Eleições 2016: as novas forças políticas que despontam no Brasil

Manifestantes protestam na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Novos atores políticos podem emergir do processo eleitoral de 2016.

Manifestantes protestam na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Novos atores políticos podem emergir do processo eleitoral de 2016.

Com a classe política desacreditada por escândalos de corrupção, novas lideranças surgem no Brasil. Saiba quem são esses atores, que emergem dos protestos desde de 2013 e disputam agora a primeira eleição pós-Lava Jato.

De um lado, ativistas e integrantes de minorias políticas, como LGBT, negros e mulheres. Do outro, evangélicos e liberais. Essas são algumas das novas forças políticas que emergem ou se intensificam a partir das manifestações de junho de 2013, e que ganham ainda mais impulso com a perda de credibilidade da política tradicional após os escândalos de corrupção. Com a promessa de renovar os tão desgastados processos institucionais, eles se diferenciam já a partir das campanhas, criativas e com alto uso das tecnologias e redes sociais, e disputam cargos nas eleições de domingo, as primeiras após a minirreforma política e após a Lava-Jato.

Para a cientista política Luciana Tatagiba, coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Participação, Movimentos Sociais e Ação Coletiva (Nepac) da Unicamp, antes mesmo de junho de 2013 já havia mudanças na configuração de forças políticas, tanto à esquerda quanto à direita. Segundo ela, as manifestações apenas deixaram mais explícita uma forte descrença nas instituições da democracia representativa – fenômeno que tem sido observado no mundo todo – e também um forte desejo de participação, principalmente entre os jovens. “Vivemos hoje uma profunda crise de projeto político, de narrativa de mudança, e isso impacta fortemente a juventude”, diz Tatagiba.

Novos movimentos de esquerda

A Bancada Ativista, de São Paulo, é um dos grupos que tenta buscar uma nova narrativa para a política. A iniciativa suprapartidária surgiu das conversas entre um grupo de pessoas que atuam em diferentes causas na sociedade civil para mapear e apoiar candidaturas de ativistas nunca antes eleitos, mas com trajetória de defesa de causas progressistas. Cerca de 40 pessoas criaram o movimento, que mapeou e agora apoia oito candidaturas para o legislativo, das quais quatro são de mulheres e três são de negros. A maioria dos candidatos sai pelo PSOL, mas dois saem pela Rede. Um deles, Pedro Markun, se define como candidato independente – ele aproveita uma brecha do estatuto do partido que reserva 30% de vagas para candidatos que não concordam 100% com as bandeiras do partido. O compromisso é com a base, não com o partido. Os princípios que unem os oito candidatos, como o produtor cultural Márcio Black, da Rede, e a feminista Sâmia Bonfim, do PSOL, é a garantia dos direitos humanos, políticos e civis, e a criação de uma cidade mais diversa e humana.

Movimento parecido ocorre em Belo Horizonte, com o Muitas, que surge da união de diversas iniciativas da cidade, como os grupos que fazem acontecer o carnaval de rua, os cicloativistas, as ocupações de moradia, a Praia da Estação, entre outros. Depois de ocupar as ruas, a ideia é ocupar a política. São 13 candidaturas, todas do PSOL, sendo 8 mulheres, 3 homens e uma pessoa queer/não-binária, Ed Marte, que se candidata com a bandeira de lutar pelo respeito à diversidade sexual. Assim como a Bancada Ativista, o Muitas se pauta pela ideia de transparência radical: o plano é prestar contas de tudo que for feito e realizar assembleias em praças públicas, garantindo que a participação dos eleitores não fique restrita ao voto.

Novos movimentos de direita

Do outro lado do espectro político, um grupo que continua a ganhar força é o dos evangélicos, que já ocupam as ruas há algum tempo com as Marchas para Jesus. De acordo com o cientista social Fábio Lacerda, que realiza sua tese de doutorado sobre as candidaturas evangélicas, o aumento reflete a ampliação do protestantismo no Brasil, em especial das igrejas neopentecostais. Em 1970, os católicos representavam 91,8% da população, e os evangélicos, 5,2%; já em 2010, os católicos não passavam de 64,40%, com os evangélicos representando 22% das pessoas. Hoje, estima-se que o número se aproxime de 25%, ou seja, um quarto da população. “Considerando isso, a população evangélica ainda é sub-representada na Câmara, apesar do crescimento”, diz Lacerda, que afirma que o número de candidatos evangélicos tem se mantido estável nas últimas eleições, embora tenha tido mais sucesso ao eleger seus candidatos, que se espalham por diversos partidos.

Também à direita, mas com pautas bem diferentes da dos evangélicos, surgem os liberais, ou libertarianistas. Enquanto os primeiros defendem uma maior presença do Estado na economia e mais conservadorismo no que diz respeito aos costumes, os liberais advogam por menos intervenção estatal na economia e mais respeito à liberdade individual. Um dos grupos que saiu às ruas em 2013 com essa pauta foi o Movimento Brasil Livre (MBL), o nome foi criado pelos jovens da organização Estudantes Pela Liberdade (EPL) para participar das manifestações. O EPL é o braço brasileiro de uma organização americana, o Students for Liberty, que recebe financiamento de entidades internacionais para divulgar as causas do liberalismo.

“É um grupo que tem apelo nas redes e também nas universidades, porque eles trazem uma defesa da liberdade individual que tem bastante ressonância”, diz Luciana Tatagiba. Os libertarianistas não se articulam em nenhum partido específico, embora apareçam em alguns, como o Novo, fundado em 2011, e no Livres, um segmento do PSL que busca a renovação da legenda por meio dos ideais libertarianistas. Mas alguns candidatos sairão por velhas siglas já conhecidas, como DEM, PMDB e PSDB. É o caso de Fernando Holiday, do MBL, que ficou conhecido por sua participação nos protestos de 2013 e se candidata pelo DEM.

Segundo Luciana, assim como a esquerda, que é fragmentada, não existe uma nova direita única, coordenada internacionalmente, mas sim várias direitas. “A grande novidade é que [essas direitas] resolveram disputar política à luz do dia, nas ruas”, diz Luciana. “Não buscam mais apenas vencer, mas convencer”.

Manifestações nos símbolos do poder

Distrito Federal

O Palácio do Planalto foi novamente tomado por manifestantes nesta quinta (20/06). O exército teve que agir e criar um cordão de isolamento para que os manifestantes não repetissem a ação do início da semana, quando cerca de cinco mil pessoas ocuparam o exterior do Congresso Nacional.

Tensão no Rio de Janeiro

Os protestos continuam e aumentaram de tamanho. No Rio, o prefeito da cidade ordenou que o Batalhão de Operações Policiais Especiais, BOPE, controlasse atos de vandalismo. Cerca de 300 mil pessoas foram às ruas na quinta-feira (20/06), segundo a imprensa nacional. Em todo o país, foram contados mais de um milhão de manifestantes, numa noite marcada pela tensão.

Fortaleza

Cenas de violência foram vistas na quarta-feira (19/06) nos arredores do estádio Castelão, em Fortaleza, onde manifestantes e policiais entraram em choque. Dentro de campo, o Brasil derrotou o México por 2 a 0 pela Copa das Confederações.

Praça da Sé, São Paulo

A manifestação desta terça (18/06) no centro de São Paulo foi em sua grande maioria pacífica. O centro da cidade foi tomado por manifestantes.

Polícia respeitou o direito de expressão

Em São Paulo, a polícia militar recebeu comando para atuar sem violência. Os manifestantes puderam se expressar sem medo de represálias.

Mas houve abusos

Entre os manifestantes houve quem não aceitasse a palavra de ordem de protestar sem violência. Saques e depredações mancharam o caráter dominantemente pacífico dos protestos.

Brasileiros protestam

Os maiores protestos nos últimos 20 anos tomaram conta de diversas cidades brasileiras na segunda-feira (17/06), uma semana depois do início de contestações em São Paulo contra o reajuste das tarifas de transporte público de R$ 3,00 para R$ 3,20. Com a ampliação da lista de exigências e aumento do número de manifestantes, cidades como São Paulo e Rio de Janeiro revogaram a alta.

Por todo o país

Mais de 200 mil pessoas em todo o Brasil saíram às ruas (17/06) para reclamar da corrupção, da elevação do preço da passagem do transporte público e dos políticos, entre vários outros motivos de revolta. Um dos principais é o gasto, considerado excessivo, com a organização da Copa do Mundo de 2014. Os protestos acontecem durante a Copa das Confederações, ensaio geral para o Mundial de futebol.

Imagens simbólicas em Brasília

Na capital, os manifestantes ocuparam o teto de uma das cúpulas do Congresso Nacional na segunda (17/06). A presidente Dilma Rousseff se pronunciou sobre os protestos pela primeira vez naquele dia, dizendo que protestos fazem parte da democracia, mas sem violência.

Dilma e a “voz da rua”

Numa cerimônia no Palácio do Planalto na terça (18/06), a presidente Dilma Rousseff afirmou que “a grandeza das manifestações comprova a energia da nossa democracia, a força da voz da rua e o civismo da nossa população. O caráter pacífico dos atos evidenciou também o correto tratamento dado pela segurança pública à livre manifestação popular.”

São Paulo

A Ponte Estaiada em São Paulo foi tomada pelos manifestantes no último fim de semana (15/06).

Belém do Pará

Na capital do estado, cerca de 14 mil pessoas fizeram uma passeata contra a corrupção. O protesto foi pacífico, e a polícia chegou a elogiar o comportamento dos manifestantes.

Centros de poder viram alvos

Na capital fluminense, os protestos foram em grande parte pacíficos na última segunda-feira (17). Mas uma pequena parte dos manifestantes atacou o prédio da Assembleia Legislativa, em ação violenta que acabou marcando os protestos no Rio de Janeiro, cidade que teve a maior aglomeração no país naquele dia (100 mil pessoas).

Rio de Janeiro

No Rio de Janeiro a ação policial foi considerada excessiva (17/06). Com tiros de balas de borracha e bombas de gás, a PM dispersou os manifestantes.

Excessos da polícia

A polícia cometeu excessos que provocaram indignação na população. A Anistia Internacional já elaborou um pedido de investigação e penalização dos oficiais.

Dilma Rousseff e Joseph Blatter

Na cerimônia de abertura da Copa das Confederações, Dilma e Blatter, presidente da FIFA (organizadora do torneio e da Copa do Mundo de futebol) sofrem com apupos e vaias no novíssimo estádio Mané Garrincha, em Brasília.

Nem todos são pacíficos

Nos protestos dos últimos dez dias, houve grupos de manifestantes que não seguiram o pedido da maioria para não protagonizarem atos de vandalismo.

Com informações do DW Brasil.

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