Abaixo o maracá. Viva o maracá

Bailado do Daime com Mestre Irineu

Bailado do Daime com Mestre Irineu

Prezados leitores, geralmente os meus modestos artigos costumam ser bem recebidos pela comunidade ayahuasqueira adepta da comunicação pelo mundo virtual. Quando esses artigos e matérias “viralizam” creio que passo do número de dois ou três fieis leitores para cinco, quiçá 10 leitores!

Todavia, alguns (poucos) destes artigos não fazem sucesso nenhum, talvez por ferir suscetibilidades. Foi o caso deste “Abaixo o maracá. Viva o maracá”, divulgado no já distante ano de 2007. Aliás, ocorreram inclusive protestos. Um honroso protesto veio na forma de poesia, elaborada pela verve lírica do professor Clodomir Monteiro, pai de todos nós, isto é, pioneiro entre os pesquisadores da ayahuasca.

Escreveu inspirado o Clodomir:

abaixa o maracá

suba o maracá

suba o maracá

abaixa o maracá

suba o maracá

suba o maracá

(Viva seu maracaminho. Clodomir Monteiro, 14/08/2007)

A poesia completa está disponível ao término desta breve comunicação.

 

Abaixo o maracá. Viva o maracá

Por Juarez Duarte Bomfim

A Doutrina do Santo Daime é praticada através de culto essencialmente musical. Um de seus principais ritos denomina-se Hinário ou “bailado”, quando, nas datas festivas do calendário cristão, os adeptos (fardados) organizam-se no salão em pelotões de formação quadrilátera (ou hexagonal), separados por gênero, cujos movimentos simples do corpo e compasso dos hinos são marcados pelo toque dos maracás, e dessa forma, cantam e bailam hinos de louvor a Deus e aos Seres Divinos, assim como cânticos de instrução moral.

O instrumento musical maracá adquire importância central nesses rituais de Hinário (bailado), sendo o seu uso obrigatório nos centros tradicionais daimistas, pelos “fardados” (membros do culto). A falta do maracá, assim como do fardamento completo, pode ser considerado uma falta e comportamento negligente por parte do adepto.

Um sinônimo de maracá seria simplesmente chocalho. No entanto o maracá usado nos rituais daimistas tem características especificas. Geralmente são chocalhos metálicos, feitos com uma lata de tamanho grande, médio ou pequeno, comumente aquelas latas de leite condensado normal ou mini, com pequenas bolinhas de aço (esferas de rolamento) dentro e cabo de madeira. No entanto ainda não existe uma padronização, havendo maracás de coco, de cabaça, de madeira e dos mais variados materiais.

Alguns centros daimistas consideram que o Mestre Raimundo Irineu Serra deixou padronizado o maracá de lata tipo “leite ninho” para o batalhão masculino recheado com esferas de rolamento, e para as mulheres as “latas de leite condensado normal” e toleram apenas visitantes esporádicos a fugirem desse padrão.

Já em outros centros (igrejas) daimistas alguns poucos fardados tocam maracás de latas de leite condensado normal ou mini, não sendo estimulada a adesão de todos os adeptos.

Pela tradição, o maracá deve ser tocado batendo sua parte superior na mão em marcações constantes. A altura recomendada é a sua execução ao nível do coração, ou um pouco abaixo. O uso do maracá no bailado cumpre a função de uniformizar a coreografia e dar uma postura harmônica na parte superior do corpo do participante, particularmente dos membros superiores (braços) e tórax. Nota-se, quando do não uso ou supressão do maracá no ritual uma desarmonia coreográfica.

A marcação (toque do maracá) deve seguir o compasso da música. Uma música em compasso quaternário como a marcha teria marcação ( f – f – f – F ) aonde a última seria uma batida para cima (Rufo) ao invés de ser na mão. Uma valsa em compasso ternário teria a marcação ( F – F – f ) e a mazurca em compasso binário composto teria a marcação ( f – f – f – F – F – F ). O compasso se seguido corretamente por todos vai produzir o som uníssono e cadenciado.

Pelo que foi exposto acima, é desejável que o maracá seja batido na mão. No entanto, as pessoas que usam o caderno com a letra das músicas do hinário em uma das mãos, em geral, não batem o maracá na mão por estar com ela ocupada. Desta forma a pessoa tem que bater o maracá, ora para baixo ora para cima, o que por si só produz um som diferenciado. Porém, o mais preocupante não é isso, e sim quando algum participante do ritual desvia o toque do seu maracá da marcação básica, produzindo viradas e repiques diferenciados e bate o maracá muito forte ampliando o volume, tornando agressivamente estridente o som produzido, abafando os cânticos, forçando os músicos a aumentar o volume do som… incomodando e prejudicando o trabalho dos outros participantes — não tão efusivos e exagerados no uso do instrumento.

Ouve-se dizer que o maracá “é a arma do daimista”… “quando o instrumento vira espada”. Sim, temos chegado ao entendimento dessas assertivas. A batida do maracá é um chamado de força, e se todos soarem em uníssono no correr da função religiosa, aquele som reverbera e age poderosamente sobre o psiquismo dos participantes facilitando a expansão de consciência que favorece o serviço espiritual.

Porém, infelizmente essa “arma” que o maracá se torna pode se voltar contra os participantes que bailam ao lado, provocando desconcentração, irritabilidade, desarmonia, surdez temporária e dor auricular aguda. A “espada” maracá batida pelo participante sem noção temporária da força empregada, que inclusive amassa a lata, fere a própria mão e desarmoniza o coletivo… também lanceta e fere gravemente os tímpanos da pessoa que baila ao lado desse individuo prenhe de entusiasmo, que não sabe lidar com o voo extático proporcionado pela bebida de “poder inacreditável”.

Cientes do problema, em alguns centros livres os dirigentes emudeceram a maioria dos maracás no Salão, e isso tornou-se inclusive norma de ritual: “o maracá deve estar afinado convenientemente. Em tese, todo fardado deveria ter um maracá. Deve saber tocá-lo adequadamente dentro do ritmo exigido pelo hino. O comando do trabalho poderá limitar o número de maracás, se assim julgar conveniente”.

Porém, na medida em que isso resolveu um problema, criou outro: a total desarmonia do bailado — principalmente no batalhão masculino, pois as mulheres comumente conservam a sua graciosidade.

Em prol da beleza e harmonia do trabalho de hinário é correta a exigência dos centros daimistas tradicionais de recomendar ao adepto portar o maracá. Mas… como fazer para que isso não prejudique a música, os rogos cantados, a harmonia, beleza e transcendência dessa “ópera cabocla” que é um bailado do Santo Daime?

Quem considera isso um “problema menor” talvez nunca tenha assistido à delicadeza e boniteza que é uma missa católica num mosteiro beneditino, embalada pelo canto gregoriano; ou um culto evangélico com corais que se superam no canto gospel; ou ainda, para ficar no exemplo da religiosidade ayahuasqueira, nunca assistiu a um culto santo em uma das casas da Barquinha…

É necessário assinalar, para não cometer injustiça, o esforço de alguns dirigentes daimistas que, conscientes do problema, buscam saná-lo. Porém, apesar da boa vontade, notamos que todas as tentativas de aperfeiçoamento da cantoria serão em vão se não formos ao cerne do problema: o maracá de lata recheado com estridentes esferas de metal.

Não é convincente o argumento de que a barulhenta padronização foi deixada pelo próprio Mestre Irineu e, portanto, não se deve modificá-la. Para aperfeiçoamento do ato litúrgico e embelezamento da cantoria deve-se buscar soluções sim, que exige mudanças.

As medidas a serem tomadas são simples e — acreditamos — eficazes. Abaixo vão algumas recomendações aos centros daimistas que visam o aperfeiçoamento e harmonização do ato litúrgico. Vamos listá-las, independentemente da ordem de importância:

  1. a obrigatoriedade do uso do maracá para os participantes do ritual de Hinário (bailado);
  2. sendo um instrumento musical percursivo, exige-se para a sua execução a aprendizagem dos toques, realização de ensaios regulares e o afinamento do instrumento;
  3. treinamento e educação musical para a batida suave, uníssona e harmônica do instrumento. Passa a ser atribuição do comandante do batalhão a fiscalização da harmonia sonora. Para tanto, este deve estar capacitado a tal função;
  4. buscar alternativas para a substituição dos maracás de lata, principalmente de latas grandes ou médias comprovadamente estridentes. A sua substituição deve ser feita por maracás de coco, de cabaça, de madeira ou outros materiais pertinentes. O formato do maracá deve ser adequado ao fardamento, isto é, sem design muito destoante do vestuário do fardado.

Concluindo, essas são apenas algumas observações e provocações com o desejo de ver as cantorias bailadas (hinários) da Doutrina do Santo Daime cada vez mais belas e primorosas nas noites de louvor a Rainha da Floresta e Jesus Cristo Redentor.

 

VIVA SEU MARACAMINHO

 

Clodomir Monteiro, 14/08/2007

 

abaixa o maracá

suba o maracá

suba o maracá

abaixa o maracá

suba o maracá

suba o maracá

 

dá dá dá daime

dá dá dá daime

dá dá dá luz

dá dá da luz

 

brinca o dia inteiro

na noite inteira

brincando a vida

da vida inteira

 

não a metade

da cabaça

não só metade

da cabeça

 

brinca o terreiro

brinda o Cruzeiro

 

papai mamãe mandou

papai mamãe mandou

 

o mundo é um bola

a vida é uma bola

 

a vida uma laranja

quem brinca brinca e manja

no meio da laranja

no centro do mundo

prazer lazer fecundo

 

o mundo é uma bola

a vida sempre rola

 

abaixa maracá

suba maracá

 

mamãe papai mandou

a todas as estrelas

em todas as estradas

maracanã chegou

 

me venham ajudar

 

maracá leva meu riso

maracá  traz o meu ser

maracá me dá o mar

maracá lava meu ser

 

maracá trabalha sério

sério que me delicia

 

maracá chama a milícia

descem do andar divino

dos seres do bem traquinas

enroscados das esquinas

no clarão seres das luzes

 

maracá me liga ao daime

maracá maraca céu

maracá maraca lua

maracá maraca estrela

 

maracá marca meu passo

maracá marca na terra

maracá leva meu medo

para o vento do seu som

 

maracá maraca angustia

maraca maracá

a guerra

maracá maraca

a paz

 

maracá maraca infante

maracando este instante

maracá traz o distante

 

maracando o diferente

maracá maraca avante

maracá maraca andor

 

quem maraca

maraca cor

maraca dor

maraca mar

mar acabar

maraximbé

de mar a mar

dai me a mandar

dai me no ar

 

mar a voar

 

abaixa o maracá

suba o maracá

suba o maracá

abaixa o maracá

suba o maracá

suba o maracá

 

maracá semente e lata

maracá já foi semente

maracá que vem da mata

maracá não vem sozinho

 

traz o amor e o carinho

descarrega o vizinho

 

maracá cabaça seca

maraca cabeça limpa

maracá de índio ao branco

negro do sagrado ser

 

abaixa o maracá

suba o maracá

suba o maracá

abaixa o maracá

suba o maracá

suba o maracá

 

maracá e tanta ara

no salão a balançar

ave errante do caminho

 

voam ara e ararinha

pequena ara e ara grande

ara gigante vai e vem

traz a paz e leva a dor

 

SALVE O SANTO MARACÁ

VIVA SEU MARACANÃ

SALVE A CORTE DO DIVINO

VIVA MEU MARACAMINHO

 

 

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.