Fotógrafo Sebastião Salgado recebe prêmio e fala em “crise existencial da espécie”

O fotógrafo e ambientalista Sebastião Salgado, fundador do Instituto Terra, fala sobre o Prêmio Personalidade da Câmara de Comércio França-Brasil.

O fotógrafo e ambientalista Sebastião Salgado, fundador do Instituto Terra, fala sobre o Prêmio Personalidade da Câmara de Comércio França-Brasil.

As mudanças bruscas no planeta provocadas pelo homem, que levaram à destruição de ambientes naturais e de civilizações primitivas, podem levar a própria espécie a uma situação sem volta. A avaliação é do fotógrafo Sebastião Salgado, que recebeu o Prêmio Personalidade, da Câmara de Comércio França-Brasil, na noite desta quinta-feira (27/10/2016), no Rio de Janeiro, por sua contribuição artística, humanitária e socioambiental.

Economista por formação, Salgado já percorreu todos os continentes da Terra, desde 1973, quando se iniciou na carreira de fotógrafo, após uma viagem à África. Autor de vários livros de fotografia, frutos de projetos elaborados ao longo de anos, incluindo Trabalhadores, Terra, Outras Américas, Êxodos e Gênesis, ele faz uma análise pouco otimista da atuação da civilização moderna sobre o planeta, que estaria chegando perto do limite de exaustão.

“Eu acho que a nossa espécie está vivendo completamente fora da realidade. A partir de um certo momento, a gente passou a destruir e predar o nosso mundo. Nós estamos consumindo muito mais do que o nosso planeta pode dar. Estamos indo para um buraco sem saída. O planeta não tem condição de arcar com tudo isso.”

Segundo ele, a destruição dos ambientes naturais e as dificuldades sociais, com o aumento de guerras entre países e conflitos internos que deixam milhares de mortos, são sintomas de uma crise maior.

“Não é uma crise do capitalismo. É muito mais do que isso. É a crise existencial de uma espécie. Vamos ter que fazer uma autocrítica de toda nossa maneira de viver, de consumir, se comportar e se relacionar. Eu tenho uma grande esperança no planeta, mas não sei se a espécie humana vai sobreviver, estamos indo diretamente contra a parede. É uma crise planetária.”

Salgado disse que a atual geração vai ser cobrada no futuro por tudo o que está fazendo em prejuízo do planeta.

“Necessariamente [nossa geração vai ser cobrada no futuro]. Para construir esta sociedade moderna, nós deixamos um deserto atrás. Nós temos a obrigação de manter intacto o que possuímos. Não precisamos mais destruir. Temos uma quantidade de terras desbravadas no Brasil que não utilizamos. Nós usamos um terço das terras que foram desmatadas, o resto está abandonado.”

Tragédia em Mariana

Quanto à tragédia de Mariana (MG), provocada pelo rompimento de uma barragem da empresa Samarco há um ano, que varreu o distrito de Bento Ribeiro, arrasando tudo pelo caminho e deixando 21 pessoas mortas, Salgado disse que o importante é garantir que as multas e indenizações sejam aplicadas na região.

“O dinheiro das multas não vai para o meio ambiente. Ele vai para o cofre público e vai pagar o déficit do Estado, não voltará jamais para a região. Há um ano nós propusemos a criação de um fundo para recuperar a área. Temos que ressarcir e reconstruir o que for necessário. Refazer todas as fontes de água, recompor as matas ciliares, o sistema de esgoto. É um problema de longo prazo. Para recuperar o Rio Doce, temos que plantar no entorno de 370 mil nascentes. Hoje o fundo só contemplou 500 nascentes.”

Salgado envolveu-se com a causa ambiental quando assumiu a fazenda de sua família, totalmente degradada, no município mineiro de Aimorés, e replantou a área, de 700 hectares. Com o replantio, fez brotar nascentes que estavam secas e trouxe de volta parte dos animais silvestres da área. A experiência deu origem ao Instituto Terra, voltado à preservação do meio ambiente.

Aos 72 anos, atualmente Salgado está envolvido em um projeto fotográfico sobre a Amazônia. Anteriormente, ele havia dito que este seria seu último trabalho, mas agora já admite que deverá trabalhar mais alguns anos, em outros projetos.

“Eu hoje estou vendo que o meu projeto sobre as comunidades indígenas, que eu ainda tenho uns três ou quatro anos para terminar, não é o último. Os fotógrafos não têm uma profissão. Têm uma forma de viver. Quando eu saio para fotografar, sou um homem totalmente livre, em ligação total com o meu planeta.”

Aos jovens fotógrafos, iniciantes na carreira, ele dá apenas uma sugestão: “Para esses fotógrafos, eu aconselho entrar na universidade, fazer um pouquinho de sociologia, antropologia, geografia, economia, geopolítica. Para eles poderem se situar dentro da sociedade que fazem parte. Para saberem fotografar o que é essencial, para serem os espelhos da sociedade”.

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Sobre o autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto Oliveira da Silva (Carlos Augusto) é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF). Atua como jornalista e cientista social. Telefone: (75)98242-8000 | E-mail: diretor@jornalgrandebahia.com.br.