Editorial: ACM Neto, a idílica construção do super-homem e a tentativa de mascarar uma relação histórica com o autoritarismo

ACM Neto vestido de Super-homem. A ficção contrasta com a realidade histórica de um político que representa as forças do conservadorismo/reacionário.

ACM Neto vestido de Super-homem. A ficção contrasta com a realidade histórica de um político que representa as forças do conservadorismo/reacionário.

O tempo a tudo consome, inclusive às falsas verdades constituídas por pseudo poderosos (Tempus locus veritas — o tempo revela a verdade).

Como se constituem os falsos mitos? Como eles são capazes de imprimir uma imagem que não corresponde à realidade material? Como eles tentam apropriar-se das estruturas do Estado, fazendo dos interesses pessoais os interesses da população? Essas perguntas serão respondidas a partir da análise do discurso e da materialidade do governo do prefeito de Salvador, Antônio Carlos Peixoto de Magalhães Neto (ACM Neto).

Além desses aspectos, são analisados a imagem publicitária que representa ACM Neto como super-homem, o contexto histórico/político no qual se apoiou e apoia com a finalidade de tentar retomar o controle do Estado, e a participação do prefeito no processo de tomada do poder do Estado Nacional, com a usurpação do mandato popular da ex-presidente Dilma Rousseff.

O conjunto de dados explica como esse personagem tenta retomar o poder político da família Magalhães sobre o controle do Estado da Bahia e quais os perigos que isso representa.

Vínculos com o autoritarismo

A origem do indivíduo e os personagens que cultua revelam como se constitui o perfil psicológico de certas personalidades. A idolatria do prefeito de Salvador à memória do avô não apenas lhe deixaram marcas comportamentais, mas, também, explicam como o prefeito se tornou uma liderança sobre outras figuras com mais tempo e mais vivência política. Algo muito comum no conservadorismo, estrutura política onde o poder tem força hereditária.

Sobre o avô de Neto, não é necessário dizer muito, basta repetir um agradecimento do primeiro presidente do Golpe Civil/Miliar de 1964:

Em dedicatória, o primeiro presidente do Golpe, marechal Humberto de Alencar Castelo Branco (15 de abril de 1964 a 15 de março de 1967), se refere a Antônio Carlos Magalhães (ACM) como ‘Deputado da Revolução de 1964’.

Perfil agressivo

Esse passado autoritário, conectado às forças reacionárias que conspurcaram a República de ontem e hoje explica certos comportamentos do neoprefeito ACM Neto.

Em 2 de novembro de 2005, o então deputado federal ACM Neto ameaçou dar uma surra no presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Curiosamente, Neto acusava o governo Lula de grampeá-lo.

Na Bahia, no meio popular e em círculos políticos, o prefeito ficou conhecido carinhosamente por “grampinho”. Não, pelo pretenso grampo atribuído a Lula, mas pelo grampo em que foi condenado o avô, ACM, e dois servidores estaduais. O processo judicial foi interposto pelo Ministério Público Federal (MPF) e envolveu escutas telefônicas indevidas, realizadas em 2002, por ordem do senador ACM (PFL).

Recentemente, em um gesto típico dos reacionários, o jornal Tribuna da Bahia publicou: “Prefeito [ACM Neto] chama governador [Rui Costa] para “briga” em evento de campanha”. Incrível, parece que os pretensos ditadores não conseguem mascarar o que são por muito tempo. Eles revelam, mesmo sem o desejar, a face do autoritarismo.

Passado e presente

A fórmula do passado, de tomar o poder sem o sufrágio foi reificada nas práticas do neto do deputado da ditadura. A recente deposição da presidente Dilma Vana Rousseff foi um espetáculo que evidenciou a capacidade do líder estadual dos conservadores/reacionários de compor com os pares do atraso político.

Digno de nota é o fato de ACM Neto ser filiado ao Democratas, que foi o PFL, PDS, e a Arena. Sim, o partido do Golpe de 1964 é o mesmo de 2016. Em linha direta, passado e presente se fundem em ACM Neto e nos valores que professa.

Sintomaticamente, ao efetivar-se no cargo de presidente da República, Michel Temer (PMDB/RJ) passou o governo para o recém-eleito presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM/RJ).

Esse é um dos momentos em que as forças cósmicas parecem conspirar para demarcar que o atraso político não será superado enquanto a população não compreender que ela tem o poder de revolucionar.

Retornando ao presente do “prefeito apoiador do Golpe Parlamentar de 2016”, título concedido pela alta intelectualidade da política nacional, observa-se como a usurpação serviu aos propósitos políticos e econômicos do prefeito da nova Arena.

Na sexta-feira (16/09/2016), ao lado do “ministro do Golpe”, Geddel Vieira Lima (PMDB/BA), ACM Neto anunciou empréstimo de R$ 408 milhões para construção do BRT de Salvador.

Vale uma breve ponderação. O sistema BRT é superado pelo VLT na maioria dos estudos sobre infraestrutura de cidades do porte de Salvador. Mas, esse é o Super ACM Neto, que apesar da proeminente cabeça, visão progressista parece lhe faltar.

Demarcado pela ideologia conservadora, o coprotagonista do Golpe Parlamentar de 2016 anunciou uma licitação internacional para contratar empresa responsável pela implantação do BRT na capital.

O anunciou enseja uma série de significações. Primeiro, aduz que as empresas nacionais são menos competentes para executar um simples projeto de implantação do BRT, tecnologia dominada no país há décadas. Mas, além disso, ao optar por empresas internacionais, o neoprefeito apenas reafirma a subordinação ao capital internacional. Subordinação inerente a ideologia que professa. Às favas com o nacional desenvolvimentismo, o bom vem fora, na visão no prefeito.

Não é difícil supor que o valor liberado pelo governo usurpador de Michel Temer possa ser a primeira parcela da conta do Golpe, destinada a ACM Neto.

Dinheiro, poder e corrupção

Curiosamente, o dinheiro que entra no caixa da prefeitura de Salvador vai conferir poder a ACM Neto. A pergunta é se o destino dele será o mesmo destino de alguns aliados que respondem à processos judiciais sigilos, processos propostos pelo MPF, por atos de corrupção na gestão do metrô de Salvador, quando as obras de implantação eram realizadas pelos seguidores do Magalhismo. Ironicamente, duas multinacionais foram acusadas pelo MPF de servir ao propinoduto dos seguidores do Magalhismo.

A hegemonia branca

Capítulo à parte, é como ACM Neto usou a vice-prefeita Célia Sacramento para se aproximar do movimento e da identidade negra. Observa-se que o processo histórico de subordinação dos negros, durante os sucessivos governos magalhistas, cujo resultado, depois de 40 anos de poder, foi o estabelecimento de parcela significativa da população baiana com baixo grau de instrução e significativo nível de exclusão social.

Apesar da ideologia antagônica às aspirações da etnia negra, filiada, na época, ao PV, Célia Sacramento, nas eleições municipais de 2012, bradou em defesa do herdeiro da “casa grande”. Hoje, chora o fato de ter sido trocada pelo “branquinho” Bruno Reis (PMDB), candidato a vice-prefeito na chapa de Neto.

A lição para Sacramento é que não basta ter a cor, é necessário ter a compreensão histórica do processo. É necessário assumir que ao atuar ao lado das forças reacionárias, forças históricas que usaram os negros como escravos, não acrescentou página agradável à própria biografia. Lhe faltou a consciência de classe, lhe sobram as lágrimas.

Um controle para o judiciário

Os tentáculos do conservadorismo raivoso se espalham em busca do poder do Estado. Em recente decisão, o Tribunal Regional Eleitoral Bahia (TRE Bahia) negou que coligações atribuíssem a ACM Neto o título de golpista, durante a veiculação do horário eleitoral gratuito da campanha de 2016.

É recente na memória do Poder Judiciário o tempo em que o avô de Neto se autoproclamou o “controle externo do judiciário baiano”. A nefasta influência do deputado do Golpe Civil/Militar de 1964 sobre o Poder Judiciário conspurcou em profundidade o Poder.

Alijado do poder imperial que exercia na Bahia, com a vitória de Jaques Wagner em 2006 e a posse em 2007, as marcas profanas de ACM tornaram-se máculas no Poder Judiciário da Bahia. Com esforço e dedicação de magistrados de primeiro grau e desembargadores, a exemplo do ex-presidente da corte de justiça Carlos Alberto Dultra Cintra, uma salutar independência e harmonia foi sendo implementada, mas, não sem resistência.

Apolegetas do sectarismo conservador mantiveram ativa a força e influência do magalhismo no Poder Judiciário baiano. A recente decisão do TRE evidência isso. Negar o debate político no horário eleitoral foi um gesto de grave censura e um desrespeito para com a democracia. Por que? Porque o debate está presente nos meios acadêmicos, na alta intelectualidade, nos movimentos de massa, em setores da mídia progressista nacional e internacional.

O Super-homem do Golpe

Por fim, após uma breve digressão, o personagem histórico se encontra como personagem mítico. ACM Neto, representado em uma fotomontagem da campanha eleitoral com o personagem estadunidense Super-homem, personagem que usa as cores da bandeira dos Estados Unidos da América, revelou muito mais do que o neto do deputado da ditadura poderia anunciar. A imagem é repleta de significações.

A submissão ao Consenso de Washington, a ideia de não pertencer a raça humana, mas de ser dela o protetor, a ideia de uma quase invencibilidade, de que representa o bem contra o mal, de que é o protetor dos mais fracos. No imaginário do neto do deputado do golpe, esses valores estão estabelecidos em si mesmo.

A escolha do personagem que o encarna não poderia ser melhor. O Super-Homem do Golpe é, em justa medida, um anti-herói. Um álter ego do personagem, mas, diferente da ficção, o político ACM Neto representa a materialidade do personagem histórico do atraso, do dominador que usa os meios de comunicação de massa para iludir, de uma elite brasileira que domina pela ameaça e intimidação, representante de um povo que insiste em se manter aferrado ao dono da casa grande.

*Carlos Augusto é cientista social e jornalista.

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Sobre o autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto Oliveira da Silva (Carlos Augusto) é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF). Atua como jornalista e cientista social. Telefone: (75)98242-8000 | E-mail: diretor@jornalgrandebahia.com.br.