Exclusiva: presidente da APLB Feira de Santana Marlede Oliveira comenta sobre luta política da classe trabalhadora e construção de um país socialmente justo

João Rocha, Marlede Oliveira e Adroaldo Santos, lideranças trabalhistas concedem entrevista ao Jornal Grande Bahia.

João Rocha, Marlede Oliveira e Adroaldo Santos, lideranças trabalhistas concedem entrevista ao Jornal Grande Bahia.

Marlede Oliveira: nós, do movimento sindical, na década de 1980, tínhamos críticas com relação a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Agora a luta é para manter essa CLT, manter 13º, manter férias, manter jornada de trabalho, manter o mesmo percentual para previdência.

Marlede Oliveira: nós, do movimento sindical, na década de 1980, tínhamos críticas com relação a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Agora a luta é para manter essa CLT, manter 13º, manter férias, manter jornada de trabalho, manter o mesmo percentual para previdência.

Na segunda-feira (07/11/2016), representantes de entidades da classe trabalhista de Feira de Santana concederam entrevista ao Jornal Grande Bahia sobre os protestos planejados para sexta-feira (11/11/2016) e para o próximo dia 25 (sexta-feira), em Feira de Santana e no Brasil.

Adroaldo Santos, representando a Associação dos Docentes da Universidade Estadual de Feira de Santana (ADUFS); Marlede Oliveira, representando a APLB Feira de Santana e João Rocha, representando o pensamento trabalhista comentaram sobre os desafios da classe trabalhadora em manter direitos, frente a crise econômica que afeta o país e as mudanças na estrutura político/jurídica que atingem o trabalhismo, com perda de direitos para a classe, decorrente  da liderança conservadora do governo Michel Temer.

A entrevista durou cerca de duas horas e foi dividida em três blocos. No segundo bloco são destacadas as avaliações de Marlede Oliveira. Na sequência, será publicada entrevista com João Rocha.

Confira entrevista com Marlede Oliveira

Jornal Grande Bahia – Como analisa o movimento de greve nacional e a participação da APLB?

Marlede Oliveira – Os trabalhadores vão para as ruas dia 11 para essa greve geral justamente pela questão da PEC, que vai atingir em cheio a classe trabalhadora, os servidores públicos serão um dos mais penalizados, como também os investimentos que são destinados à saúde e educação. Em vista disso, é necessário que tenha reação dos trabalhadores a essas propostas do governo Temer em fazer um pacote de medidas que mexe na Constituição Federal e nos investimentos.

No Brasil, além da crise econômica ainda existe a crise política e uma coisa afeta a outra, crise econômica, crise política. Tiraram a presidenta, e nesse momento, aquele governo não serve mais a essa elite, servia a há algum tempo, mas não serve mais. Então a elite concebe o golpe contra a presidente Rousseff e depois outro golpe, com a finalidade de retirar direitos da classe trabalhadora.

Nós, do movimento sindical, na década de 1980, tínhamos críticas com relação a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), porque acreditávamos que ela precisava ser modernizada. Agora a luta é para manter essa CLT, manter 13º, manter férias, manter jornada de trabalho, manter o mesmo percentual para previdência, essa previdência com todos os problemas ainda dá para o trabalhador se aposentar.

O papel da mídia

A classe trabalhadora precisa reagir a esses ataques a direitos consolidados. Mas, em vista disso, tem a grande mídia que ajudou o golpe no Brasil, a grande mídia, a Rede Globo e toda imprensa burguesa desse país.

Nós não temos o domínio da mídia, pois ela pertence a cinco famílias. Todo dia eles colocam mensagens de um partido que rouba, de um partido que é ladrão. A corrupção no Brasil, o roubo do Brasil está desde o dia em que os portugueses botaram o pé aqui, que mataram os índios, que escravizaram o negro, são 500 anos de perseguição ao povo indígena.

Corrupção

Então a mídia focou em conjunto com a classe média e a elite que havia uma corrupção partidária no Brasil e tiraram a presidente. Só que a corrupção vem de antes, vem do governo Fernando Henrique, inclusive com afundamento de plataforma. A reeleição de Fernando Henrique e custou R$ 200 mil a cada deputado para aprovar.

O que mais rouba no Brasil é prefeito, prefeito rouba de qualquer lado e está lá na ponta das cidades pequenas e o roubo é enorme. Então a classe trabalhadora precisa reagir a essas medidas que não vai mexer nos ricos, não vai mexer nas grandes fortunas, mas vai tirar dos trabalhadores.

A gente precisa ir para as ruas, estamos organizando essa mobilização, depois de alguns anos que não tinha greve geral no Brasil. Mas a classe trabalhadora precisa reagir com todas as dificuldades que nós estamos enfrentando.

JGB – Vocês acreditam que vão conseguir mobilizar um número significativo de pessoas para o dia 11 novembro e o dia 25?

Marlede Oliveira – Estamos organizando para isso, preparando a classe trabalhadora para isso, acreditamos, se não acreditássemos a gente não ia marca o dia 11 como um dia de luta.

JGB – Quantas pessoas a senhora estima que o movimento trabalhista de Feira de Santana pode levar as ruas nos dia 11 e 25?

Marlede Oliveira – Nós temos os rodoviários, temos uma parte significativa dos trabalhadores porque parando o transporte dificulta o acesso a indústria, o comércio, os comerciários também estão junto com a gente nessa organização da greve geral, os servidores públicos que não são só servidores públicos também nessa organização para os dias 11 e 25. Estamos nos organizando e nos mobilizando para fazer um grande ato e parar o Brasil para mostrar ao governo que a classe trabalhadora está insatisfeita.

Porque o povo também não se deu conta, muita gente não sabe o que é PEC 241. A maioria da população não sabe. A mídia divulga o que é bom para o crescimento do Brasil. Mas não tem divulgado os pontos negativos que atingem os trabalhadores.

JGB – Que pontos a senhora destacaria?

Marlede Oliveira – Nos investimentos da educação e para os servidores, se limita a um teto salarial. Hoje, nós encontramos dificuldade de negociar aumento de salários com os estados e municípios em decorrência da Lei de Responsabilidade Fiscal. O gestor argumenta que está no limite, e observe que a PEC 241/PEC 55 ainda não foi promulgada. Quem mais vai ser penalizado, vai ser o servidor público.

Fernando Henrique governou 8 anos, foram 8 anos de reajuste zero para o funcionalismo. Parece que as pessoas se esqueceram e não tinha nem PEC 241 nem PEC 55, naquele momento só tinha a Constituição Federal. Ele tratou servidor dessa forma, reajuste zero e os estados e os municípios seguiram a proposta do governo federal, reajuste zero. Imagine agora com essa PEC.

Em Feira de Santana, nós temos deficiência de cerca de 30 creches. As mulheres, hoje, têm um comportamento diferenciado de anos atrás, as mulheres estão no mercado de trabalho e deixam seus filhos onde? Nas creches, tem que ter creche, como vai se vestir na creche? Algumas creches que temos aqui em Feira de Santana foi desse investimento do governo Lula e Dilma que se construiu algumas creches nessa cidade e em outras também.

JGB – Como analisa a provocação do governador do Maranhão, Flávio Dino, do que é necessário uma frente ampla de esquerda e incluir o centro da sociedade para um debate político em 2018?

Marlede Oliveira – Sem nenhuma dúvida é necessário ter esse debate. A frente ampla que a gente precisa organizar no Brasil é essa agora, e não só na eleição de 2018, porque não vai organizar uma frente somente para eleição.

A gente precisa ter organizado os trabalhadores para o enfrentamento que está em curso hoje que é a retirada de direitos da classe trabalhadora. Então as eleições, quer queira quer não, são burguesas, porque só elege quem tem dinheiro. Foi provado que em Feira de Santana e no Brasil inteiro, mesmo com toda essas medidas que o Congresso fez, nós sabemos que há compra de voto, quem tem dinheiro, quem tem capital, se elege, quem não tem é visto ou nem é visto.

Queremos uma democracia que fosse dominada pelo povo, pela classe dos trabalhadores, mas não é assim. A elite continua, mesmo com o voto e com as eleições, a elite continua com o domínio. Porque existe uma máquina para que se eleja aqueles que tem o capital e isso está provado no dia a dia, na compra de voto.

A representação no Congresso Nacional é formada por 513 deputados e 81 senadores. A maioria ligada aos representantes dos banqueiros, do latifundiário, dos grandes empresários porque o povo é muito pouco representado. Isso acontece, também, nas representações estaduais e municipais.

Então eu acho que a gente precisa ter uma mobilização para a gente vencer as forças da elite burguesa que está aí dominando, porque a gente nunca pensou nesse Brasil. ]

Escravidão e violência

A elite, desde o descobrimento do Brasil, produziu quatro séculos de escravidão. Isso resultou nessa violência urbana e na desigualdade social em que vivemos.

Como a elite terminou a escravidão? Jogou as pessoas na rua, não deu terra, e os que fossem encontrados nas ruas, como tem nos livros de história, seria preso. Foi dada a liberdade sem dar as condições de trabalho.

Não tem escrito em lugar nenhum que a riqueza que a gente tem nesse país e no mundo é para uma minoria. O país tem 70 mil ricos e 220 milhões de trabalhadores, com parcela considerável de miserável. O trabalhador não tem carteira assinada, não tem casa para morar, então todos nós precisamos ter essas condições e qualidade de vida

O que nós precisamos mesmo é nos organizarmos para o enfrentamento com as elites e dividir essa riqueza, porque essa riqueza está sendo dividida na tora. O cara bota a arma para lhe tomar o relógio, para tomar o tênis e o celular. Isso é porque ele está vendo a mídia a todo instante com propaganda de celular de ponta custando quase R$ 4 mil e isso enche os olhos do adolescente, pois os adolescentes são incentivados a comprar roupa de marca, celular do mais caro. Então, quem não tem se sente desprestigiado, penalizado e aí a riqueza está sendo dividida na tora, bota o revolver, vai e toma.

O país mais violento do mundo está sendo o Brasil e isso é fruto de uma escravidão, fruto de toda essa distorção social, da exclusão social que não se dividiu a riqueza. Então o pobre precisa se organizar para fazer a revolução no Brasil e tomar dos ricos. Porque qual foi o banqueiro que ficou rico trabalhando?

Os portugueses chegaram aqui e fizeram as capitanias hereditárias, concentraram as terras nãos mãos da elite colonial, a terra que tomaram dos índios. Então essa sequência de saques e violência vem de séculos de exploração.

O povo trabalha e tem e aquele que explora o trabalho do outro, que vem a ser o capitalista. Observe que o capitalismo do Brasil é um dos mais selvagens do mundo. Mas, você assiste as novelas da Rede Globo e o Brasil aparece como o país maravilhoso. Nas novelas da Globo até os mais pobres, são os mais bonitos, tudo maquiado, todo mundo bonitinho. Então o povo tem que se organizar mesmo, em frentes sociais, populares, para poder discutir esse país que nós temos e o país que nós queremos e precisamos.

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Sobre o autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto Oliveira da Silva (Carlos Augusto) é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF). Atua como jornalista e cientista social. Telefone: (75)98242-8000 | E-mail: diretor@jornalgrandebahia.com.br.