José Raimundo, o perfil do jornalista da Globo

Jornalista José Raimundo Carneiro de Oliveira.

Jornalista José Raimundo Carneiro de Oliveira.

José Raimundo Carneiro de Oliveira (José Raimundo), setembro de 1955

Há quase quatro décadas trabalhando em televisão, José Raimundo tem uma vasta experiência em coberturas no Nordeste. Entre inúmeras reportagens, fez três grandes matérias sobre o rio São Francisco, um dos mais importantes do Brasil. Acompanhou acidentes ecológicos e a degradação que ameaça este curso d´agua que passa por cinco estados e abastece seis hidrelétricas.

Trajetória

“Sou sertanejo e me identifico muito com esta região. Desculpem a falta de modéstia, mas conheço o Vale do Rio São Francisco quase como a palma da minha mão”, diz, orgulhoso, José Raimundo Carneiro de Oliveira, que nasceu em Riachão do Jacuípe, interior da Bahia, próximo de Feira de Santana, em 29 de setembro de 1955.

Muito jovem, José Raimundo mudou-se para a capital. Quando passou para a faculdade de Sociologia, em Salvador, já trabalhava em rádio como jornalista e depois na TV Itapuã, emissora da Rede Tupi do grupo de Assis Chateaubriand, onde foi admitido em 1978 e saiu no início da década de 1980.  Era o único repórter da emissora, que estava à beira da falência e não pagava os salários aos funcionários. “No fim do mês eu recebia um relógio, ou um produto qualquer que o departamento comercial conseguisse no sistema de permuta. Minha sorte é que eu não dependia desse trabalho na televisão, porque o que me mantinha, na verdade, era o salário que eu ganhava como caixa do Banco do Estado da Bahia. Mas eu fazia por amor, sempre gostei muito de ser repórter.”

Ele lembra que antes de a TV Itapoã ser vendida, as entrevistas com o então governador da Bahia, Antonio Carlos Magalhães, no Palácio Rio Branco, eram feitas fora do gabinete dele: “Os equipamentos eram tão sucateados, tão improvisados, com aquela montanha de fios embolados e fontes de energia, que quando nós chegávamos, ele, com medo de um incêndio, mandava esperar no corredor, às vezes no saguão.

Segundo o jornalista, o grupo de empresas dos Diários Associados – TV e rádio – acabou sendo comprado por um empresário espanhol, radicado na Bahia, que investiu em novos equipamentos.

Mas José Raimundo não vivenciou muito a boa fase da TV Itapoã. Convidado por Hermano Henning, foi trabalhar na TV Aratu, na época afiliada da Globo e líder de audiência. O diretor de jornalismo era o José Amilcar Tavares, que o deixou de “quarentena”, sem poder aparecer no vídeo, para evitar problemas porque ele havia deixado outra emissora pouco tempo antes.

“Embora melhor estruturada, ainda se usava na TV Aratu a velha CP, uma câmera com filme. Nós saíamos para fazer matéria com película de 300 pés, suficiente para três reportagens, mais ou menos três minutos para cada uma. A gente não podia errar. Não havia ilha de edição, o filme era revelado em laboratório. Eu sou meio jurássico, mas também acompanhei outras fases da televisão, como as câmeras de fita, de rolo, a u-matic, ligada por um fio a um gravador e operada por duas pessoas. O pobre do operador sofria muito porque tinha de acompanhar o cinegrafista, como se fosse um cordão umbilical. Hoje, nós gravamos quantas vezes for necessário”.

Em 1987, quando a TV Aratu deixou de ser afiliada da Globo, o jornalista passou um curto período em São Paulo, até que Alice-Maria pediu que se transferisse para Recife, integrar a Globo Nordeste, onde ficou durante três anos. “Recife centralizava o Nordeste. Viajei muito a outros Estados da região, voltei várias vezes à Bahia, a gente não parava. As pautas eram muito dinâmicas. Fiz muitas denúncias sobre prefeitos corruptos que desviavam dinheiro público, muitas reportagens sobre meio ambiente também”.

Ao final deste tempo, a TV Bahia já estava no ar e por interferência do então diretor da Central Globo de Jornalismo, Alberico Souza Cruz, José Raimundo foi convidado por Carlos Libório, na ocasião diretor da nova emissora, a retornar à Bahia. E lá está até hoje, revelando-se um profissional versátil, que cobre desde carnaval até importantes jogos de futebol disputados na Bahia pela Copa das Confederações, em 2013, e no ano seguinte pela Copa do Mundo no Brasil. Uma revelação curiosa: “Trabalho em televisão há 36 anos e em fevereiro de 2014 fiz a minha trigésima quinta cobertura de carnaval em Salvador”.

Embora tenha feito centenas de reportagens transmitidas no Jornal Hoje, no Jornal da Globo e, eventualmente, no Fantástico e no Globo Natureza, José Raimundo não esqueceu sua primeira matéria no Jornal Nacional, “o funil mais apertado” na Globo, e que lhe valeu muitos elogios. Foi sobre uma mina de cobre, no norte da Bahia. Para extrair o minério, era necessário descer a quase mil metros de profundidade. Além do risco a que eram submetidos, os trabalhadores passavam horas em condições de total insalubridade.

A reportagem feita ao longo de uma semana sobre um acidente ecológico no leito do Rio São Francisco, no norte da Bahia, foi o passaporte do repórter José Raimundo para o Jornal Nacional. A repercussão foi tão positiva que os diretores de Jornalismo na época, Armando Nogueira, Alice-Maria e Woile Guimarães, comunicaram que a partir daquele momento José Raimundo passaria a integrar o quadro de repórteres da rede. A mortandade havia sido provocada pelo despejo de vinhoto feito por uma usina de cana-de-açúcar, cujo dono, revoltado com a repercussão da matéria em todo o país, chegou a ameaçar de morte o jornalista.

Esta foi a primeira meta alcançada. O passo seguinte foi o Globo Repórter. “Este programa é o sonho de todo repórter depois de conquistar o Jornal Nacional, porque dá mais espaço, o jornalista consegue sair mais do factual e tem mais tempo para trabalhar as matérias, com mais profundidade, fazer uma cobertura mais densa, mais elaborada. Primeiro, eu participava do Globo Repórter com um, às vezes dois blocos. Quando consegui fazer os três blocos foi uma glória!”, disse José Raimundo, ao lembrar que o tema era o rio São Francisco.

Ele navegou desde a nascente do rio até a foz e já em 1999 o São Francisco, responsável pelo abastecimento de 12 milhões de pessoas em mais de 500 cidades, dava sinais de agonia. A repercussão do programa foi excelente e deu origem a outros sobre o mesmo tema. Dois anos depois, José Raimundo voltou a fazer matéria sobre o rio, descoberto 500 anos antes, em 1501, por Américo Vespúcio. Fez o mesmo percurso, também para o Globo Repórter, mas desta vez com um olhar mais crítico, acompanhando um grupo de ambientalistas.  O São Francisco voltou a ser tema de uma série feita pelo repórter para o Jornal Nacional.

José Raimundo fez várias reportagens para o Globo Repórter sobre diversos assuntos: Amazônia;  trabalho infantil, junto com o repórter Marcelo Rezende, premiada no Festival de Nova York;  mortalidade infantil, em parceria com o repórter Francisco José, que trabalha em Recife e considera seu irmão mais velho. Sobre a Amazônia, destacam-se as matérias Amazônia Seca (2003), Amapá: o Mar da Amazônia (2007) e Viagem das Águas Amazônicas (2011). Merecem também ser citadas as séries sobre o centenário de morte de Antônio Conselheiro e a Guerra dos Canudos, que foi ao ar no Jornal Nacional e no Fantástico, e sobre os festejos em Porto Seguro para comemorar 500 anos do descobrimento do Brasil. Outro marco na carreira do jornalista foi a denúncia sobre fraudes na Previdência Social, apresentada no Jornal Nacional, além das reportagens sobre os Caminhos da Comida (2009) e o Centenário de Jorge Amado (2012).

Ao longo de mais de três décadas, José Raimundo coleciona em sua trajetória coberturas de momentos importantes na vida do país, como a visita do papa João Paulo II à Bahia em 1980, diversas eleições nacionais, estaduais e municipais, e entrevistas com presidentes, ministros e políticos. Durante a ditadura, chegou a ter cassada sua permissão para cobrir as viagens do então presidente João Batista Figueiredo por ter tentado aproximar-se para entrevistá-lo.

Agilidade é essencial. E o repórter lembrou da cobertura da caçada ao sequestrador Leonardo Pareja, em Salvador, em 1995. O jornalista ficou mais de 65 horas acompanhando os acontecimentos e o desfecho do sequestro ocorreu em Feira de Santana, para onde o criminoso havia fugido com uma refém. Amauri Soares, editor-chefe do JN na época, avisou a José Raimundo que ele entraria ao vivo para mostrar ao público o clima de tensão nas negociações entre a polícia e o sequestrador. A transmissão do cerco policial e da fuga do criminoso apareceu primeiro no Domingão do Faustão e logo depois na abertura do programa Fantástico. O sequestrador acabou morto.

Mas o tema recorrente na carreira do jornalista, e que faz parte de sua trajetória, é a questão ecológica. Foi com uma série sobre a destruição da Mata Atlântica e como isso poderia ser evitado, apresentada no Jornal Nacional, que ele recebeu dois importantes prêmios: Embratel e Conservação Internacional.

José Raimundo define o jornalismo como a profissão que tem a função de mostrar a realidade dos fatos e dar voz a quem não tem. E, para ele, o jornalista deve ter consciência de sua responsabilidade de fazer esta mediação. Neste trabalho, segundo afirmou, o limite é o bom senso, a ética, o respeito ao outro. “Esses são os pilares de todo trabalho jornalístico”.

*Com informações do Núcleo de Memória da Rede Globo.

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