Dilma pagou os pecados de Lula | Por Luiz Holanda

A presidenta eleita, Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva concedem entrevista no Palácio do Planalto, em 3 de novembro de 2010. Artigo aborda relação de poder entre Lula e Dilma.

A presidenta eleita, Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva concedem entrevista no Palácio do Planalto, em 3 de novembro de 2010. Artigo aborda relação de poder entre Lula e Dilma.

Por ocasião do surgimento do mensalão, o ex-sindicalista Lula da Silva, então presidente da República, imaginava sofrer um impeachment comandado pelos tucanos. Na época, a tucanada ocupava muitas posições de relevo na justiça brasileira, entre eles o ministro Gilmar Mendes, que, até hoje, faz questão de mostrar o beiço como se fosse o bico do pássaro.

As dificuldades para colocar em prática o projeto de inviabilizar a reeleição do petista eram enormes. O Ministério Público Federal não conseguia provar nada contra Lula, tampouco mostrar onde estaria o dinheiro que ele, supostamente, poderia ter amealhado com o assalto aos cofres da Petrobrás por alguns companheiros e um grupo de aliados.

A tucanada não conseguia entender como um subalterno de Lula, Pedro Barusco, era acusado de ter se beneficiado de R$ 150 milhões de propina do mensalão enquanto ele, Lula, não tinha nada nem sabia de nada. Essa história do tríplex e do sítio em Atibaia apareceu depois, quando Lula já não era presidente.

Na época, os petistas se reuniram na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), em Brasília, e, de lá, mandaram dizer aos tucanos que, se eles quisessem guerra, haveria guerra, e total, capaz de deixar o país ingovernável. O ex-ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, foi encarregado de levar a FHC o recado. Este, como sempre, recuou. Além de ter se comprometido a acalmar a oposição, avaliou que o afastamento de Lula “criaria uma cisão no Brasil”.

Tão logo o projeto do impeachment foi adiado, novo escândalo apareceu. Dessa vez foi a prisão, com milhares de dólares na cueca, de um assessor do deputado José Nobre Guimarães (PT-CE), irmão do presidente do partido, José Genoíno. Este, tempos depois, foi acusado pelo Coronel Lício Augusto Maciel, num discurso no Senado, de ter dedurado os companheiros da Guerrilha do Araguaia.

Depois veio a declaração do publicitário Duda Mendonça, que admitiu à CPI dos Correios, em agosto de 2005, que recebera, no exterior, dinheiro oriundo do caixa-2 da campanha Lulista, o que foi considerado um sinal de que, a partir daí, o próprio Lula estaria envolvido no esquema de corrupção que poderia derrubá-lo do governo.

Foi nessa época que Antonio Palocci, então ministro da Fazenda, teria afirmado a FHC que tudo estava perdido, pois novos escândalos explodiriam a qualquer momento, como o rombo de R$ 500 milhões no Banco do Brasil, que jamais veio à tona. Com a recuada tucana, Lula conseguiu o que parecia impossível: sobreviver politicamente.

Mas nada abalaria o animus corruptivo existente em todos os órgãos e poderes da República se não fosse a “Operação Porto Seguro”, da Polícia Federal. Ali foi descoberta uma quadrilha que exercia, com a maior desenvoltura, tráfico de influência no governo, tendo, como base de ação, o escritório da Presidência da República em São Paulo, comandado pela senhora Rosemary Noronha.

Apontada como íntima de Lula, dona Rose, como era conhecida, costumava exibir, além do título oficial de Chefe do Gabinete da Presidência da República em São Paulo, a credencial oficiosa de “namorada do Lula”, o que lhe abria as portas no mundo dos negócios. Segundo depoimento de um dos empresários presos durante a operação, dona Rose e seus afilhados cobravam por pareceres jurídicos que facilitavam o recebimento de benesses no governo, nas agências reguladoras e no Tribunal de Contas da União.

Registros existem dando conta que dona Rose fez 32 viagens internacionais acompanhando o presidente Lula, desde 2003, mas o escândalo só explodiria em 2012, no governo Dilma Rousseff. A partir daí começou o movimento para o impeachment da presidente, pois Lula, extremamente fragilizado com a descoberta do romance, perdera as forças para tentar qualquer resistência.

Para não cair, teve de fazer acordo com o diabo, representado pelo PMDB, que substituiu os tucanos no projeto de assumir o governo. Em apenas 4 minutos, numa sessão na Associação Brasileira de Imprensa (ABI),  em Brasília, o partido, sob a liderança de Michel Temer, desembarcou da nau comandada por Dilma Rousseff. Os peemedebistas, que há mais de uma década giravam na órbita petista, abandonaram a presidente no seu mais crítico momento. Daí para o impeachment, que era de Lula, bastou apenas contar com o apoio de Eduardo Cunha.

*Luiz Holanda é advogado e professor universitário.

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Sobre o autor

Luiz Holanda
Luiz Holanda é advogado e professor universitário, possui especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (SP); Comércio Exterior pela Faculdades Metropolitanas Unidas de São Paulo; Direito Comercial pela Universidade Católica de São Paulo; Comunicações Verbais pelo Instituto Melantonio de São Paulo; é professor de Direito Constitucional, Ciências Políticas, Direitos Humanos e Ética na Faculdade de Direito da UCSAL na Bahia; e é Conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/BA. Atuou como advogado dos Banco Safra E Econômico, presidiu a Transur, foi diretor comercial da Limpurb, superintendente da LBA na Bahia, superintendente parlamentar da Assembleia Legislativa da Bahia, e diretor administrativo da Sudic Bahia.