Editorial: blasfêmia e denúncia na Câmara Municipal de Feira de Santana

Vereador David Evangelista Leite Neto (DEM) denuncia distribuição irregular de cargos entre os edis da base do governo municipal de Feira de Santana.

Vereador David Evangelista Leite Neto (DEM) denuncia distribuição irregular de cargos entre os edis da base do governo municipal de Feira de Santana.

Esse editorial objetiva analisar a sessão plenária de terça-feira (04/10/2016) ocorrida na Câmara Municipal de Feira de Santana (CMFS), oportunidade em que os vereadores se revezaram em discursos de cinco minutos, apresentando análise do pleito municipal de 2016. Nesse aspecto, são destacados dois elementos, a utilização recorrente do nome de Deus e denúncias de compra de votos e utilização da máquina pública municipal, com distribuição de cargos. Notadamente, é analisado o discurso do vereador David Evangelista Leite Neto (DEM)

Em nome de Deus

O plenário da Câmara Municipal de Feira de Santana é de forma recorrente transformado em púlpito religioso. O festival de deísmo vociferado de forma quase insana por alguns edis reduzem a religião a dimensão material da política e a política a dimensão imaterial da religião.

Na sessão de terça-feira (04), após o pleito eleitoral do domingo (02), os vereadores, ao analisarem o processo eletivo, se alternaram em lamentos, agradecimentos aos eleitores, ao prefeito José Ronaldo (DEM) e a Deus. Nesse aspecto, Deus se tornou cabo eleitoral e eleitor de alguns edis.

Analisando alguns discursos, é observando o suprassumo do néscio em termos de política. Infere-se que o modelo ocidental de política, baseado nos princípios iluministas, separa religião e Estado e separa a religião da vida política do cidadão. Por que? Porque nas sociedades aristocráticas o poder era bidimensional, herdado e legitimado pela Igreja. No Estado moderno e pós-moderno o poder emana do povo através do sufrágio, e a religião é parte da vida pessoal dos cidadãos, e não está limitada pela ação do Estado.

É deplorável assistir alguns discursos e debates na Câmara Municipal. O recorrente apelo a Deus — Deus há de abençoar, Deus há de honra, agradeço a Deus por ter sido eleito, agradeço a Deus por não ter me elegido, sou filho de Deus, Deus está comigo, eu só devo a Deus e não posso pagar — são algumas das formas em que o nome de Deus foi pronunciado por edis. Nesse aspecto, reduz-se a divindade religiosa monoteísta à uma quase condição ideologicamente deplorável.

Observando alguns vereadores repetir o nome de Deus, de forma van, a palavra que melhor os designa é blasfemadores. Nesse sentido, ensina a Bíblia, “não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão, porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão. — Êxodo 20:7.

Distribuição de cargos

Um dos discursos de destaque da terça-feira foi realizado pelo vereador David Neto. Ao discursar, o vereador negou que fosse se candidatar mais uma vez, e afirmou que ao retornar à Câmara vai fiscalizar. Curioso é saber que a principal função do vereador seja fiscalizar o executivo. Então, o vereador precisa perder a eleição para saber que é importante fiscalizar?

Na sequência, David Neto cobrou que a Câmara Municipal realizasse um concurso transparente e ético. Dando continuidade ao discurso, ele denunciou a distribuição de cargos a certos vereadores e candidatos da base governista.

Pouco antes de apresentar a denúncia de distribuição de cargos, David Neto disse que o prefeito estava de parabéns por conseguir ser reconduzido pela quarta vez, no primeiro turno, ao comando do poder executivo municipal. Na sequência, comentou:

— Quero, também, dizer ao prefeito sobre a desigualdade no tratamento dados a alguns colegas vereadores desta casa. Tem vereador aqui, a exemplo do vereador José Carneiro (líder governo) que têm 300 cargos. Tem vereador aqui, e digo isso aos vereadores novos que vão entrar, para não serem bucha de canhão. Tem vereador, como o presidente desta casa que tem uma porção, [a exemplo do ex-presidente] Justiniano [França]. Tem candidatos a vereador, aqui, que, inclusive, tinha mais cargos do que vereador desta casa, que era Lulinha. Então existia uma desigualdade muito grande. — denunciou David Neto.

Curiosamente, além da denúncia de distribuição de cargos no Executivo Municipal para vereadores e candidatos, David Neto disse possuir estabilidade financeira e ser uma pessoa bem situada economicamente. Ocorre que na declaração de bens dele, o valor total do patrimônio é de R$ R$132.031,76 e o único bem é um veículo GM, modelo Corsa, de 2009.

David Neto foi eleito vereador em dois mandatos consecutivos e derrotado no pleito de 2016, obtendo 3.498 votos.

*Carlos Augusto é cientista social e jornalista.

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Sobre o autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto Oliveira da Silva (Carlos Augusto) é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF). Atua como jornalista e cientista social. Telefone: (75)98242-8000 | E-mail: diretor@jornalgrandebahia.com.br.