Pedofilia religiosa | Por Luiz Holanda

A organização Save the Children elaborou um relatório mostrando o aumento da pornografia infantil no mundo, inclusive em nosso país, onde o abuso sexual de menor aumentou em cerca de 22%.

A organização Save the Children elaborou um relatório mostrando o aumento da pornografia infantil no mundo, inclusive em nosso país, onde o abuso sexual de menor aumentou em cerca de 22%.

Existem muitos padres, pastores, diáconos e outros profissionais da fé que acreditam num Deus universal que pode perdoar nossos pecados e salvar nossas almas do fogo do inferno. São os que, disseminando a palavra entre os incrédulos, lembram a importância de se buscar o criador como uma forma de salvação. Ao contrário daqueles que causam divisão entre irmãos, nos distinguem com um sentimento fraterno capaz de criar uma irmandade universal, muitas vezes sem os recursos do hip hop ou da música gospel para arrebanhar ovelhas.

Estes peregrinos da fé, isentos de qualquer maldade e destituídos de todas as vaidades, são praticamente santos, pelo menos quando ganharem os céus. Já outros, de todas as igrejas, são demônios, praticantes de diversos crimes e pecados, entre os quais a corrupção e a pedofilia. Existem pedófilos em todas as classes. Os das Igrejas são os piores, pois justificam o crime como se fosse uma obra de Deus.

Os pedófilos da Igreja Católica chamam mais a atenção porque são solteiros e têm mais contatos com as crianças, muitas das quais coroinhas. Além disso, são mais difíceis de se esconderem. Não é sem razão, pois, a existência, em vários países, de promissoras indústrias para arrancar dinheiro da Igreja Católica com casos de pedofilia, verdadeiras ou não. O atual processo de secularização, da banalização do sagrado e da profissionalização da crença permitem o relaxamento e o enfraquecimento da vida moral de todas as religiões, principalmente das que sobrevivem pelo comércio da fé.

E o pior é que, para seus pastores pedófilos, não existe punição. A ONU acusou o Vaticano de adotar medidas protetoras para “proteger” alguns religiosos por abuso sexual de menores. O Comitê dessa organização chegou a expressar “consternação” com a recusa da Santa Sé em reconhecer a extensão dos crimes praticados por sacerdotes contra crianças indefesas.

A organização Save the Children elaborou um relatório mostrando o aumento da pornografia infantil no mundo, inclusive em nosso país, onde o abuso sexual de menor aumentou em cerca de 22%. Não se diga que esse aumento deu-se apenas na Igreja Católica. As estatísticas demonstram que  o Brasil se tornou o país com o maior número de pastores evangélicos pedófilos do mundo.

Essa prática não se encontra somente nos grandes centros. Recentemente a imprensa divulgou que no sertão da Paraíba dois pastores foram presos, suspeitos de estupro contra adolescentes e crianças. Segundo a polícia, as vítimas tinham entre 11 e 16 anos e recebiam entre R$ 20 e R$ 40 reais para manter relações sexuais com a dupla. Um deles, que o delegado da polícia da cidade (Montadas, no agreste paraibano), disse ter sido a primeira vítima, recebeu dinheiro para praticar sexo oral com um dos pastores.

Outro caso divulgado pela imprensa dá conta de que em Manaus, capital do Amazonas, um pastor foi preso por estuprar duas obreiras, uma de 15 e outra de 17 anos, ejaculando nelas o “esperma de Deus” e que tinha de ser engolido para “purificar a alma”. Uma dessas obreiras contou que foi obrigada a assistir a um vídeo onde um menino de 11 anos aparece sendo estuprado pelo pastor com um cabo de vassoura.

Por último, ou como dizem os ingleses, the last but not least, a pastora Bianca Toledo revelou que seu filho, de apenas 5 anos, estava sendo abusado sexualmente pelo padrasto, o pastor Felipe Heiderich, que ficou preso apenas por alguns dias. Foi solto por ordem do juiz Paulo Cesar Vieira Carvalho Filho, da 17ª Vara Criminal.

Diante desses absurdos, o povo não entende como a própria justiça criminaliza o inocente. Decisões como essa fazem com que os pedófilos enxerguem um horizonte de impunidade para os seus crimes. Isso não é um fato novo na realidade brasileira. A impunidade, como regra geral das decisões judiciárias em nosso país, começa no Supremo Tribunal Federal, onde o criminoso goza de todas as garantias.

De nada adianta nossa Constituição filiar-se à DOUTRINA DA PROTEÇÃO INTEGRAL DO MENOR. O Decreto-Legislativo 28/1990, que obriga a proteção das crianças e dos adolescentes é letra morta. O primeiro e único diploma de regência efetiva sobre o tema, que é o Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei 8.069/90 -, também é letra morta. E agora que a justiça parece garantir a chamada pedofilia religiosa, só restou Cristo para proteger nossas crianças. O problema é que esse crime, nos dias de hoje, está justamente em suas igrejas.

*Luiz Holanda é advogado e professor universitário.

Sobre o autor

Luiz Holanda
Luiz Holanda é advogado e professor universitário, possui especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (SP); Comércio Exterior pela Faculdades Metropolitanas Unidas de São Paulo; Direito Comercial pela Universidade Católica de São Paulo; Comunicações Verbais pelo Instituto Melantonio de São Paulo; é professor de Direito Constitucional, Ciências Políticas, Direitos Humanos e Ética na Faculdade de Direito da UCSAL na Bahia; e é Conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/BA. Atuou como advogado dos Banco Safra E Econômico, presidiu a Transur, foi diretor comercial da Limpurb, superintendente da LBA na Bahia, superintendente parlamentar da Assembleia Legislativa da Bahia, e diretor administrativo da Sudic Bahia.