Indiciamento de Lula é tempero político | Por Tereza Cruvinel

Tereza Cruvinel: Foi providencial, para a arquitetura do golpe, indiciar Lula e sua mulher Marisa Letícia neste exato momento, quando o julgamento no Senado entra numa fase em que os senadores são obrigados a posar de juízes.

Tereza Cruvinel: Foi providencial, para a arquitetura do golpe, indiciar Lula e sua mulher Marisa Letícia neste exato momento, quando o julgamento no Senado entra numa fase em que os senadores são obrigados a posar de juízes.

Mais uma vez, a Lava Jato nos dá uma amostra da precisão de seu relógio político. Depois de meses investigando o ex-presidente Lula, a Polícia Federal resolveu indiciá-lo exatamente hoje, no segundo dia do julgamento da presidente Dilma pelo Senado. Desde 2014, quando vazou partes da delação do ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa na largada do segundo turno, o relógio da Lava Jato, e o do procurador-geral Rodrigo Janot também, andam sintonizados com o da crise política. A sintonia verificou-se muitas outras vezes, e particularmente na semana que antecedeu a votação da admissibilidade do impeachment pela Câmara, em abril.

Foi providencial, para a arquitetura do golpe, indiciar Lula e sua mulher Marisa Letícia neste exato momento, quando o julgamento no Senado entra numa fase em que os senadores são obrigados a posar de juízes, apesar das baixarias. Nesta fase, o debate deve concentrar-se nas acusações contra Dilma, que são assuntos técnicos pouco compreensíveis para a maioria da população, as pedaladas fiscais e os decretos orçamentários. Não são mais admitidos discursos irados contra o “conjunto da obra” do governo Dilma, com referências a mensalão, petrolão, Pasadena e tantos outros assuntos que não integram o processo. Assim, o indiciamento de Lula e Marisa por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica surge como um tempero político importante, que associa o tema da corrupção ao julgamento, embora ele não integre a acusação. Resgata para o imaginário coletivo todos os escândalos que envolvem o PT, embora Dilma não esteja sendo julgada por envolvimento com nenhum deles.

Um procurador da Lava Jato disse ‘em off’ à colunista Natuza Nery: “Éramos lindos até o impeachment ser irreversível. Agora que já nos usaram, dizem chega”. Isso depois dos tabefes do ministro Gilmar Mendes. Mas, novamente, a Lava Jato serve aos propósitos do golpe, com a hora do indiciamento de Lula.

Outra coisa é o mérito da acusação. A não ser que tenha guardado provas, impedindo a própria defesa do ex-presidente de ter acesso a elas, a Lava Jato não tem ainda meios para demonstrar que Lula é dono do apartamento do Guarujá e do sítio de Atibaia. Mas, assim como o impeachment avança sem crime de responsabilidade fiscal tipificado, o processo contra Lula seguirá em frente, apesar das arguições de suspeição contra o juiz Moro, apesar das denúncias internacionais. Condenar Lula constitui a segunda etapa da conspiração destinada a varrer o PT do governo, com o impeachment, e a impedir a volta de Lula em 2018, tornando-o inelegível, tornando-o ficha-suja.

*Tereza Cruvinel é jornalista.

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