Monsenhor Renato Galvão e a Feira de Santana | Por Adilson Simas

Monsenhor Renato Galvão.

Monsenhor Renato Galvão.

Em 1990, quando completou 25 anos (Bodas de Prata) de sua chegada a Feira de Santana, em 1965,  Monsenhor Renato Galvão fez questão de registrar o fato para a história, através de artigo publicado na imprensa, especialmente no jornal Feira Hoje e na revista Panorama. Vale a pena ver de novo:

– Aqui cheguei aos 6 dias de junho de 1965, a convite do primeiro bispo da Diocese de Feira de Santana. Deixava o sertão onde vivera por muitos anos seguidos e devia assimilar costumes e até a pastoral de uma grande cidade. A igreja do pontificado de João XXIII abria as janelas aos ventos renovadores do Concílio. Devia recomeçar a vida de pároco em novos métodos e novas experiências. Feira de Santana entrava também na era industrial com seu Plano Integrado, o advento da energia de Paulo Afonso em época de muito idealismo e modernização.

No mesmo ano chegava também um jovem pastor presbiteriano com as melhores disposições para o diálogo e o trabalho ecumênico de tentar promover e retirar os mendigos de nossas ruas. A Afas mereceu o apoio da comunidade e do poder público municipal. Veio depois o esforço comum em favor do migrante, com o trabalho do Sim. As reuniões de diretorias de entidades promocionais entravam pela noite a dentro e eram largamente compensadas pelos bons resultados alcançados. O comércio acolhia com sorriso alegre a chegada de um padre e um protestante em busca de ajuda para o irmão pobre.

Outro momento feliz em que tive a sorte de participar intensivamente foi o movimento histórico pela criação e implantação da nossa Universidade. A comissão encarregada do acervo bibliográfico deveria apresentar 25 mil títulos ao processo de reconhecimento no Conselho Federal de Educação, do MEC. A campanha do livro, a ofertas de bibliotecas particulares, as contribuições espontâneas e, mais uma vez, a generosidade feirense suplantava dificuldades. Obrigado Feira de Santana por me ter concedido a honra de servir ao lado de muitos que aqui nasceram e de tantos outros de origens diversas que para aqui vieram com a disposição de somar e multiplicar esforços pelo desenvolvimento da cidade.

Neste ano se comemora 20 anos de Cursilho da Cristandade implantado nesta Diocese. Foi um movimento renovador de fé com profundos reflexos nas nossas famílias. No passado a cidade conheceu o trabalho de Padre Ovídio e o esforço da ação católica no paroquiato de Padre Amilcar sempre teve as velhas e respeitáveis associações religiosas. Agora era o aparecimento do leigo despertado em busca de seu lugar na Igreja, como fermento cristão nos seus ambientes. Vale lembrar o pioneirismo do médico Carlos Alberto Kruschewsky. Quero aqui saudar os operários da primeira hora, alguns deles já descansam com Deus. Obrigado Feira de Santana pela resposta generosa ao Cursilho que tem inspirado outros pelos movimentos de cristãos leigos.

Tive a rara felicidade de conviver por 15 anos nos quadros do Rotary Clube de Feira de Santana, exercitando companheirismo e a partilhar do serviço comunitário. Acompanhei a toda vida do Moc desde o seu desabrochar do idealismo de Albertino Carneiro. Aprendi a amar o sacrifício dos que fazem a centenária Santa Casa de Misericórdia e o Hospital Dom Pedro de Alcântara através da Secretaria nas longas reuniões. São 135 anos de atendimento em épocas em que não havia outras portas para se abrir aos nossos doentes. Obrigado Feira de Santana pela oportunidade de participar de tudo isso.

Mas foi, sobretudo na velha e querida matriz de Sant’Ana, na Catedral Diocesana, que se desenrolaram sem férias esses 25 anos de pároco, no trabalho do dia-dia. Quero agradecer aos esforços vividos pela Comissão da Festa, a Obra Promocional de Sant’Ana funcionando em três turnos, o trabalho constante de muitos para preservar e melhorar o templo, o entusiasmo contagiante dos jovens e a perseverante presença dos mais velhos, os meus sacristãos e coroinhas tiveram condições de galgarem nível superior de ensino. Sempre que posso visito doentes e rezo nos enterros de bairros. Sinto-me mais padre no aconchego da gente simples, no seio das famílias mais pobres. Gosto de caminhar a pé no meio do povo, perdido no anonimato, aprendendo muitas vezes lições da vida.

Outro dia, caminhava em plena rua Conselheiro Franco, em momento de grande movimentação. Foi quando uma senhora do povo, que levava uma criança pela mão, interrompeu a caminhada e gritou: “Minha filha, dê um beijo no padre que te batizou!” Era justamente um desses dias em que a gente se arrasta levando o peso da tristeza e do desencanto. Vi naquele gesto simples um apelo de Deus para a confiança na Providência e nas criaturas.

Vale a pena envelhecer trabalhando, sem ódios e procurando fazer o bem e jamais criar dificuldades para o povo. Como é bom ser simples e saber conviver com os simples!…

Por tudo isso,

Obrigado Feira de Santana!

Em tempo – Monsenhor Galvão faleceu 5 anos depois, em 9 de abril de 1995, vítima de um infarto fulminante.

*Adilson Simas é jornalista.

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