Pergunte a Mariá | Por Luiz Holanda

Representantes dos Poderes Executivo e Judiciário da Bahia participam do evento em homenagem à memória de Silvino de Souza Caldas.

Representantes dos Poderes Executivo e Judiciário da Bahia participam do evento em homenagem à memória de Silvino de Souza Caldas.

O Desembargador José Olegário Moção Caldas, como todo bom filho, resolveu comemorar, entre amigos, o centenário de nascimento do seu pai, Silvino de Souza Caldas, ocorrido em 30 de julho próximo passado, na cidade de Nazaré. Presentes à comemoração estavam alguns dos seus colegas de tribunal, familiares e a sua genitora. Se vivo fosse, o velho Silvino completaria cem anos de vida. Faltou pouco para atingir essa idade, pois partiu para a eternidade em 11 de junho de 2011, aos 94 anos de uma profícua existência.

O homenageado nasceu em Nazaré, mas sua grande paixão era Jaguaripe, cidade natal de sua esposa, Maria Benedita, carinhosamente chamada de Mariá. Na comemoração foi republicado o opúsculo “Jaguaripe- Os subterrâneos da Ajuda”. A história dessa cidade remonta à colonização europeia da região no início do século XVII, entre 1558 e 1572, período em que Mem de Sá era o governador-geral do Brasil.

A colonização e a cristianização dos indígenas que ocupavam aquelas terras estavam sob os cuidados dos jesuítas, sob o comando do padre Manoel da Nóbrega, cuja política era juntar várias aldeias de diferentes silvícolas em missões próximas às vilas. Essa política, conhecida por “descimento”, consistia em proporcionar educação cristã aos filhos da terra e os integrarem à sociedade.

Com isso surgiu a missão da ilha de Itaparica, em 1560, mas como, nessa época, apareceu uma epidemia de varíola que dizimou boa parte da população, os jesuítas resolveram se mudar para Jaguaripe, duas léguas depois da foz do rio do mesmo nome, onde hoje se encontra a cidade.

Nessa época foi construída uma igrejinha, em torno da qual se reuniam os moradores da aldeia, formando o povoado que mais tarde se tornaria freguesia, em torno da qual o governador geral distribuiu sesmarias, que terminou por proporcionar grande progresso à freguesia, mais tarde denominada, pelo Bispo dom Constantino Barradas, de freguesia Nossa Senhora da Ajuda de Jaguaripe.

Por meio de Carta Régia, a freguesia, em 22 de maio de 1693, tornou-se vila – a primeira do recôncavo-, mas só foi instalada quatro anos depois, em 1697, pelo governador geral dom João de Lencastre, sob o nome de Vila de Nossa Senhora d’Ajuda de Jaguaripe. Essa vila se tornou a sede de uma vasta região, mais tarde dividida em inúmeras outras vilas, entre as quais a atual cidade de Nazaré, onde Silvino de Souza Caldas nasceu.

Mas a paixão de Silvino por Jaguaripe deve-se à sua esposa, dona Maríá, para quem registrou uma pungente declaração de amor no seu pequeno grande livro de recordações, intitulado “Jaguaripe-Os subterrâneas da Ajuda”. Esse opúsculo, como o denominou o Desembargador Olegário, reflete “o telurismo, demonstração inequívoca de apaixonada dedicação carregada de um acendrado amor à terra”.

O opúsculo veio a lume há 23 anos, homenageando os que passaram a mourejar na margem direita do Rio jaguaripe, “margeado de manguezais prenhes de vida e próximo ao mar”. Segundo Olegário, seu pai, nascido na “Terra Morena”, encantou-se com a brejeirice formosa do majestoso rio, que proporcionou o nascimento da cidade de Nazaré, uma das filhas de Jaguaripe, que, como sua esposa, se tornou outra de suas grandes paixões.

Silvino dizia que sua vida se dividia em antes e depois de dona Mariá, a quem venerava como um talismã que lhe dera uma prole de filhos que, como ele, honra a Bahia. Foram 66 anos de muito amor e harmonia, registrados no opúsculo como uma homenagem à sua adorada esposa, hoje com 93 anos de idade, cercada pelo que de melhor Jaguaripe e Nazaré podem lhe dar.

Dona Mariá, quando conheceu Silvino, parecia ter encontrado aquela familiaridade vinda de outras vidas. Daí esse amor que a acompanha desde então, tanto em vida quanto em memória. Usando um pensamento de Vinicius de Moraes, podemos dizer que viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, uma só pessoa -para não morrer de dor.

Realmente, para viver um grande amor é preciso cada vez mais aproveitar todos os momentos que a vida nos dá, posto que nem tudo é para sempre. Quando se vive um grande amor, o brilho da felicidade se prolonga no tempo, mesmo quando só nos resta as recordações.

É difícil para as gerações de hoje entender o que é um grande amor. O que predomina nestes tempos modernos é o sexo, que, no dizer de Mia Soeiro, une dois corpos para o prazer, enquanto o “amor une duas vidas para a felicidade”. Não é sem razão, pois, que o velho Silvino, cheio de felicidade, respondia, sempre, quando alguém lhe falava sobre o amor: “Pergunte a Mariá”.

Luiz Holanda é advogado e professor universitário.

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Sobre o autor

Luiz Holanda
Luiz Holanda é advogado e professor universitário, possui especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (SP); Comércio Exterior pela Faculdades Metropolitanas Unidas de São Paulo; Direito Comercial pela Universidade Católica de São Paulo; Comunicações Verbais pelo Instituto Melantonio de São Paulo; é professor de Direito Constitucional, Ciências Políticas, Direitos Humanos e Ética na Faculdade de Direito da UCSAL na Bahia; e é Conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/BA. Atuou como advogado dos Banco Safra E Econômico, presidiu a Transur, foi diretor comercial da Limpurb, superintendente da LBA na Bahia, superintendente parlamentar da Assembleia Legislativa da Bahia, e diretor administrativo da Sudic Bahia.