Editorial: a política do ‘Circus Maximus’, o Governo Temer e a nau dos corruptos que usurparam a República

A política do ‘Circus Maximus’, o Governo Temer e a nau dos corruptos que usurparam a República; elementos políticos são analisados em editorial.

A política do ‘Circus Maximus’, o Governo Temer e a nau dos corruptos que usurparam a República; elementos políticos são analisados em editorial.

‘Procissão de Bom Jesus dos Navegantes’, pintura de Carlos Bastos, exposta no mural do Plenário da ALBA.

‘Procissão de Bom Jesus dos Navegantes’, pintura de Carlos Bastos, exposta no mural do Plenário da ALBA.

O presente editorial objetiva analisar os recentes episódios que afetam a vida política da República e de como setores reacionários da sociedade e atores políticos identificados com o pensamento conservador conjugaram forças com a finalidade de usurpar a República e deter os avanços das investigações sobre atos de corrupção.

O editorial utiliza a alegoria de um pitura, com a finalidade de evidenciar como elementos do passado político se reificam no presente, objetivando explicar como derrotados no pleito democrático de 2014 assumiram o poder da República à revelia da soberania popular. Para este fim, são acrescidos esclarecimentos ao conceito da política do ‘Circus Maximus’.

Os políticos da Bahia e o Golpe

Ilustrando o plenário da Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA) existe o painel ‘Procissão de Bom Jesus dos Navegantes’, pintado por Carlos Bastos, o quadro possui como principal elemento uma nau em que figuram personagens da cultura baiana. Na pintura, a figura de maior expressão política é o falecido senador Antonio Carlos Magalhães (ACM, ARENA/PDS/PFL/DEM, Salvador, 4 de setembro de 1927 — São Paulo, 20 de julho de 2007), pai do falecido deputado Luís Eduardo Magalhães (PFL/DEM, Salvador, 16 de março de 1955 — Brasília, 21 de abril de 1998) e avó do reeleito prefeito de Salvador ACM Neto (DEM).

De forma emblemática, o plenário da ALBA foi denominado Palácio Luís Eduardo Magalhães, ao lado do edifício está sendo construída a praça Luís Eduardo Magalhães, cujo centro da praça é dominado pela estátua do político. A poucos metros do local existe uma fundação que leva o nome do falecido deputado. Nas proximidades, vias urbanas, aeroporto, prédios públicos ostentam o sobrenome da família Magalhães. Salvador, primeira capital do Brasil, em menos de um século foi sequestrada, na identidade, por uma família, cujo poder é historicamente conectado a processos antidemocráticos, a exemplo do Golpe Civil/Militar de 1964 e o Golpe Parlamentar de 2016.

Sintomaticamente, nenhuma das inúmeras favelas que prosperarem em Salvador, no auge do poder dos Magalhães, leva o sobrenome da dinastia identificada com a política do ‘Circus Maximus’.

O conceito de política do ‘Circus Maximus’ remete às práticas da dinastia inaugurada pelo Imperador Romano Tito Flávio Vespasiano (17 de novembro de 9 — 23 de junho 79), sucedido pelos filhos Tito e Domiciano. A dinastia demarcou o período de poder com a construção de edificações e monumentos que remetiam a “grandeza” da família, além da ocupação do Poder Central de forma antidemocrática. Se auto-intitulando Imperadores, cujo poder era transmitido por grau de parentesco, eles eram governantes cruéis, que conquistavam a simpatia da plebe através dos jogos de gladiadores e de benesses que pouco mudavam a vida citadina. Duas das mais famosas arenas da época — Coliseu (Anfiteatro Flaviano) e a Circo Máximo (Circus Maximus) — concentravam as populares “festas” do Império Romano.

Passado e presente

No presente, o prefeito ACM Neto foi citado pela imprensa como um político que preza pelos laços familiares, nomeando 11 parentes para cargos de confiança no governo municipal. É a política do ‘Circus Maximus’ na essência.

Entre dezembro de 2016 e janeiro de 2017, diferente do governador Rui Costa, que anunciou a contratação de servidores e investimento na infraestrutura da educação e saúde do Estado da Bahia, ACM Neto anunciou demissões de servidores do Município de Salvador, calendário de festas e contratações de artistas por vultosas quantias financeiras, colocando em prática a política do ‘Circus Maximus’.

A usurpação

O Golpe Parlamentar de 2016 é resultado da atuação das forças reacionárias, conjugada com políticos conservadores envolvidos em décadas de esquema de corrupção, que, aos poucos, está sendo desvelado pelas investigações da Força-tarefa do Caso Lava Jato.

Políticos baianos liderados historicamente pelas forças reacionárias do Magalhismo, a exemplo do ministro Antônio Imbassahy (PSDB), derrotado no pleito democrático de 2014, quando o mesmo apoiou a candidatura do senador Aécio Neves (PSDB/MG) à presidente da República, passaram a ocupar o Poder Central através da usurpação da República, processo em que foi destituída a presidente Dilma Rousseff (PT), através do Golpe Parlamentar, com uso de pseudo-argumento Constitucional.

Observa-se que é com o uso de instrumentos dotados de pseudo-legalidade que políticos derrotados passaram a atuar nos principais cargos do Poder Executivo Nacional do Brasil, a exemplo do magalhista Antônio Imbassahy. Não é difícil identificar como as investigações dos Casos Lava Jato, Panamá Papers e Zelotes precipitaram a unificação de políticos, e de setores da mídia e economia com a finalidade de usurpar a República.

A Nau

Neste contexto, com o aprofundamento das investigações sobre esquemas de corrupção, surge um novo cenário e um quadro denominado ‘Governo Temer, a nau dos corruptos que usurparam a República’.

Enquanto a Nau da pintura do plenário da ALBA ostenta a figura de ACM, o navio dos corruptos que usurparam a República poderia ser ilustrado com os protagonistas do Golpe Parlamentar de 2016, citados nos Casos Lava Jato, Panamá Papers e Zelotes, a exemplo do presidente Michel Temer (PMDB/SP), senadores Renan Calheiros (PMDB/AL), Eunício Oliveira (PMDB/CE), Aécio Neves (PSDB/RJ) José Serra (PSDB/SP); deputados Rodrigo Maia (DEM/RJ), André Moura (PSC/SE), Aguinaldo Ribeiro (PP/PB), e José Carlos Aleluia (DEM/BA); ministros Eliseu Padilha (PMDB), Moreira Franco (PMDB/RJ) e Antônio Imbassahy (PSDB/BA); prefeito ACM Neto (DEM/BA); e do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (PMDB)

Além dos nomes citados anteriormente, existe a lista dos ministros decaídos pela Lava Jato, a exemplo de Geddel Vieira Lima (PMDB/BA), Romero Jucá (PMDB/RR), Henrique Alves (PMDB/RN), Fabiano Silveira.

Com destaque, entre os apoiadores da usurpação, está o preso ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ), o empresário Paulo Skaf, e os ministros do Tribunal de Contas da União (TCU) Augusto Nardes e Aroldo Cedraz, todos citados como beneficiários de propina nos Casos Lava Jato e Zelotes.

À sombra do mastro da nau está o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes. Com a caneta dourada, ele escreve o episódio em que denegou o direito ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de ocupar ministério no Governo Rousseff e, de forma recorrente, utiliza o cargo de ministro para imputar ações e discursos contra os governos petistas, e em apoio a assunção usurpadora.

Um pouco atrás do ministro Gilmar Mendes está o juiz federal Sérgio Moro. A ele coube o papel de violar a lei vazando conteúdo ilegal da gravação do telefonema entre a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para a famosa rede de comunicação que apoiou do Golpe Civil/Militar de 1964, a Rede Globo. Uma tríade é formada, Sérgio Moro, Gilmar Mendes e a Rede Globo. Todos, unidos no episódio de usurpação que precipitou o fim do governo Rousseff.

Em um canto obscuro da nau, o tênue perfil do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC, PSDB/SP) e de Geraldo Alckmin, governador de São Paulo (PSDB) pontuam a participação dos políticos na usurpação da República.

O diagnóstico para derrubada do governo Rousseff, “falta as massas”, partiu do príncipe do Golpe Parlamentar, ex-presidente FHC. Ele é reconhecido como o intelectual do Golpe. Enquanto, ao governador de São Paulo coube o papel de coordenar as forças midiáticas e econômicas para apoio ao processo de usurpação.

No quadro, os ex-ministros do Governo Temer Fábio Medina Osório e Marcelo Calero são pintados como personagens que abandonam o barco, por discordar das práticas da tripulação. Enquanto deixam a nau, ela se aproxima do precipício em que estão reunidos os corruptos, que habitam um dos noves círculos do inferno, descrito na obra ‘Divina Comédia’, de autoria de Dante Alighieri.

‘Governo Temer, a nau dos corruptos que usurparam a República’ é uma pintura ainda incompleta, mas aos poucos ganha densidade, forma e contorno nítido. Personagens ganham relevo e são acrescentados a este lamentável quadro que retrata o momento político do país.

*Carlos Augusto é cientista social e jornalista.

Compartilhe e Comente

Redes sociais do JGB

Publicidade

+ Publicações >>>>>>>>>

Publicidade

Manchete

Colunistas e Artigos

Sobre o autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto Oliveira da Silva (Carlos Augusto) é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF). Atua como jornalista e cientista social. Telefone: (75)98242-8000 | E-mail: [email protected]