Editorial: o vilipêndio da Nação; procurador da República chega a receber R$ 88 mil mensais e renda média anual dos servidores é de R$ 500 mil

Folha de pagamento dos procuradores é de R$ 45 milhões mensais. Cidadão pode acessar pagamentos do MPF no site do órgão.

Folha de pagamento dos procuradores é de R$ 45 milhões mensais. Cidadão pode acessar pagamentos do MPF no site do órgão.

O descontrole na folha de pagamento dos servidores públicos do país é a marca mais evidente do que foi classificado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes como saque aos cofres públicos provocado por grupos que operam parcela do poder da República.

A situação patológica levou o Senado Federal a instituir, na quinta-feira (10/11/2016), uma Comissão com a finalidade de rever os salários do funcionalismo pagos pelos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

Sobre o tema dos supersálarios pagos à ocupantes do poder público, fontes encaminharam ao Jornal Grande Bahia cópia da planilha de pagamento de servidores do Ministério Público Federal (MPF), referente ao mês de outubro de 2016. Na planilha consta a relação de 1080 servidores públicos federais, que ocupam a função de procuradores da República. Os 1080 procuradores recebem R$ 45.110.479,20 em salários, com média mensal de R$ 41.769,00 por procurador. Observa-se que, em um dos casos, um procurador da República chega a receber R$ 88 mil em um único mês. Observa-se, também, que são várias as situações em que o salário supera os R$ 50 mil mensais.

Analisando a renda anual, infere-se que os procuradores da República recebem cerca de R$ 500 mil por ano. O equivalente a remuneração de um executivo de uma empresa de médio porte, que tenha cerca de 100 trabalhadores e que movimente capital em valor superior a R$ 10 milhões por ano.

Nesse contexto, como explicar o fato de que servidores da República possam receber o equivalente a um capitalista de médio porte? Como explicar o fato de receberem o equivalente, em um ano, a 500 vezes o salário mínimo?

Do paradigma a orgia

Os salários dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que deveriam servir de paradigma para algumas poucas funções públicas, se tornaram a referência para inúmeras atividades e o desejo de centenas de milhares de trabalhadores da União. Não satisfeitos com o limite constitucional, esses servidores utilizam subterfúgios para ampliar os ganhos, depauperando os recursos públicos em uma orgia de ganhos incomparáveis com qualquer função pública, em qualquer parte do mundo.

O resultado do vilipêndio é evidente. A sociedade brasileira deixou de ser uma sociedade de classes para se tornar uma sociedade de castas, onde parte do funcionalismo público sequestra a renda nacional através de salários incompatíveis com a desigualdade social do país e com o interesse público.

Enquanto alguns milhares de privilegiados servidores fartam-se na pujança dos milhões pagos em tributos pelo povo brasileiro, a sociedade agoniza em desigualdade, concentração de renda, baixo investimento em infraestrutura e serviços públicos de baixa qualidade.

Não é apenas a corrupção que degrada a vida na República, como dito pelos procuradores do Caso Lava Jato. Os privilégios inconfessáveis de castas que ocupam o Poder são, também, coparticipes na degradação da vida na vilipendiada República Federativa do Brasil.

Baixe

Planilha de pagamentos dos procuradores da República referente ao mês de outubro de 2016

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*Carlos Augusto é cientista social e jornalista. O Jornal Grande Bahia é associado a ONU, através de contrato firmado com a Rádio ONU.

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Sobre o autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto Oliveira da Silva (Carlos Augusto) é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF). Atua como jornalista e cientista social. Telefone: (75)98242-8000 | E-mail: diretor@jornalgrandebahia.com.br.