Criminoso confesso, ex-senador Delcídio do Amaral admite que não partiu de Lula ordem para obstruir delação de Nestor Cerveró

Criminoso confesso Delcídio Amaral relata corrupção na Petrobras nos governos de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso.

Em depoimento à Justiça Federal, ex-senador Delcídio do Amaral diz que foi sua iniciativa procurar a família Bumlai e que jamais discutiu sobre dinheiro com Lula.

O ex-senador Delcídio do Amaral, réu em ação penal por obstrução da Justiça por suposta tentativa de impedimento da delação premiada do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró, prestou depoimento nesta quarta-feira (15/02/2017) na Justiça Federal de Brasília. Na mesma ação, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva também é acusado de obstrução, por supostamente, de acordo com delação premiada de Delcídio, ter conversado com o ex-senador que trabalhasse para que Cerveró não assinasse um acordo de delação.

No depoimento desta quarta, Delcídio  afirmou que já estava em contato com a família do executivo da Petrobras desde janeiro de 2015, muito antes, portanto, da reunião que teria tido com Lula em maio daquele ano, onde este assunto teria sido tratado.

Delcídio também afirmou que Lula não lhe pediu que obstruisse a delação de Nestor Cerveró.  O ex-senador falou que não se lembra se foi ele ou Lula quem marcou a reunião de maio, nem a data exata da conversa, que teria acontecido em uma sexta-feira.  Segundo Delcídio, só os dois estavam na sala. O assunto Cerveró teria surgido em dado momento, mas o ex-senador não sabe quem o mencionou, se ele ou Lula. “O assunto sobre a família Cerveró surgiu na conversa (com Lula). E eu disse que eles estavam enfrentando dificuldade, e que uma alternativa era tentar atendê-los de alguma maneira. Lula disse que estava muito preocupado com a família Bumlai, e disse ‘veja o que você pode fazer’ sobre a família Bumlai. E eu imediatamente contatei o Maurício Bumlai (filho de José Carlos Bumlai).”

Segundo Delcídio, o ex-senador e Maurício Bumlai acertaram pagamentos mensais de R$ 50 mil à família de Cerveró, que duraram cinco meses.  Mas, ainda segundo o próprio Delcídio, ele não discutiu nada de dinheiro com o ex-presidente Lula, e que foi dele, Delcídio, a iniciativa de buscar o contato com o Maurício Bumlai. Essa seria, mesmo de acordo com o depoimento de Delcídio, a única suposta relação do ex-presidente Lula com as tratativas entre Delcídio e as famílias de Cerveró e Bumlai, que teriam acontecido entre janeiro e novembro de 2015.

Como a lei é clara ao determinar que ninguém pode ser condenado baseado apenas em delação premiada (realizada em troca de benefícios penais, o que é exatamente o caso do depoimento de Delcídio do Amaral), não há uma única prova que sustente a acusação de envolvimento do ex-presidente Lula em suposta tentativa de impedir a delação de Nestor Cerveró.

Em depoimentos anteriores como testemunha, tanto Bernardo Cerveró quanto Nestor Cerveró negaram que Delcídio tenha feito qualquer pedido de proteção em relação à José Carlos Bumlai ou Lula, e que as preocupações de Delcídio era apenas evitar citações ao próprio ex-senador. Delcídio negou essa fala de Cerveró feita na condição de testemunha, onde há a obrigação de se dizer a verdade, diferente da condição de réu de Delcídio.

Delcídio foi preso em novembro de 2015 graças à gravação de uma conversa dele com o filho de Cerveró, Bernardo. O ex-senador só deixou a cadeia ao acusar Lula em delação premiada, em processo da Operação Lava Jato.

No depoimento desta quarta, Delcídio também relatou que teve uma reunião com Lula, Edison Lobão e Renan Calheiros, e que Lula estaria preocupado com os desdobramentos da Lava Jato, não questionando a Operação em si ou fazendo qualquer tipo de obstrução à Justiça, mas manifestando “preocupação institucional”, com os efeitos dela no legado e na imagem do ex-presidente e de seu partido, o PT, após 13 anos de governo. Delcídio disse que Lula “teria razão”, inclusive pelo posterior impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

No início do depoimento, advogados de Lula e outros réus levantaram uma questão de ordem sobre se o ex-senador seria ouvido como réu ou réu colaborador. Porque, como réu, ele teria direito de permanecer em silêncio, mas como réu colaborador, após um acordo de delação premiada, ele não teria o direito de permanecer em silêncio em nenhuma pergunta, além de ter o compromisso de dizer a verdade. Foi definido, então, que ele deporia como réu.

Delcídio diz à Justiça que CPMI do Cachoeira foi esvaziada a pedido do governo

O ex-senador Delcídio do Amaral disse na quinta-feira (16/02/2017), em depoimento perante o juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal da Justiça Federal no Rio de Janeiro, que a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Cachoeira sofreu um esvaziamento por orientação do governo da época. A comissão foi instalada em abril de 2012 para apurar o envolvimento do contraventor Carlos Augusto de Almeida Ramos, conhecido como Carlinhos Cachoeira, com políticos e agentes públicos. Delcídio foi ouvido no processo da Operação Saqueador.

“O governo percebeu, nitidamente, que era uma CPI que poderia trazer problemas e, consequentemente, como todo governo faz, não é só aquele governo à época, mas outros também o fizeram, quando há risco, abafa”, disse Delcídio à imprensa após o depoimento.

O ex-senador não citou o nome da então presidente Dilma Rousseff, mas disse que, por questões políticas, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva incentivou a criação da CPMI. Delcídio disse que a comissão foi instalada no “sentido de justiçar”, o que tinha sido feito antes em relação à CPMI dos Correios, porque, de acordo com ele, havia um ranço da época do mensalão.

“Ele [Lula] foi um dos incentivadores dessa CPI, porque atingiria líderes de oposição fortes que estavam em Goiás, porque era uma visão territorial. Uma CPI restrita aos líderes do estado de Goiás, o que não aconteceu”, disse. “[Incentivou] no sentido de que se assinasse, para que se tivesse o número de assinaturas necessárias, que tinha que investigar, e assim foi feito. Depois das consequências todas que vieram, o próprio governo agiu no sentido de tirar o pé.”

Segundo o ex-senador, a CPMI foi criada para atingir o atual governador de Goiás e ex-senador Marconi Perillo (PSDB) e o senador Demóstenes Torres, que pertencia à bancada do DEM-GO e foi cassado em 2012, após denúncias de que recebia recursos de Cachoeira. Delcídio disse que restou uma mágoa contra Perillo no processo de criação da CPI dos Correios. “Diz que chumbo trocado não dói e então o chumbo voltaria. Só que aí, quando perceberam, o chumbo não estava voltando. O chumbo ia bater em quem estava querendo se vingar e esvaziaram a CPI.”

Reuniões de bancada

Ainda no depoimento, acompanhado pelos procuradores da República Leonardo Freitas, coordenador da Operação Lava Jato no Rio, e Sérgio Pinel, Delcídio contou que não era membro da CPMI e que sua participação na comissão foi apenas de acompanhamento dos trabalhos como senador. Ele acrescentou, no entanto, que em reuniões de bancada da base de apoio ao governo, o assunto era discutido com preocupação de novos envolvimentos.

“Falavam que, com as quebras de sigilo, outras empresas apareceram e aí poderiam aparecer contribuições de campanha ligando essas contribuições com várias obras em andamento. Aí acho que foi por este motivo que resolveram esvaziar, e a CPI terminou, melancolicamente, sem resultado nenhum”, afirmou. O ex-senador disse que tinha orientações de líderes da base do governo.

A Operação Saqueador investiga um esquema de desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro no valor de R$ 370 milhões. Além dos principais acusados, o dono da Construtora Delta, Fernando Cavendish, e Carlinhos Cachoeira, foram denunciadas 21 pessoas, entre executivos, diretores, tesoureira e conselheiros da empreiteira e proprietários e contadores de empresas fantasmas criadas por Cachoeira e os empresários Adir Assad e Marcelo Abbud.

“Eu ouvi falar nesses nomes todos à época em que estourou a CPI, mas não tinha detalhes. Como disse no meu depoimento, não dava nem tempo. A gente tem muitas atividades. Quem conhece o que acontece em uma CPI, normalmente, é quem é titular ou que é suplente”, disse.

Operação Leviatã

Após o depoimento, Delcídio comentou ainda a Operação Leviatã, deflagrada na quinta-feira (16) pela Polícia Federal para aprofundar as investigações sobre suposto esquema de desvio de recursos das obras de construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte e pagamento de propina a partidos políticos. Em delação Delcídio tinha apontado o senador Edson Lobão (PMDB-MA) como um dos envolvidos no esquema.

“Quando eu fiz esse depoimento, fiz questão de dizer que era um depoimento político, que seria complementado por outras colaborações. Acredito que este depoimento foi complementado por outras colaborações que ratificaram o que eu tinha dito”, afirmou. “Eu sabia o que tinha acontecido, tanto é que fiz questão de registrar ao Ministério Público que, com outras colaborações que viessem, isso iria se fechar. Acredito que, entre as colaborações, a da Andrade Gutierrez deu a consistência necessária para esta operação de quinta-feira (16).

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