Rosa de Lima comenta ‘Vida Privada no Contexto Público’; obra autobiográfica de Sérgio Mattos

Capa do livro 'Vida privada no contexto público' de autoria de Sérgio Mattos.

Capa do livro ‘Vida privada no contexto público’ de autoria de Sérgio Mattos.

Obras sobre o jornalismo baiano são raras e sempre que uma delas é publicada em livro torna-se objeto de análise e de reflexões sobre fatos históricos e acontecimentos do dia a dia. Quando esse tipo de trabalho acrescenta momentos relacionados à cidade e ao estado, aspectos da cultura, da vida cotidiana, das relações institucionais, do jornalismo baiano em sí, a obra fica ainda mais interessante, mais abrangente e prazerosa de ser lida.

Sérgio Mattos, em “A Vida Privada no Contexto Público” (Quarteto Editora, 646 págias, 2015) revela-nos essas nuances contando a sua própria história, em autobiografia, dentro do contexto histórico baiano e brasileiro com narrativas que remetem as origens de sua familia cearense estabelecida em Salvador a partir do final dos anos 1950 e nos dourados e complicados anos 1960/1970, os quais mesmo sob a égide de uma ditadura militar, a capital baiana vivia uma fase fulgurante no meio cultural.

O comércio se expandiu e se modenizou com a chegada do primeiro shooping center fora do centrão da cidade, o turismo se tornou uma fonte de renda e economia importante, a UFBA era oficina de criatividade e surgiu a Tribuna da Bahia, em 1969, jornal que imprimiu uma nova cultura no jornalismo baiano.

A familia Mattos aportou em Salvador, lembra o autor, com o visionário e eximio vendedor Sêo Zebinha (José de Castro Mattos) à frente, em setembro de 1959, “desembarcamos no Aeroporto 2 de Julho e fomos levados em um automóvel conversível de origem norte-americana, com a capota arriada, direto pra o Hotel da Bahia, na Praça do Campo Grande e viajamos todos juntos para a terra onde tinha uma igreja para cada dia do ano, como já se dizia naquela época”.

O livro começa delicioso desde as primeiras páginas quando Sérgio lembra a trajetória de Sêo Zebinha, primeiro na IBM, uma multinacional, depois nas boutiques Madá e na Mima presentes, com detalhes de esta última loja era “próximo a Livraria Pindorama, de Ivo Andrade, da loja Antenor Decorações e da revenda de automóveis de Benedito Borges”, detalhes que enriquecem a obra e são um retrato da cidade.

Daí, Mattos lembra da Suprema Móveis, de Jaimes Fischer, onde Sêo Zebinha também atuou e vendeu todo mobiliário para o novo Centro Administrativo da Bahia que se instalara, sendo, por isso e por outras atuações no CAB homenageado como um dos passageiros do barco pintado no painel de Carlos Bastos na Assembleia Legislativa, originalmente obra de 1974.

O livro é denso, repleto de detalhes, de lembranças de personagens dos mais ilustres as mais simples, uma relação enorme de pessoas que gravitou em tono de projetos pilotados e organizados por Mattos e outros dos quais participou desde o inicio de sua carreira até os dias atuais. Até os vizinhos e conhecidos são citados.

Sérgio não deixa escapar nenhum detalhe e pode ser cansativo ler um livro com mais de 600 páginas, e diria até que é, porém, representa um documento valioso para quem deseja conhecer parte da história do jornalismo baiano e também da cidade do Salvador, em particular, da história baiana.

Quando Mattos relata todos os acontecimentos que vivenciou atuando na Juventude Universitária Católica (JUC) nos memoráveis tempos de Dom Timóteo Amoroso, abade do Mosteiro de São Bento e da repressão aos estudantes traz à luz do debate fatos importantes desse momento história em plena ditadura militar.

Outra narrativa preciosa é sobre a criação da Tribuna da Bahia, seu emprego formal mais consistente no inicio da carreira, nos anos 1969/70, relembra personagens que, aos olhos de hoje estão esquecidos ou adormecidos, como Elmano Castro, o visionário; e Quitnino de Carvalho, o editor chefe que modernizou a cultura do jornalismo impresso na época, fase importante na história do jornalismo baiano porque além de mexer com conceitos de linguagem, alterou comportamentos e princípios.

O autor traz à claridade fatos acontecidos há 50 anos e isso tem um valor inestimável, tanto memorialistico como de conteúdo.

“Na Tribuna tive oportunidade de acompanhar e aprender todas as etapas da produção jornalistica, pois, tirando o tempo gasto na apuração das noticias, quando repórter, e as saídas para assistir aulas na UFBA, eu passava o resto das horas do dia lá, só saindo tarde da noite, após o fechamento das edições. Conversava muito com Misael Peixoto sobre a diagramação das matérias, o que me foi de grande importância quando idealizei e projetei o Jornal de Utilidades e outros suplementos especiais para o jornal A Tarde”, confessa o autor.

O livro revela centenas de depoimentos de Mattos pertinentes aos seus projetos, reportagens e lembranças, desde suas idas ao escritório de Ariovaldo Matos, a AGATE, uma das primeiras assessorias privadas da cidade, as suas andanças pelo exteriort na complementação de sua formação academica nos Estados Unidos e sua passagem demorada pelo jornal A Tarde, então, o mais importante veículo impresso de comunicação do Norte e Nordeste do país.

São detalhes e mais detalhes, narrativas sobre o Jornal de Utilidades e o Jornal dos Municípios, depoimentos envolvendo figuras históricas do jornalismo baiano como Jorge Calmon, J.A. da Cruz Rios, Arthur Couto, Regina Simões e a turma da coxia, do trabalho diário – Marco Antonio Moreira, Azimozete Sant’Anna, Carlos Meneses, Reynivaldo Brito, Helô Sampaio, Alfredo Castro, Zoraide Vilasboas, Francisco Viana, Eliezer Varjão, etc – os diagramadores, repórteres e fotógrafos.

Dado histórico: “Quando implantei o suplemento A Tarde Municípios, no ano de 1985, eu a convidei e Aya Leite voltou a assinar a coluna sociais, naquele suplemento, fazendo a mesma coisa de antes, só que com registro de pessoas do interior”. Outra lembrança valiosa: “A coluna de Propaganda no Jornal de Utilidades foi a primeira da categoria na imprensa regional e era assinada por meu primo Francisaco Ribeiro, o Ribeirinho, que trabalhava no escritório regional da Reprenaes; e Reynivaldo Brito começou a assinar a coluna de Artes Plásticas em 20 de abril de 1974”.

É uma longa trajetória de vida que não dá para resumir tudo neste artigo até porque, Mattos se tornou um multimidia atuando na música (compositor), na literatura (poeta e ensaista) e no meio acadêmico (professor doutor da UFBA/Facom). Para quem acha que ainda é pouco teve a ousadia de publicar uma revista mensal, a Neon, por longos anos, num mercado que sempre foi avesso ou resistente a esse tipo de publicação, e quando já se respirava os novos meios focados na internet; e peitar a Academia de Letras da Bahia criando a ALAS..

Em resumo, Vida Privada no Contexto Público é um excelente livro e revela com todos os detalhes acima, a vida do jornalista Sérgio Mattos que é, também, a vida baiana entre 1959 e os dias atuais.

*Publicado originalmente no site Bahia Já de Tasso de Franco.

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