Eleições 2016: as tendências políticas reveladas pelas eleições municipais

O senador Marcelo Crivella é eleito para a prefeitura da capital fluminense ao vencer Marcelo Freixo no segundo turno.

O senador Marcelo Crivella é eleito para a prefeitura da capital fluminense ao vencer Marcelo Freixo no segundo turno.

O resultado do segundo turno das eleições municipais reforçou a tendência de crescimento do PSDB, derrocada da esquerda, em especial do PT, e trouxe um elemento novo ─ a vitória de uma liderança evangélica em uma das cidades mais importantes do país.

O bispo licenciado da Igreja Universal Marcelo Crivella (PRB) obteve 59,36% dos votos válidos no Rio de Janeiro, derrotando Marcelo Freixo (PSOL).

No Sul, o PSDB elegeu pela primeira vez um prefeito em Porto Alegre: Nelson Marchezan Júnior recebeu 60,5% dos votos, batendo Sebastião Melo (PMDB).

Os tucanos ganharam também em importantes cidades do ABC paulista (região metropolitana de São Paulo), tradicional reduto petista e berço político do ex-presidente Lula.

Apesar disso, perderam em Belo Horizonte, a base do presidente da legenda, o senador Aécio Neves (PSDB-MG).

Evangélicos

Para a cientista política Christiane Laidler, professora de História Contemporânea da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), a eleição carioca trouxe duas novidades em termos de forças políticas.

De um lado, mostrou o fortalecimento do PSOL, uma sigla de esquerda ainda pequena, mas que vem crescendo no Estado desde a eleição de 2014.

De outro, acabou coroando uma importante liderança evangélica, na primeira grande vitória no Poder Executivo de um grupo político que já vem ganhando espaço relevante no Congresso e em assembleias legislativas.

Devido ao grande número de parlamentares, o PRB teve cargos no governo do PT ─ o próprio Crivella foi ministro da Pesca ─ e agora o presidente da sigla, Marcos Pereira, ocupa o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços.

É a primeira vez, porém, que o PRB ganha uma capital, e logo a segunda maior do país, destaca Laidler.

“Essa direita religiosa não é mais um fenômeno marginal, acho que já é um fenômeno central (na política brasileira)”, destaca.

“É uma direita com um projeto diferente, ligada à uma igreja pentecostal, bastante conservadora, sobretudo do ponto de vista da agenda moral”, acrescenta.

Vitória do PSDB

Em termos gerais, o grande vitorioso das eleições municipais foi o PSDB, apontam os analistas.

Embora o PMDB tenha ganhado, mais uma vez, o maior número de municípios, isso não criou um fato novo nem serviu para alavancar a popularidade do presidente Michel Temer, assinala Rafael Cortez, cientista político da consultoria Tendências.

Além disso, o partido perdeu no Rio de Janeiro, sua principal vitrine, onde o prefeito Eduardo Paes não conseguiu levar seu candidato, Pedro Paulo, nem para o segundo turno.

Já o PSDB ganhou em cidades mais importantes e vai governar o maior número de pessoas.

Em São Paulo, o mais importante Estado do país, o partido já havia levado no primeiro turno a capital, com a eleição de João Doria, afilhado político do governador Geraldo Alckmin.

No segundo turno, ganhou também outras cidades importantes ─ tradicionalmente governadas pelo PT ─ como São Bernardo do Campo, Ribeirão Preto e Santo André.

Sem candidato no segundo turno em seu berço político, São Bernardo do Campo, o ex-presidente Lula optou por nem votar neste domingo (30/10/2016). Como o líder petista tem mais de 70 anos, seu voto não é obrigatório.

Neste domingo, o PSDB também conquistou mais cinco capitais: Porto Alegre, Belém, Manaus, Maceió e Porto Velho.

Perdeu, porém, em Belo Horizonte, justamente reduto de Aécio. Na capital mineira Alexandre Kalil (PHS) derrotou o tucano João Leite com 53% dos votos válidos.

O resultado deixa Alckmin fortalecido para disputar com Aécio a indicação do PSDB para candidato presidencial em 2018, acredita Cortez.

“O PSDB foi o partido que mais conseguiu mobilizar o voto antipetista (no pleito municipal). O partido tem grande oportunidade de retornar e ter um ganho positivo nas urnas em 2018”, avalia.

Derrota do PT e da esquerda

Enfraquecido pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, a crise econômica e as denúncias de corrupção, o PT encolheu fortemente nas eleições municipais. Ganhou em apenas uma capital, com a reeleição de Marcus Alexandre no primeiro turno em Rio Branco (AC). De 638 prefeituras conquistadas em 2012, o partido ficou apenas com 254 nesta eleição.

“A despeito da Lava Jato envolver vários partidos, foi o PT que de fato pagou por esse preço. E o partido enfrenta uma crise que deve ser agravada por conta da ausência de liderança para mobilizar a reconstrução da imagem partidária”, afirma Cortez.

Ele avalia que agora a sigla vive uma relação ambígua com sua maior liderança, Lula, que enfrenta o desgaste de seguidas denúncias de corrupção ─ as quais ele nega ─ e o risco de ficar impedido de concorrer em 2018 devido a uma eventual condenação.

A forte dependência do ex-presidente acaba sendo um impeditivo para o partido se reconstruir, acredita Cortez.

“O aumento da rejeição a Lula ajuda a explicar o encolhimento do PT, mas a despeito de toda a crise é ele quem ainda consegue ter um apoio mínimo dentro do eleitorado”, nota.

Se o partido não se reinventar, corre risco de perder o protagonismo na esquerda, acredita Cortez.

“A maior expressão desse desafio (de reconstrução) é o fato de haver concorrência dentro da esquerda. O PT foi ultrapassado do ponto do vista eleitoral dentro da esquerda nesta eleição. Não chegou num segundo turno de uma grande capital, coisa que o PSOL fez”, ressalta.

Mas embora o enfraquecimento do PT tenha aberto mais espaço para vitórias de outros partidos de esquerda, como PSOL e PDT, o desempenho dessas siglas não foi capaz de evitar o avanço da direita.

“Essa eleição marcou a derrota dos partidos progressistas, de esquerda, e até de centro-direita. O projeto da Rede (partido de Marina Silva) não teve efetividade, conquistou pouquíssimas prefeituras. Os projetos de terceira via, de centro, também não deslancharam”, observa Christiane Laidler.

2018?

Os resultados das eleições municipais costumam refletir na composição do Congresso Nacional seguinte, de modo que o cenário hoje aponta para um encolhimento da bancada do PT na Câmara e no Senado e um crescimento das bancadas de direita.

A disputa presidencial, porém, segue sendo uma incógnita, afirmam os analistas, devido aos desdobramentos imprevisíveis da Operação Lava Jato.

A expectativa é que dia 8 de novembro dezenas de executivos da Odebrecht assinarão um acordo de delação premiada que pode trazer denúncias contra importantes políticos de PMDB, PSDB, PT, entre outras siglas, inclusive autoridades do governo Temer.

Não está descartado em Brasília também o risco de o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, hoje preso em Curitiba, seguir o mesmo caminho.

“2018 vai depender dos desdobramentos das investigações e quanto isso vai desgastar políticos tradicionais: Aécio, Serra, Alckmin, PT”, ressalta Cortez.

Um cenário de forte desgaste dessas lideranças poderia ser favorável a Mariana Silva, que tem uma imagem mais distanciada da política tradicional, no entanto, o desempenho muito fraco da Rede dificulta sua candidatura.

“Marina não aproveitou toda essa crise petista e hoje ela é menor do que foi em 2014. Naquele momento ela herdou a estrutura do Eduardo Campos (morto em acidente durante a campanha). Ela tem agora um ponto de partida muito mais baixo”, observa.

Dentro da esquerda, além de Lula, o ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT) tem despontado como possível candidato. Para Laidler, as reformas impopulares que vêm sendo propostas pelo governo Temer podem gerar uma resistência de esquerda.

“O PT parece não estar mais no jogo político, mas a agenda de desmonte do Estado de bem-estar social vai gerar muito conflito, que deve se refletir em 2018”, acredita.

Já o presidente Michel Temer tem evitado se colocar como possível candidato à reeleição, para não melindrar seu principal aliado, o PSDB.

Ruptura no PSDB?

Para Cortez, o successo do PSDB em 2018 vai depender de o partido evitar a fragmentação de seus principais líderes.

Ele levanta a hipótese de que, caso Aécio, que hoje controla boa parte do partido, seja o candidato, Alckmin possa deixar a sigla para tentar concorrer por outra legenda, como o PSB por exemplo.

Movimento semelhante poderia ocorrer com o ministro das Relações Exteriores, José Serra, que teria como opção se abrigar no PSD, pondera.

*Com informações da BBC Brasil, por Mariana Schreiber.

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