Anticlericalismo, novos contextos de consumo da Ayahuasca e produção sustentável. Reflexões a partir da AYA2016.

O xamanismo coletivo — conceito antropológico — de uso da Ayahuasca inaugurado por Mestre Raimundo Irineu Serra no ano de 1930 com a Doutrina do Santo Daime, e as religiões ayahuasqueiras fundadas a seguir, a Barquinha do Mestre Daniel Pereira de Mattos (1945) e a União do Vegetal (1961) do Mestre José Gabriel da Costa são referências de como lidar materialmente com a produção e distribuição da Ayahuasca, e exemplos de trabalhar espiritualmente com a Ayahuasca, por serem doutrinas e religiões que têm cosmologia própria e original de sustentação do uso desta santa bebida aqui no plano terrenal.

No reino vegetal encontram-se verdadeiras dádivas de Deus: sementes, folhas, flores, frutos, raízes e cipós com surpreendentes propriedades transcendentais, levando o usuário das beberagens preparadas com tais substâncias a estados elevados de consciência, despertando o Divino que existe dentro de cada um. “Vós sois deuses, todos vós sois Filhos do Altíssimo” (Salmos 82: 6).

São substâncias enteógenas. Enteógeno significa o advento de Deus e do sagrado dentro de nós. A experiência mística que se revela ao beber o Divino. Porém, a experiência do sagrado em cada um só se dá pela graça: é a planta sagrada que lhe escolhe, e não o contrário.

Existem muitas variedades de plantas sagradas, plantas professoras. Por circunscrição experiencial eu só posso testificar de uma: a milenar bebida Ayahuasca, também chamada de Daime ou Vegetal — entre outras denominações.

Devido a sua importância, celebrou-se em Rio Branco – Acre, entre 17 e 22 de outubro de 2016 a II Conferência Mundial da Ayahuasca – AYA2016. Foram mais de 100 palestrantes, da mais alta qualificação em seus campos de conhecimento, que partilharam as suas experiências e se congraçaram neste grande happening ayahuasqueiro. Membros das comunidades indígenas sul-americanas, das religiões ayahuasqueiras, cientistas de diversas áreas e interessados em geral se congraçaram nestes 6 profícuos dias de estudos sobre o tema proposto: Ayahuasca.

Como exercício analítico do que foi dito e ouvido naquela oportunidade, somado aos conhecimentos adquiridos ao longo de duas décadas de práxis religiosa e investigativa com esta bebida sagrada, pretendo fazer uma reflexão sobre o que está explícito no título desta breve comunicação, na forma de indagação:

  1. Existem novíssimos usos contemporâneos da Ayahuasca?
  1. Ou ainda: o que são os novíssimos usos contemporâneos da Ayahuasca?

Quando, em parágrafo acima, classifico a Ayahuasca como “bebida sagrada”, estou delimitando o meu campo de análise como religioso, pois falar de Ayahuasca ou beber Ayahuasca é, inevitavelmente, adentrar o campo do conhecimento humano ao qual denominamos de religioso.

Religião é uma forma de representação do mundo, de concepção do mundo. A religião ajusta as ações humanas a uma ordem cósmica imaginada e projeta imagens da ordem cósmica no plano da experiência.

Cabe esclarecer também que novos e novíssimos usos da Ayahuasca contrapõe-se ao uso tradicional da Ayahuasca, ou assim deveria ser se a dinâmica cultural não reinventasse alguns desses ditos usos tradicionais. Porém, a título de classificação, podemos considerar na condição de uso tradicional o indígena, das religiões ayahuasqueiras brasileiras e a utilização da bebida por curandeiros e vegetalistas dos países amazônicos.

Considera-se que nos últimos 30 anos aconteceu uma difusión explosiva da Ayahuasca e sua apropriação por ocidentais, segundo Jacques Mabit — difusión explosiva… ah… as expressões superlativas da língua espanhola…

Continua o Dr. Mabit: “sem embargo, não se trata de responder aos fins produtivos do consumismo ocidental, e sim a crise existencial que resulta do esgotamento desta mesma sociedade” (tradução livre).

(In: http://www.takiwasi.com/docs/arti_esp/coca-ayahuasca-mismo-destino.pdf)

Podemos também dizer que o impulso do indivíduo a utilizar substancias que alteram a consciência pode ser visto, mesmo de maneira difusa, como um desejo sincero de experimentar o transcendente, o extraordinário, a buscar soluções e fuga das suas vidas ordinárias.

Essa procura — às vezes desenfreada — induz parte considerável da humanidade a comportamentos autodestrutivos. Daí que a busca arcaica e universal de estados não ordinários de consciência, por diversos meios, leva alguns indivíduos ao abuso de drogas e álcool — já a Ayahuasca é a esperança do oposto, isto é, uma medicina curadora de adicções e do mal-estar civilizatório.

Bem, se há uma difusión explosiva ou um boom ayahuasqueiro — profetizado num passado recente por estudiosos — me é difícil atestar e tenho cá minhas dúvidas. Todavia, o risco da vulgarização e banalização da sagrada Ayahuasca é apontada por muitos, junto com a sua vil mercantilização, reduzindo o espiritual e religioso a um ardiloso negócio para angariar lucros financeiros.

O aquecimento da demanda pelo consumo de Ayahuasca pode ter gerado novos e novíssimos usos contemporâneos da beberagem, e os estudiosos estão atentos a este acontecimento.

O fenômeno neoayahuasqueiro no Brasil

Ao lado da expansão das religiões ayahuasqueiras do Norte do país para outras regiões brasileiras, surgiu uma nova forma de consumo de ayahuasca, não institucionalmente religiosa, isto é, sem características de “igreja”, e sim um difuso exercício de espiritualidade.

A antropóloga Bia Labate analisou este fenômeno urbano de uso da ayahuasca e difundiu um conceito para qualificar os grupos estudados, e este termo logo passou a ser aceito: neoayahuasqueiro. Significa o surgimento de novos usos da ayahuasca, a ingestão da bebida associado a práticas terapêuticas e xamânicas, a estudos esotéricos de diferentes linhas, além da incorporação de correntes de pensamento afinadas com o movimento New Age e os conhecimentos orientais.

Os grupos neoayahuasqueiros que representam novas modalidades de consumo da Ayahuasca, são grupos e indivíduos que, além de consumirem abeberagem, reinventam e recriam seus rituais e cosmologias, fortemente influenciados pela filosofia New Age, por orientalismos (Osho, yoga, meditação etc.), pela psicologia (transpessoal e junguiana), por experimentalismos artísticos (artes cênicas e música) e pelo curandeirismo andino.

(Ver Labate, Beatriz Caiuby. Reinvenção do uso da ayahuasca nos centros urbanos. Campinas: Mercado das Letras, 2004.)

Na falta de uma cosmologia própria, estes indivíduos e grupos utilizam referências superficiais das próprias religiões ayahuasqueiras tradicionais.

O trabalho de campo da Bia Labate no período estudado — início dos anos 2000 — estava localizado no Brasil. O fato recente é que esses novos — ou novíssimos — usos urbanos contemporâneos ganharam dimensão mundial.

Uma crítica possível a boa parte dos grupos neoayhuasqueiros é a falta de  “sustança” material e espiritual destas organizações informais. Sustança é um substantivo feminino da língua portuguesa que significa algo substancioso, consistente e com forte conteúdo.

Ao dizer que não se encontra sustança em inúmeros grupos neoayahuasqueiros, isto significa que não se percebe consistência material e espiritual neles. Explicando: o uso responsável da Ayahuasca requer uma deontologia, quer dizer, uma ética de responsabilidade que perpassa todas as fases de produção, distribuição e consumo da sagrada bebida, desde o plantio do cipó e da folha, o preparo da bebida, a sua distribuição associativa e não comercial e o consumo responsável.

Grupos ou organizações informais que não desenvolvem esta prática, e dependem de um fornecedor externo do qual adquire Ayahuasca através do mecanismo comercial de compra, fere este princípio básico, e a sua existência e continuidade está vinculada a permanência e regularidade deste fornecimento comercial. Outra coisa: como é uma atividade comercial “clandestina” não há nenhum controle e vigilância da procedência e qualidade do “produto” adquirido, muitas vezes através de anúncios suspeitos na Internet.

A falta de substância espiritual vem do fato de não terem uma cosmologia própria, sequer sincretista, e pegam de empréstimos paradigmas religiosos, espirituais, psicanalíticos… utilizados para balizar o uso da beberagem com um simulacro ou arremedo de ritualidade.

Jacques Mabit e a “comunidade ayahuasqueira ocidental”

Na sua palestra na AYA2016 o Dr. Jacques Mabit falou de uma “comunidade ayahuasqueira ocidental” que, a rigor, constitui um difuso grupo social que pode ser classificado como de psiconautas, e não propriamente ayahuasqueiros, à medida que, por escassez de matéria-prima ou intencionalmente, produzem substâncias alucinógenas que não são elaboradas a partir da decocção do cipó Jagube/Mariri (banisteriopsis caapi) e da folha Rainha/Chacrona (psychotria viridis). Quando na forma de beberagem, essas substâncias podem ser denominadas de anayahuasca — análoga a ayahuasca.

O que o Dr. Mabit classifica de “comunidade ayahuasqueira ocidental” parece ser os usuários europeus ou, ampliadamente, membros de países não pertencentes à Amazônia, da qual as plantas são nativas e originárias.

Duramente crítico, Mabit considera que a chamada “comunidade ayahuasqueira ocidental” adere inconscientemente as categorias e conceitos do New Age, típico produto da pós-modernidade, com pretensão a mudanças dos paradigmas tradicionais. Para ele, a sociedade ocidental nasce da tradição judaico-grego-cristã e o movimento New Age se constrói essencialmente em oposição a esta tradição, do mesmo modo que muitas pessoas se orientam para espiritualidades autóctones por rechaço a esta mesma tradição. Essa coincidência ou convergência de enfoque leva a maior parte dos usuários de Ayahuasca procedentes do mundo ocidental a associar o uso da Ayahuasca à filosofia New Age.

Para Mabit, com sua arrogância e precipitação os ocidentais rechaçam o conhecimento ancestral sobre o uso da Ayahuasca e tendem a apropriar-se somente dos aspectos que lhes convêm, deixando de lado as regras básicas estabelecidas desde muitos séculos pelas sociedades amazônicas.  Inclusive quando se prescreve o uso terapêutico da bebida dentro do contexto dessacralizado da medicina ocidental, sem rituais, ignorando a dimensão espiritual. Assim, o uso tradicional da Ayahuasca como medicina que inclui uma dimensão espiritual é deixada de lado, e se pratica uma medicina dessacralizada, própria da ideologia pós-moderna.

O uso terapêutico da Ayahuasca

Daí que toma corpo a ideia ocidental de uso terapêutico da Ayahuasca. A comunidade cientifica internacional abraça essa causa, e se criam grupos e linhas de pesquisa em instituições acadêmicas respeitáveis.

A própria Organização Não Governamental ICEERS (International Center for Ethnobotanical Education, Research & Service), organizadora da AYA2016, se define como uma organização com objetivo da integração da Ayahuasca, da iboga e de outras plantas tradicionais como ferramentas terapêuticas na sociedade ocidental.

Secundariamente o ICEERS assume a defesa da preservação das culturas indígenas que utilizam as espécies botânicas da Ayahuasca, da iboga e outras, seu habitat e recursos botânicos.

Ocorre que a difusão do uso da Ayahuasca em plagas “ocidentais” se deu, principalmente, com a expansão das religiões ayahuasqueiras brasileiras, através da prática do xamanismo coletivo de uso da bebida inaugurado por Mestre Raimundo Irineu Serra no ano de 1930 com a Doutrina do Santo Daime, e explandido para o mundo pela vertente religiosa criada pelo Padrinho Sebastião Mota de Melo.

Todavia, os adeptos dos novíssimos usos contemporâneos da Ayahuasca parecem ser severamente críticos, resistentes e reativos quanto ao uso religioso da Ayahuasca na perspectiva das religiões tradicionais brasileiras. Qual o motivo?

Anticlericalismo e novos usos da Ayahuasca

Oriundos de uma sociedade de cultura laica e agnóstica — como é a sociedade europeia — jovens psiconautas destilam toda a sua fobia às religiões ayahuasqueiras brasileiras em suas crônicas e palestras. Isto porque, entre outras coisas são, ideologicamente, anticlericais.

Anticlericalismo é um movimento histórico que se caracteriza por hostilizar e condenar a influência dominante de instituições religiosas, especialmente contra o clero da Igreja Católica. Sua atitude denota uma crítica à instituição eclesiástica e à hierarquia católica em geral. O anticlericalismo é mais frequente contra o cristianismo católico, mas há atitudes anticlericais contra as demais religiões. Daí que tudo que cheira a vela e incenso é motivo de suspeita e rechaço.

O anticlericalismo é um fenômeno europeu e, dentro do Estado espanhol, notadamente na Catalunha. Suas raízes históricas são antigas e, no Século XX, pela associação da Igreja Católica ao franquismo.

Sobre as religiões e os religiosos ayahuasqueiros brasileiros escreveu de maneira depreciativa o diretor do ICEERS José Carlos Bouso, durante a AYA2016: “as igrejas ayahuasqueiras brasileiras mais tradicionais são como fósseis vivos, presas a dogmas que cada vez mais estão em contradição com o mundo moderno. Ou ao menos assim são estes que vieram aqui, a este espaço multicultural, a defender a sua escolha como a mais legítima das escolhas” (tradução livre).

(In: http://www.ayaconference.com/index.php/dia-4-cultivando-el-cambio/)

E o rechaço do José Carlos Bouso às religiões brasileiras ayahuasqueiras continua ao longo de suas crônicas diárias na página oficial da Wolrd Ayahuasca Conference 2016 http://www.ayaconference.com/?lang=pt-br . Todavia, o Bouso não está só.

Depoimento de Santiago Lopez-Pavillard: “eu conheci a ayahuasca na Espanha, através de um brasileiro chamado Dácio Mingrone (1959-2000). Dácio havia participado da Colônia 5 Mil, fundada pelo Padrinho Sebastião, de 1978 a 1980, e conhecia profundamente as cerimônias daimistas, a partir do qual desenvolveu uma forma menos ritualizada e mais pessoal de trabalhar com a planta.

“É nesse contexto cerimonial que eu tomei a bebida pela primeira vez em 1993. Recordo que quando tomávamos ayahuasca tínhamos a sensação de haver descoberto um tipo de espiritualidade que era muito diferente da espiritualidade católica dominante na Espanha. Sentíamos que nos haviam castrado espiritualmente, e que a ayahuasca nos havia posto em contato de novo com uma espiritualidade viva” (tradução livre).

(In:http://neip.info/novo/wpcontent/uploads/2016/10/Pavillard_Saberes_Contextos_Ayahuasca_AYA_2016.pdf )

Um outro pesquisador do fenômeno ayahuasqueiro ocidental, Josep Mª Fericgla, se declara plenamente convencido que a cosmovisão de raíz cristã é a causa da atual e preocupante situação de uma ayahuasca dessacralizada no mundo ocidental. Levando ao extremo o seu paroxismo, Fericgla lista os “oportunistas de todo tipo”: os laboratórios farmacêuticos, os oportunistas do mercado espiritual e — pasmem! — as religiões dogmáticas, quer dizer, as religiões ayahuasqueiras brasileiras.

(In https://josepmfericgla.wordpress.com/2016/10/24/la-ayahuasca-psicointegrador-del-pasado-y-del-futuro/)

Ah… e todos esses palestrantes da AYA2016, críticos da tradição judaica-cristã — que eles rechaçam — têm as suas fórmulas de qual seja o bom uso da ayahuasca… Fericgla fala de uma “Terceira Via”. O que é essa tal de Terceira Via?

A Terceira Via para o “papa” Fericgla seria: nem o xamanismo dos povos amazônicos, nem a religiosidade ayahuasqueira brasileira, e sim o uso terapêutico da beberagem por grupos de amigos que desenvolveriam algo difuso como uma “espiritualidade laica” que levaria a “uma abertura a dimensões inefáveis da existência”.

Um outro pesquisador, Marc Aixalá, acredita que o bom modo de beber Ayahuasca é reunindo um grupo de amigos que estabeleçam uma rede comunitária “sólida” que possa sustentar a experiência. E nesses novos contextos de consumo é onde realmente o apoio comunitário existe, mais do que nas igrejas e nas sessões xamânicas, afirma José Carlos Boso, que arremata: “goste ou não goste os tradicionalistas” (tradução livre).

(In: http://www.ayaconference.com/index.php/dia-5-la-pluma-cuantica/)

Antes de continuar, duas considerações:

  1. Esses pesquisadores falam de novos contextos de consumo, e não da preocupação com o meio ambiente e da produção segura e de qualidade da bebida. Isto é, o plantar-colher-preparar e distribuir a Ayahuasca — tema ao qual voltaremos.
  1. Todavia, relembrando o que foi dito mais acima: o uso responsável da Ayahuasca requer uma deontologia, quer dizer, uma ética de responsabilidade que perpassa todas as fases de produção, distribuição e consumo da sagrada bebida, desde o plantio do cipó e da folha, o preparo da bebida, a sua distribuição associativa e não comercial e o consumo responsável.

A tendência que se apresenta não tem sido esta, proposta por Fericgla e Marc Aixalá, de amigos psiconautas reunidos na sala de estar para beber Ayahuasca, e sim tem ocorrido outras: a) o crescimento da demanda pelo xamanismo dos povos amazônicos; b) e a regular e contínua expansão das religiões ayahuasqueiras brasileiras.

Novos contextos de consumo de Ayahuasca: xamanismo indígena

O movimento New Age é composto por indivíduos representativos de trajetórias identificadas com o programa ético-político de tipo “libertário” e são críticos da tradição, especialmente do “fardo repressivo” das tradições religiosas. Isso os leva a serem atraídos pelo diferente, pelo exótico que é, por exemplo, o xamanismo indígena da Amazônia ocidental. Isso acarreta um número cada vez maior de pessoas fazendo uso da ayahuasca fora do contexto das religiões institucionalizadas, e sim dentro do chamado uso ‘tradicional’ dos povos indígenas.

Leandro Althman pergunta: “como seria o uso tradicional da ayahuasca entre os povos nativos? É possível enquadrá-la como ‘religião’”?

(In: http://www.juruaemtempo.com.br/o-acre-nao-e-ibiza/ )

Os argumentos aqui expostos são todos do Althman:

“Pode-se questionar quanto de ‘tradicional’ efetivamente existe dentro do uso indígena, já que ao menos no Acre, estes povos têm sido também influenciados pelas religiões, especialmente o Santo Daime, no uso que fazem da medicina das aldeias.

“Surgem os jovens com violões, maracás e tambores, onde antes havia somente a voz do pajé. Músicas tradicionais recebem melodias que a fazem se assemelhar aos hinos do daime, ou mesmo aos pontos da umbanda”.

Althman considera que o mais apropriado entre os povos nativos é declarar a ayahuasca como ‘medicina’, que em alguns grupos é quase um sinônimo para a a bebida. “Parece mesmo que o uso mais corrente da ayahuasca tenha sido realmente para a cura e obtenção de saúde entre os povos nativos”.

Siã Huni Kuin corrobora com essa percepção, ao designar ayahuasca como “nossa medicina da floresta” que se deve tomar com a maior responsabilidade.

(In http://neip.info/novo/wp-content/uploads/2016/11/Siã_Ciência_Floresta_Hunikuî_Aya_2016.pdf )

E existem formas de utilização de ayahuasca diferenciados, pois nem sempre se faz o uso coletivo: em muitas culturas não necessariamente os ‘pacientes’ fazem uso da bebida, mas sim os ‘pajés’, que a utilizam como meio de prospecção da doença. A ‘cura’ efetivamente acontece a partir do tratamento, normalmente sob a forma de uma ‘dieta’ com as plantas, indicadas pela ayahuasca”, afirma Leandro Althman.

Há também um outro fenômeno, que Josep Mª Fericgla chama a atenção, que em diversas comunidades indígenas amazônicas onde a tradição xamânica de consumir ayahuasca se havía perdido há décadas ou séculos atrás, com o interesse que desperta no Ocidente, a recuperaram ou fizeram sua sem que haja indicios de antecedentes tradicionais disto.

O indigenista Jairo Lima afirma que nos últimos anos cresceu o movimento de indígenas que vão aos grandes centros urbanos — nacionais e internacionais — realizar rituais dos mais diversos tipos, ou participar de eventos de intercâmbio sagrado. Paralelamente a este aumento, também cresceu a demanda pelas “medicinas da floresta”, como a Ayahuasca.

(In http://cronicasindigenistas.blogspot.com.br/2016/08/sagrado-indigena-interacoes-e-desafios.html#more )

O destino destes produtos e serviços é o ‘mercado da fé’ composto por grupos de influência da cultura New Age que propiciam aos participantes dos eventos “a oportunidade de conhecer e vivenciar um pouco da cultura indígena”. Porém, este mercado da fé traz consequências para as comunidades e o meio ambiente, com algumas implicações preocupantes.

Escreve Jairo Lima: “é grande a mística que os indígenas exercem sobre estes grupos ou pessoas mais ‘antenadas’ com o mundo espiritual e a natureza. Para muitos, os indígenas representam a áurea do sábio, guerreiro, guardião, puro e iluminado. O índio assume, então, a figura daquele que desperta a lembrança de um ethos há muito adormecido, no âmago do ser espiritual do indivíduo”.

Criticamente, Josep Mª Fericgla adverte que atualmente certos indígenas amazônicos se fazem passar por xamâs para vender ao ocidental infantilizado uma caricatura de sua complexa cosmovisão indígena, sem que com isto o ocidental tenha que sacrificar seu seguro mundo emocional. Com frequência aceitam os presumíveis conhecimentos indígenas como um ato de fé, “e o crente ocidental se esforça em preservar um estado espiritual primitivo por razoes puramente sentimentais” (tradução livre).

Jairo Lima adverte: “infelizmente, há circunstâncias e casos que precisam ser citados e discutidos, de maneira a se evitar a banalização, a exploração e os estereótipos que tais práticas podem causar”.

No artigo referenciado o autor considera que é preciso, primeiramente, desconstruir a imagem de que todos estes indígenas que participam de rituais ou aplicam as medicinas tradicionais são “pajés”. Muitos são, de fato, aprendizes e divulgadores dos mistérios de sua cultura. Podem ser curadores, cantores, ambientalistas, artistas etc. Quer dizer, “nem todo índio é pajé, muito menos, e principalmente, se for jovem”.

Bem, agora as notícias alvissareiras de intercâmbios bem-sucedidos com os não-índios: realização e execução de projetos que beneficiam as comunidades indígenas, “projetos exitosos desenvolvidos pelos povos Yawanawá, Puyanawa, Ashaninka, Kuntanawa e por algumas comunidades  Huni Kuin”, que tiveram sua origem justamente pelos intercâmbios com pessoas e organizações sérias, que passaram a ser parceiras destas comunidades.

O comércio de Ayahuasca para alimentar os novos contextos de consumo

A ideologia New Age somada a mentalidade anticlerical ocidental propiciam a demanda por novos usos de Ayahuasca, que não o religioso de matriz brasileira, com as dificuldades e limitações de matéria prima e oferta produtiva para atender esta demanda.

A disponibilidade do cipó e da folha, assim como a produção de Ayahuasca, se concentram na região amazônica do Brasil, Bolívia, Peru, Colômbia e Equador; em todo o território brasileiro e algumas outras poucas localidades do Planeta, como o Havaí (EUA).

Como alimentar o mercado global de Ayahuasca? A demanda internacional por Ayahuasca?

A partir da mudança de milênio a Ayahuasca foi se convertendo em um produto mercantil a mais, afirma Josep Mª Fericgla, e a realidade óbvia é que, agora, Ayahuasca já não se consegue na floresta, e sim na Internet, “inclusive dentro dos marcos religiosos, já que alguns responsáveis das igrejas ayahuasqueiras comercializam a bebida sem observar o mínimo escrúpulo em referência a integridade moral do comprador” (tradução livre).

Pergunta: o justo paga pelo pecador? Existem igrejas ayahuasqueiras e igrejas ayahuasqueiras. Ou melhor dizendo, existem igrejas ayahuasqueiras sem aspas e “igrejas ayahuasqueiras” com aspas. Por igrejas ayahuasqueiras sem aspas entendemos aquelas que não comercializam a bebida sagrada.

Na Carta que os centros autointitulados tradicionalistas divulgaram ao término da II Conferência Mundial da Ayahuasca – AYA2016, alerta-se “quanto aos riscos e problemas que podem ocorrer quando as práticas não estão de acordo com os cuidados que consideramos necessários no uso e distribuição da Ayahuasca”.

E indicam o que é reconhecido e recomendado pelo Estado brasileiro: nenhuma forma de comercialização da Ayahuaca. Os associados de cada centro ou igreja devem arcar com os custos de manutenção de suas instituições, inclusive da confecção e transporte da bebida, sem repassar esses custos para não associados.

(In http://www.ayaconference.com/index.php/carta-dos-centros-tradicionalistas-a-ii-conferencia-mundial-da-ayahuasca/ )

Em que pese essa ser uma deontologia brasileira, esse parece ser o ethos mundialmente aceito. Porém, aí surgem os paradoxos e a dificuldade de observância deste ethos, quando os demandantes não são organicamente institucionalizados e vinculados às igrejas ayahuasqueiras e buscam ter acesso à beberagem. Que fazer? Comprá-la?

Outra coisa: a deontologia e a legislação brasileira sobre produção e distribuição de Ayahuasca vale para o território nacional. A realidade mundial envolve outros países produtores e países demandantes e suas legislações específicas.

O jornalista espanhol Carlos Suárez Álvarez, palestrante na AYA2016 e autor do livro multimídia “Ayahuasca, Iquitos y monstruo voraz”

(http://www.ayahuascaiquitos.com/es/ ) traça um painel alarmista da realidade socioambiental da Amazônia colombiana ao afirmar que a aceleradíssima expansão global do consumo de ayahuasca está dizimando a floresta. Segundo ele — a partir da crônica de José Carlos Bouso —  cada ano se processam dezenas de toneladas de ayahuasca para prover a demanda internacional. A ayahuasca sendo atualmente o produto vegetal melhor remunerado na Amazônia. Apesar disso, os indígenas e os demais habitantes da floresta são cada vez mais pobres.

“É a contradição de uma planta que parece aumentar a sensibilidade ecológica dos ocidentais ao custo de destruir ecossistemas naturais. E os habitantes das matas que coletam e elaboram a ayahuasca não são ecologistas. A relação dos moradores da floresta com seu entorno natural é conflitiva. Para sobreviver nela devem destruí-la. E quanto mais a destroem mais se empobrecem. E o círculo vicioso se perpetua” (tradução livre).

(in http://www.ayaconference.com/index.php/dia-3-la-diversidad-se-expresa/ )

E Bouso e Suárez continuam: a floresta tem sido tão explorada que já não há pesca, não há caça, não há vida. A elaboração de ayahuasca é um recurso de sobrevivência para muitos. “Lhes tiraram a caça, a pesca, sua fonte de sustento, como não vão vender ayahuasca se as pessoas querem comprá-la”? (tradução livre)

(In http://www.ayaconference.com/index.php/dia-2-de-quien-es-la-ayahuasca/  )

No caso das etnias indígenas acreanas, Jairo Lima adverte que, com a demanda crescente: surgiu um dado preocupante: “em muitas Terras Indígenas, o cipó nativo está escasseando, tornando necessário realizar manejo desta planta e, em algumas comunidades não tão organizadas, praticamente não se encontra mais em suas imediações”.

(In http://cronicasindigenistas.blogspot.com.br/2016/08/sagrado-indigena-interacoes-e-desafios.html#more )

O que de fato ocorre é que, quando extrativista, o trabalho de coleta do cipó e da folha é assaz árduo. Precisa-se localizar o cipó e a folha na floresta, cortar e transportar os vegetais para o local do feitio (preparo) e ali produzir a bebida.

Há o choque com as leis de proteção ambiental e com o sistema de propriedade fundiária, e a extração do vegetal fica a mercê da autorização governamental e permissão do proprietário rural. O caráter extrativista-predatório leva a escassez da matéria-prima e aumento das dificuldades de coleta. A cada ano torna-se mais distante e mais trabalhoso a pesquisa e busca do cipó Jagube/Mariri e da folha Rainha/Chacrona na floresta.

A maneira responsável e sustentável de cultivar e preparar Ayahuasca

O xamanismo coletivo — conceito antropológico — de uso da Ayahuasca inaugurado por Mestre Raimundo Irineu Serra no ano de 1930 com a Doutrina do Santo Daime, e as religiões ayahuasqueiras fundadas a seguir, a Barquinha do Mestre Daniel Pereira de Mattos (1945) e a União do Vegetal (1961) do Mestre José Gabriel da Costa são referências de como lidar materialmente com a produção e distribuição da Ayahuasca, e exemplos de trabalhar espiritualmente com a Ayahuasca, por serem doutrinas e religiões que têm cosmologia própria e original de sustentação do uso desta santa bebida aqui no plano terrenal.

Conheço e encontro zelo, responsabilidade e amor por esta santa bebida nas religiões ayahuasqueiras brasileiras. Limitações de ordem pessoal me levam a desconhecer como se dá o uso indígena da Ayahuasca, por isto cito outros autores ao longo do texto. Desconheço exemplos salutares de produção e uso responsável da bebida fora do âmbito das religiões ayahuasqueiras. Isto não significa a sua inexistência, e sim o meu desconhecimento.

A dinâmica cultural é viva, e parece que o processo de expansão do uso da ayahuasca vai continuar, assim como o surgimento de novos contextos de consumo. A Ayahuasca continuará a despertar o interesse de pessoas em países distantes, como a Rússia, Coreia, Japão… e em todos os continentes.

Todavia, falar de consumo exige, necessariamente, falar de produção responsável e sustentável. Pois o continuum harmonioso entre pr

Tata Txanu Natasheni Yawanawa

Tata Txanu Natasheni Yawanawa

odução, distribuição e consumo poderá evitar a sua banalização e vulgarização. Em se tratando de objeto sagrado, poderá evitar a sua profanação.

O Dr. Jacques Mabit adverte: a lei espiritual é implacável, a profanação do sagrado cobra um preço muito alto — e ele dá como exemplo plantas sagradas que se tornaram drogas perniciosas: a coca em cocaína, o tabaco no vício do tabagismo… etc.

Existe esse risco com a Ayahuasca?

Não, nestes termos não existe, assim pensamos. A planta professora se protege, se acreditarmos — assim como Dennis McKenna — que ela traz consigo uma poderosa cognição.

(in http://www.agencia.ac.gov.br/a-ayahuasca-e-inteligente-diz-medalhao-da-etnofarmacologia/ ) Todavia é certo orientar os novos usuários para o uso responsável e sustentável da bebida, e alertar os incautos sobre os riscos da sua profanação, banalização e vulgarização.

Para esta luz nunca faltar…

O Daime (Hoasca) é a luz de Jesus. “Os olhos são a lâmpada do corpo. Portanto, se teus olhos forem bons, teu corpo será pleno de luz. Porém, se teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em absoluta escuridão (Mateus 6: 22-23).

Desejo que teus olhos, amigo leitor, sejam plenos de luz. A Santa Luz do Daime — hoasca, iagé, uni, nixi pae.

Haux, Haux!

Amém!

Compartilhe e Comente

Faça uma doação ao JGB

Redes sociais do JGB

Publicidade

Publicidade

+ Publicações >>>>>>>>>

Manchete

Colunistas e Artigos

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]