A criminalização da esquerda acontece quando o Brasil decide não ser mais coadjuvante, avalia ex-presidente Lula

Ex-presidente Lula critica avanço reacionário.

Ex-presidente Lula critica avanço reacionário.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou na tarde de sábado (05/11/2016) do ato contra a Criminalização dos Movimentos Populares e em Solidariedade à Escola Florestan Fernandes, do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). A mobilização é uma resposta à ação policial que, na manhã de sexta-feira (4), invadiu as dependências da escola em Guararema (SP) sem mandado judicial. Durante a ação, a polícia disparou três tiros na escola e deteve dois militantes. Um homem de 64 anos foi preso por desacato e teve uma costela quebrada. Uma mulher que tentou defendê-lo também foi presa.

Lula falou durante meia hora no encerramento do ato. Em seu discurso, o ex-presidente disse que o ataque à escola acontece em uma série de ataques aos movimentos sociais e aos democratas e progressistas do país. “Eu não sou muito de teorias da conspiração, mas eu me pergunto se essas ações nascem aqui ou lá fora”. Lula considera curioso que o golpe parlamentar seguido por uma agenda retrógrada que penaliza os trabalhadores e movimentos sociais tenha surgido justamente no momento em que o Brasil não ser mais apenas um coadjuvante no cenário internacional. O ex-presidente relembrou uma série de fóruns que foram criados e fortalecidos dentro do continente como Mercosul, Unasul, Conselho de Segurança, Celac e intercontinentais, como Brics, Ibas e o estreitamento das relações com a África e os países árabes. “Não pensem que foi fácil”. “E agora, que descobrimos o pré-sal, a maior descoberta de petróleo do século 21, até o Pré-Sal querem que não seja mais nosso, mudando a lei de partilha”.

O ex-presidente disse que esse é um momento para a união dos progressistas e da esquerda. “Nós temos que decidir o que queremos em comum para o futuro deste país. Porque essa campanha é política, econômica e ideológica. Não é só contra mim ou contra o MST, o meu caso é o menor de todos, já tenho 71 anos e a casca dura. Não se preocupem comigo. Temos que nos preocupar contra a criminalização dos movimentos sociais e da esquerda”.

Participaram do ato mais de mil pessoas entre alunos da escola, militantes, acadêmicos, professores e autoridades. Entre os presentes estavam o senador Lindbergh Farias (PT-RJ), o ex-senador e vereador eleito de São Paulo Eduardo Suplicy, deputados federais, vereadores e o prefeito de Jacareí, cidade vizinha, e o filho do patrono da escola, Florestan Fernandes Jr.

“O que aconteceu aqui ontem abalou a mim e a minha família. Além da bandeira do MST, o movimento social mais importante deste país, foi também um ataque à memória de meu pai, que lutou a vida inteira pela inclusão social e pela escola pública de qualidade”, disse Florestan Fernandes Jr.

As ações policiais de ontem aconteceram em três estados, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Paraná. Na cidade de Sidrolândia, no Mato Grosso do Sil, três viaturas policiais com placas do Paraná entraram no Centro de Pesquisa e Capacitação Geraldo Garcia (Cepege). Ao todo, foram presos oito militantes, um deles vereador eleito por Quedas do Iguaçu.

O senador Lindbergh Farias (PT-RJ) disse que este não é um ato isolado de solidariedade, que não se pode mais dizer que o Brasil vive um estado democrático de direito pleno. Num momento em que o governo corre para aprovar o desmonte dos direitos de trabalhadores, incluindo o direito de greve.

Jamil Murad, do PCdoB, afirmou que a invasão foi uma consequência do golpe, que aconteceu justamente para implantar outro projeto de país, sem passar pelo crivo do voto.

O deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) foi em linha semelhante. Lembrou do Projeto de Emenda Constitucional que penaliza os gastos sociais, mas não mexe nas grandes fortunas ou no pagamento de juros da dívida. O deputado terminou saudando os jovens das 1200 escolas ocupadas em todo país.

A Escola Nacional Florestan Fernandes tem parcerias com pesquisadores e professores de diversas universidades e hoje atende a alunos do Brasil e de outros 32 países: África do Sul, Canadá, Egito, Estados Unidos, Gana, Ilhas Maurício, Ilhas Rodrigues, Índia, Marrocos, Nepal, Nigéria, País Basco, Palestina, Quênia, Senegal, Síria, Tailândia, Tanzânia, Tunísia, Zâmbia, Dubai, Cuba, Venezuela, México, Honduras, Porto Rico, Paraguai, Argentina, Chile, Colômbia, Equador e República Dominicana.

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