Caso La Vue: em resposta ao presidente Michel Temer, Marcelo Calero diz que “servidor tem de ser leal, mas não cúmplice”

O presidente Michel Temer e o ex-ministro da Cultura Alexandre Calero. Acusações de Calero colocam presidente no centro de um escândalo ético e moral.

O presidente Michel Temer e o ex-ministro da Cultura Alexandre Calero. Acusações de Calero colocam presidente no centro de um escândalo ético e moral.

Em entrevista ao programa ‘Fantástico’, veiculado na Rede Globo neste domingo (27/11/2016), o ex-ministro da Cultura Marcelo Calero confirma que gravou conversas com o presidente Michel Temer (PMDB) e alguns ministros. As gravações seriam sobre suposto crime de advocacia administrativa praticado pelo então ministro-chefe da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima (PMDB), referente a construção do edifício La Vue Ladeira da Barra e o parecer do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) negando que o empreendimento, projetado para ser construído em Salvador, tenha 30 andares, por estar localizado em área tombada como Patrimônio Histórico da União.

Em decorrência de pressões políticas para atuar no caso La Vue em favor da posição de Geddel, que tem apartamento no prédio, Marcelo Calero pediu demissão na sexta-feira (18), no sábado (19), concedeu entrevista a Folha de São Paulo relatando o episódio que o conduziu a renunciar ao cargo de ministro, na quarta-feira (23), prestou depoimento à Polícia Federal e disse que o presidente Michel Temer o havia “enquadrado” e sugerido uma saída por meio da Advocacia-Geral da União para o caso. Na sexta-feira (25), Geddel pediu demissão do cargo. Neste mesmo domingo (27), o presidente Temer tentar explicar a participação no episódio. Em resposta, Calero concede entrevista ao Fantástico.

Na entrevista com a repórter do Fantástico Renata Lo Prete, o ex-ministro Calero disse que, “até por sugestão de alguns amigos na Polícia Federal”, gravou várias ligações telefônicas para se municiar de elementos nas denúncias que faria. Só uma dessas gravações – de conteúdo “protocolar”, nas suas palavras – teria sido com Temer. “Foi a conversa da minha demissão”, disse. Quando questionado pela jornalista se também teria gravado Geddel e o ministro-chefe da casa Civil, Eliseu Padilha, Calero foi evasivo: “Não posso responder a essas perguntas” – segundo ele, para não prejudicar a investigação em curso.

Durante a entrevista, Marcelo Calero comentou que “ficou patente que altas autoridades da República perdiam tempo com um assunto absolutamente paroquial” e se queixou de ser alvo do que chamou da “boataria” de que teria pedido uma segunda audiência com Temer no mesmo dia só para gravar a conversa. “Por ser diplomata, eu jamais entraria no gabinete presidencial para fazer isso”, declarou.

Segundo Calero, em uma conversa inicial com o presidente, ele teria saído contente por achar que Temer havia lhe dado razão. Num segundo encontro menos de 24 horas depois, no entanto, ele teria se decepcionado ao ouvir o presidente falar em outro tom: “Marcelo, eu tenho muito apreço por você, mas essa decisão do Iphan nos causou bastante estranheza.” De acordo com Calero, o presidente reclamou que a decisão do Iphan teria causado “dificuldades operacionais” ao governo. A repórter então perguntou o que queriam dizer as tais “dificuldades operacionais”. “Ele não explicou, disse apenas que decorriam do fato de que o ministro Geddel teria ficado muito irritado.” Temer teria recomendado, ainda, que o caso fosse encaminhado à Advocacia-Geral da União. E ensinou: “Marcelo, a política tem dessas coisas.”

“Em menos de 24 horas todo aquele respaldo que me havia garantido ele me retira e me determina que eu criasse uma manobra, um artifício, uma chicana como se diz no mundo jurídico, para que o caso fosse levado à AGU”, acusou Calero.

Ao “Fantástico”, Calero disse também que gravou outras autoridades, mas não revelou quais. Outro ministro que se envolveu na questão foi Eliseu Padilha, chefe da Casa Civil.

Na entrevista, Calero rejeitou insinuações de que teria sido desleal. “O servidor tem de ser leal, mas não cúmplice”, disse. “Me choca ver que interesses particulares ainda prevaleçam”, adicionou. Por fim, ele deu sua interpretação para as razões da crise: “Eles acharam que eu faria qualquer coisa para preservar meu cargo de ministro. Mas não faria nada que não concorde, por cargo nenhum.”

“Ficava patente que altas autoridades da República perdiam seu tempo em favor de um assunto paroquial, que se referia ao interesse particular de um ministro”, disse.

Presidente tenta explicar

Por meio do porta-voz Alexandre Parola, Temer disse que buscou “arbitrar conflito” entre ministros e negou que ter pressionado Calero por uma saída para o caso. Temer voltou a falar sobre a questão em entrevista coletiva concedida na manhã deste domingo, quando já estavam no ar as chamadas anunciando a entrevista de seu ex-ministro no Fantástico. Temer classificou de “indigno” um possível ato de gravar suas conversas.

*Com informações da Veja e da BBC Brasil.

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