Eleições 2016: PT não vive derrota, mas o fim de um ciclo, diz analista

Lula e Dilma Rousseff comemoram 10 anos de PT na presidência da República. Da comemoração em 2013 a queda em 2016, PT tem difícil caminho em busca da reconstrução da imagem.

Lula e Dilma Rousseff comemoram 10 anos de PT na presidência da República. Da comemoração em 2013 a queda em 2016, PT tem difícil caminho em busca da reconstrução da imagem.

No Brasil, nas eleições municipais de domingo (30/10/2016), o Partido dos Trabalhadores elegeu 265 prefeitos, uma forte queda em relação aos 630 que tinha anteriormente. Nas capitais, o PT ficou apenas com Rio Branco, no Acre. Um cenário que deve levar o partido a uma reflexão profunda sobre suas bases e seu futuro. Analistas políticos e um militante comentaram sobre os resultado do pleito.

“É uma perda de grande proporção, quem perde 60% de suas municipalidades não pode dizer que foi vitória”, observa Hervé Théry, geógrafo e pesquisador emérito do Centro Nacional de Pesquisa da França (CNRS na sigla em francês) e professor convidado da Universidade de São Paulo (USP).

Esclarecendo que não é petista, ele analisa que o partido não está vivendo uma derrota, mas simplesmente o fim de um ciclo. ‘”Houve uma ruptura, em 2003. A eleição de Lula representou a chegada ao poder de uma formação que nunca tinha sido representada nessa esfera. Estamos falando de um ciclo que durou 13 anos, o que não é nada mal como ciclo político. Mas agora o pêndulo está virando em outra direção, não somente no Brasil, mas em outros países da América do Sul. Há uma ascensão da direita em todo o continente e, é claro, o PT foi afetado também”.

Hora de reconstruir

A perda de prefeituras no ABC, em São Paulo, é vista com mais preocupação por Théry, pelo fato de a região ser o coração, “o lugar onde o movimento nasceu no sindicalismo operário, nas greves… isto supõe uma repensada da base política e social do PT, que perdeu muito de sua força principal”, diz Théry, completando que quem viveu essa aventura política desde o início, e hoje tem que pensar no futuro do partido, não vai ter uma tarefa fácil.

“As bases principais se foram: o sindicalismo operário e o sindicalismo, em geral, foi muito cooptado pelo poder. Não sei se é vítima ou culpado, mas se envolveu muito nas questões de corrupção, o que decapitou o movimento sindicalista. A outra base, que era a Igreja Católica, virou as costas e não tem mais esse movimento de religiosos de esquerda, que era uma segunda base do tripé. Por último, a base intelectual foi embora, principalmente por causa dos escândalos. Isso não quer dizer que o PT vai desaparecer, quem é otimista pode dizer que é o perfeito momento para uma refundação. Está na hora de reconstruir, está na hora de refazer”, reflete o professor.

Hervé Théry também considera que, nessa ótica de reconstrução do partido, o que vai ser complicado é que muita gente mais militante foi para outras formações, como a Rede Sustentabilidade, da Marina Silva, o PSOL, e outros: “Fazer o PT só com quem ficou vai ser um pouco complicado, como você vai convencer jovens idealistas, cheios de energia, de entrar hoje no PT? Vai ser complicado.” Daí, segundo ele, a necessidade da mudança.

Recorde de abstenções, brancos e nulos reflete insatisfação

Nas três capitais mais importantes onde houve segundo turno, a soma das abstenções, brancos e nulos superaram o número de votos para a prefeitura. No Rio de Janeiro, por exemplo, 1.314.950 de pessoas se abstiveram, 149.866 votaram em branco e 569.536 anularam seus votos. No total, 2.034.352 eleitores preferiram não se posicionar.

Para Théry, foi a maneira que as pessoas encontraram para dizer que não gostaram de nenhum dos candidatos: “No Rio, por exemplo, entre votar para um bispo evangélico [Marcelo Crivella do PRB] ou alguém de um partido mais extremo [Marcelo Freixo do PSOL], muita gente não quis votar, se recusou a escolher entre os dois. Tradicionalmente, o voto branco é forte no Rio, um estado meio de protesto, e desta vez foi ainda mais, cerca de 30%. Num país de voto obrigatório, é enorme”. Mas, para o analista, é justamente essa a oportunidade de surgir algo novo: “Talvez seja nessa massa de pessoas, que não se reconhecem mais em um partido, que um novo partido, ou um partido renovado, possa surgir”.

PT e futuro

O jornalista e historiador Leandro Esteves acompanhou o nascimento do PT. Como militante, ele denuncia a ação nefasta das mídias brasileiras e lembra que o partido ainda tem capacidade para mostrar que está vivo, depois de anos de campanha insidiosa e constante.

Esclarecendo que as eleições municipais não impactam na esfera federal, Leando diz que o partido está presente na cena política do país. “Hoje o PT vai proceder as suas mudanças internas, mas tem 260 prefeituras, milhares de vereadores, mais de 70 deputados federais, uma bancada de 11 senadores e governa cinco estados como Ceará, Bahia, Minas Gerais, Acre, Piauí. Então, é até incrível que esse partido tenha sobrevivido e com um tamanho bastante razoável, o que aponta para a capacidade de reação que vem por aí”.

Que reação seria esta? A resposta vem a partir da análise da abstenção, brancos e nulos que marcaram estas municipais de 2016. “No Brasil, o voto é obrigatório. Não é como na França, que o Le Pen foi para o segundo turno porque os socialistas deixaram de votar para ir à praia. Aqui no Brasil a moçada vai votar, mas houve um fenômeno que a gente precisa pensar mais sobre ele: o índice de abstenção foi de 40% a 45%, o que no Brasil, é enorme. “A primeira coisa que se pode pensar é o seguinte: a periferia aqui de São Paulo deu as costas para a Dilma, e isso é fato, e quem está dizendo não sou eu, é o Mano Brown [o rapper paulista], e se o Mano Brown disse, tá dito. O pessoal deu as costas para a Dilma mas não abraçou ninguém. Então, do tradicional 20% brasileiro, até menos, que se abstinha em dar sua opinião, de fazer sua influência política nas eleições, isso mais do que dobrou. Por mais estranho que possa parecer, essa incredulidade da qual o PT foi acometido, esse eleitorado não foi para lugar nenhum. Não foi atrás do pastor, não foi atrás da direita, ora, esse cara está esperando alguma coisa “.

Aliança de esquerda contra conservadorismo

Esperando o que? “Ou a ressurreição do PT via Lula, o que é possível pois ele se mantém na liderança, ou uma frente, na qual o PT não precisa mais, ou talvez não deva mais, ocupar a liderança. Tem uma outra coisa importante acontecendo no Brasil, ela ainda é pequena. Existe uma ressurreição política paulatina da Igreja Católica. Os padres estão voltando a trabalhar, depois de terem perdido tudo para os pastores evangélicos. Isso ainda é pequeno, mas vai ser um dado importante para o Brasil, mais para a frente”, enfatiza Leandro.

Essa ausência da Igreja no cenário político é explicada pelo professor Hervé Théry, que lembra que isso começou durante o pontificado de João Paulo II, um anti-comunista ferrenho. “Foi uma ação forte e deliberada dele, que fez um trabalho bem eficiente e afastou todos os bispos progressistas. Boa parte dos dominicanos e frades militantes foram afastados. Então, a hierarquia católica, que era do lado dos oprimidos, não é mais”, explica.

Concluindo, Leandro Esteves reflete que não só o PT, mas outras forças populares, mostraram poder de reação e estão vivas, algumas delas em crescimento, como é o caso do PDT, do PSOL. Para ele, essa frente, que é necessária ser feita, começa a se consumar agora: “Uma frente de esquerda contra a onda conservadora que assola o Brasil”.

PT e chances políticas para 2018

O cientista político Gaspard Estrada, diretor-executivo do Observatório Político da América Latina e Caribe (Opalc), da Sciences Po de Paris, não se surpreendeu com os resultados das municipais brasileiras: “É o fruto desse combate político que aconteceu neste ano e que, na verdade, já vinha se desenhando desde as eleições presidenciais de 2014, com um quadro na economia, difícil para o Brasil, com uma má gestão política da então presidente Dilma Rousseff, e todo o abalo ligado ao escândalo de corrupção – Lava Jato, Petrobras -, impulsionado pela mídia, e isso trouxe um grande prejuízo para o PT, embora todos os partidos políticos do Brasil estejam envolvidos nesses esquemas de corrupção”.

Quanto às presidenciais de 2018, Estrada opina: “Vamos ver se o PT vai conseguir se reiventar, sabendo que hoje o ex-presidente Lula estaria na cabeça das preferências dos eleitores brasileiros, com cerca de 30% dos votos, o que não é o caso nem do Geraldo Alckmin, nem do José Serra, nem do Aécio Neves. Então, fica em aberto”, diz o cientista político.

*Com informações da RFI, por Leticia Constant.

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