difícil, porque um dos países que mais tinha influência era o Brasil. E o Brasil ficou paralisado primeiro porque tinha muito investimento brasileiro na Venezuela. Segundo, porque havia uma aproximação ideológica entre o governo de Lula e o de Chávez. Por outra parte, como o governo brasileiro não podia ser totalmente chavista, então se calava. Então, nós perdemos capacidade efetiva de influenciar diretamente a Venezuela. Como se recupera isso? De qualquer maneira, Colômbia, Brasil, eu diria que Cuba também porque Cuba tem responsabilidades sobre a Venezuela e vantagens pelo preço do petróleo. Então, Cuba, Brasil, Venezuela, Argentina, os países democráticos deveriam ser mais claros na sua posição e chegar ao Maduro e dizer “olha, não dá”. E chegar à oposição venezuelana e dizer “Vocês também se unam” e vamos fazer uma negociação entre os dois lados. Tentaram. Houve uma mediação do Vaticano. Não funcionou. Eu sei que é difícil, mas a situação econômica está-se deteriorando tanto que vai chegar a um ponto em que não é possível.

— O senhor acha que vai chegar um momento em que ele vai estar contra a parede e ser obrigado a essa “ajuda”?

FHC — Eu espero que sim.

— Mas até agora não tem sido isso. Ele tem rompido com tudo?

FHC — Tem rompido e tem tido algum apoio interno (militares). Situação desse tipo não se resolve do exterior. Se resolve no interior. Nós temos que ajudar, apoiar, mostrar os caminhos, mas os venezuelanos mesmos é que têm de chegar a um entendimento.

— O senhor tem alguma ideia, um caminho que indicaria?

FHC — Eu acho que, dos líderes que eu conheço, um está preso injustamente há muito tempo que é o Leopoldo Lopez. O outro está solto que é o Capriles. Acho que o Capriles tem uma noção de que a saída não pode ser pela violência. Tem que ser através do voto. E nós devemos exigir dos outros países que haja voto, que se respeite, pelo menos, a Constituição que o próprio Chávez colocou. Neste momento, não há nada.

— Vamos supor que a UNASUL e o MERCOSUL decidam suspender a VEnezuela como fizeram com o Paraguai (Mercosul já suspendeu)…

FHC — Eu acho que deveria fazer.

— E resolveria alguma coisa?

FHC — Não, porque se você não tiver localmente uma consequência, não adianta. Só isola. Mas eu acho que a OEA, a UNASUL e o MERCOSUL têm de dizer: “Olha, do jeito que vocês vão, não vai dar. Não vão ter apoio nenhum”. Eu acho que têm de falar com Cuba porque quem tem realmente penetração lá é Cuba. Infelizmente, o Trump atrapalhou o caminho da reintegração de Cuba num sistema democrático…não diria democrático, mas num sistema dos países da região. Isso dificultou, mas ainda assim, quem tem capacidade de pressionar diretamente é Cuba.

— Então, MERCOSUL e UNASUL devem suspender a Venezuela?

FHC — Acho que sim. Acho que sim porque você tem de negociar.. Eles têm de ver que estão sozinhos. Quem vai resolver não somos nós. São eles, os venezuelanos. Enquanto o governo do Maduro tiver a expectativa de apoio externo, ele vai poder resistir. Por isso, eu falo tanto de Cuba.

— Muito bem. Suspendem. Mas o senhor ao mesmo tempo diz que isso não vai resolver nada…

FHC — A solução não vem da suspensão. A solução tem de ser uma negociação interna.

— Suspensão mantendo os vínculos comerciais ou suspendendo isso também?

FHC — Se mantiverem os vínculos comerciais não resolve nada.

— Da última vez fizeram isso com o Paraguai…

FHC — A Venezuela foi suspensa do Mercosul em dezembro, mas mantém vínculos comerciais. A Argentina assumiu a Presidência rotativa da Unasul. A última vez que tanto o MERCOSUL quanto a UNASUL suspenderam um membro foi o Paraguai, em 2012, mas todos os países mantiveram intactos os vínculos comerciais.

*Com informações do RFI.

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