Introdução da música instrumental na Doutrina do Santo Daime

Mestre Irineu Mestre Daniel

Dona Lourdes Carioca entrou em um lindo salão encantado do Castelo Azulado, sede mítica da linda Missão de Luz de Mestre Daniel Pereira de Mattos — a Barquinha de Frei Daniel. Lá foram dadas as fundamentais aulas musicais para a aluna atenciosa. Cada nota musical, cada dedilhar dos dedos nas cordas do violão vinha acompanhado por lindos pingos de ouro, formosos pingos de luz.

Raimundo Irineu Serra era conhecido na Cidade de Rio Branco, capital do Estado do Acre, como um líder comunitário que fazia trabalhos espirituais usando Daime (Ayahuasca), uma bebida de origem indígena de poderes inacreditáveis.

Curandeiro para alguns, feiticeiro para outros, o que Irineu Serra de fato se constituía era em amigo, padrinho e mestre de sua gente, uma irmandade humilde que o acompanhava no seu misterioso culto.

Pelos idos dos anos 1960, um grupo de amigos e discípulos do Velho Mestre o procura para expor a ideia e sugestão de organizar um conjunto musical para abrilhantar os hinários bailados por aquela comunidade religiosa, nas datas comemorativas do calendário cristão.

Entre os proponentes se encontrava dona Lourdes Carioca, esposa de seu Júlio, que até então não sabiam tocar nenhum instrumento. A matriarca dos Carioca talvez não imaginasse que começaria ali a constituição de uma linhagem familiar de virtuosos músicos.

Mestre Irineu logo simpatizou com a ideia e prontamente se tornou um entusiasta e incentivador do futuro conjunto musical. Ele entregou 8 mil-réis a Júlio Carioca e pediu para comprar um violão para a jovem Peregrina, sua amada consorte.

Seu Júlio Carioca aproveita e adquire também um bandolim e um cavaquinho para a sua esposa Lourdes; e assim vai surgindo o primeiro grupo musical da Doutrina do Mestre Irineu, com a seguinte composição: Raimundo Gonçalves no banjo; Maria Laurinda, Jovita Gomes, Adália Grangeiro e Tolentino ao violão. Enoque no bandolim e João Serra no pandeiro. E mais os seguintes integrantes: o casal Júlio e Lourdes Carioca, Peregrina Serra e Maria Zacarias. Nos ensaios, era o próprio Irineu Serra quem ditava o ritmo da música com o seu maracá.

Cabe aqui registrar o papel de gênero e a importância das mulheres na Doutrina do Daime, a partir do número de participantes femininas neste conjunto musical.

No contexto de uma sociedade agrária, machista e patriarcal — que era a sociedade acreana da época —, Mestre Irineu dignifica as mulheres dando a elas funções de destaque na sua comunidade religiosa, labores antes reservados aos homens.

Raimundo Irineu Serra e Daniel Pereira de Mattos

Muito tempo antes, nos anos 1930 e 1940, na Doutrina do Mestre Irineu tinha havido música instrumental, interrompida com a saída das suas hostes do amigo e discípulo Daniel Pereira de Mattos (1888-1958) que, após uma revelação mística, retira-se  para fundar a Barquinha — uma segunda religião ayahuasqueira.

Corria o ano de 1937. Irineu Serra era cliente da barbearia de Daniel, negro maranhense como ele. Daniel passava por problemas físicos e psíquicos decorrentes de abuso do álcool e Mestre Irineu resolve ajudá-lo.

Daniel Pereira era um homem muito benquisto na sociedade rio-branquense. Tinha sido membro da Marinha de Guerra do Brasil, e ao receber baixa na condição de 2º Sargento migrou para o Acre.

Homem de muitas habilidades, sabia desempenhar doze tarefas: era construtor naval, cozinheiro, músico, alfaiate, carpinteiro, marceneiro, artesão, poeta, pedreiro, sapateiro, padeiro e barbeiro.

Na condição de músico tocava violão, violino (rabeca) e instrumentos de sopro: pistom e clarinete — entre outros.

A sua barbearia localizava-se na Rua 6 de agosto, no centro de Rio Branco. Lá, entre seus inúmeros clientes, Daniel tinha um amigo especial, o conterrâneo Raimundo Irineu Serra, que migrara para a Amazônia no início do Século XX, acompanhando a saga da borracha.

Vendo toda a aflição e enfermidade do amigo Daniel, Mestre Irineu o convida para um tratamento físico e espiritual onde se localizava a sua residência e sede de serviços, na Vila Ivonete.

Entregue à bebida e à doença, Daniel não reúne forças para lá se dirigir sozinho. Sabedor disso, Irineu manda alguns companheiros trazê-lo, e a primeira vez que Daniel adentra o recinto de cura do seu amigo e futuro mestre é desfalecido, deitado numa carroça puxada a boi, na qual foram buscá-lo.

Conta-se que, neste primeiro tratamento, Daniel residiu por seis meses na comunidade liderada por Mestre Irineu, cuidando da saúde, para superar os problemas de alcoolismo e suas nefastas consequências, como a doença do fígado. Nessa época Daniel bebeu o Daime pela primeira vez.

Além do deterioro físico e mental, o seu estado de penúria material chegara a tal ponto que, não tendo como pagar a roupa costurada para ele pela menina Percília, filha de criação do Mestre Irineu, a compensou compondo uma canção e a ofertando — que foi aceita de bom grado.

De 1937 a 1945 Daniel acompanhou o Padrinho Irineu na sua Missão Espiritual. Foi um período de instrução e preparo para seguir a sua destinação espiritual e fundar a sua própria Missão (Barquinha) mais adiante.

Integrando aquela comunidade ordeira e trabalhadora, voltada para atividades agrícolas, Daniel prestava serviços nas habilidades em que era bom profissional: carpintaria, marcenaria, barbearia e, na condição de escolarizado, secretariou as atividades da nova Doutrina cristã.

O seu processo de cura e aprendizagem não se deu sem percalços. Com a saúde recuperada, após aqueles seis meses iniciais, Daniel retorna à vida libertina e caí novamente na boemia e na bebedeira.

Paciente, seu amigo Irineu manda buscá-lo novamente. Tantas vezes Daniel caiu e tantas vezes uma mão amiga estava ali, disposta a ajudá-lo — na nobre missão de amor e caridade ao próximo.

Na Doutrina que então se estruturava, Daniel Pereira terá uma posição destacada, pois, músico como era, tocava o seu violino (rabeca) nas sessões de Concentração das quartas-feiras.

Quando se começou a cantar hinário, ele foi pioneiro em tocar instrumentos musicais para abrilhantar as festas.

A Barquinha de Frei Daniel

No ano de 1945 o Mestre Raimundo Irineu Serra se transfere da Vila Ivonete para as terras do antigo Seringal Espalhado — a Colônia Custódio Freire. Terras doadas pelo governo do Território Federal ao Padrinho Irineu. Sua irmandade trabalhadora o segue para a labuta no campo. Este lugar, que se chamava Alto da Santa Cruz, será rebatizado de Alto Santo.

O Mestre Irineu para lá transferiu os seus trabalhos espirituais com o Daime e o primeiro hinário na nova sede de serviços acontecerá na noite de São João.

Ao término de um trabalho de Concentração, neste mesmo ano de 1945, Daniel Pereira, que vinha tomando uma pequena quantidade diária de Daime para o tratamento de saúde, pediu permissão ao Mestre Irineu para tomar um copo cheio.

— Sei que nesse Daime, nessa bebida, eu tenho possibilidade de compreender as visões e sonhos que me acompanham desde a infância.

Quando a força chegou, ele teve uma visão, uma miração: romperam-se os céus e de lá desceram dois esplendorosos Anjos que, por ordem do Pai de Bondade e da Virgem da Conceição, lhe entregaram um Livro Azul e lhe falaram do cumprimento de uma Missão.

Daniel rogou a Deus e a Virgem Maria que lhe mostrassem o significado daquela mensagem. Então apareceu um soldado celestial com o mesmo Livro Azul nas mãos e lhe entregou dizendo:

— Aqui está a Missão que tens que cumprir. Deste mundo à eternidade. A sua Missão está neste livro. Fé.

O mensageiro de Deus lhe disse também que ele deveria sair dali, pois aquela não era a sua linha espiritual.

Ao sair do transe, Mestre Irineu lhe perguntou:

— Aonde é que tu andava, Daniel, que espiritualmente te procurei e não te encontrei?

— Padrinho Irineu, a minha Mãe me entregou uma Missão espiritual.

Aí ele contou ao Mestre Irineu a miração que teve. Este lhe aconselhou a fazer o que tinham lhe ordenado, pois ele estava recebendo uma Missão e tinha que cumprir.

Daniel pediu a permissão, benção e o apoio do Mestre Irineu para iniciar a sua Missão Espiritual aqui na Terra. Do Padrinho Irineu ele recebeu a licença, a benção e os primeiros litros de Daime usados na abertura das suas obras de caridade.

Dentro da Santa Luz, Daniel foi recebendo os salmos sagrados do Livro Azul. Com a sua rabeca entoava as melodias. Assim surgiu a Doutrina do Daime de Mestre Daniel Pereira de Mattos — a Barquinha. Missão franciscana, nos mistérios da sagrada Doutrina ele foi consagrado como Frei Daniel.

A amizade, admiração e respeito mútuo entre esses dois mestres ayahuasqueiros, irmãos de cor e conterrâneos maranhenses, vai durar neste mundo até o desencarne de Daniel — no ano de 1958 — e continua por toda a eternidade.

O conjunto musical da Doutrina do Daime

Quando Daniel saiu para fundar a Barquinha, a Doutrina de Mestre Irineu ficou carente de músicos. Muitos anos depois surgiu a ideia de formar o primeiro conjunto musical para embelezar a cantoria dos hinários bailados.

O conjunto musical da Doutrina do Daime realiza então os seus primeiros ensaios. Todos eles sendo músicos neófitos, logo surgiram as primeiras dificuldades.

Mestre Irineu instruiu os seus discípulos a se concentrarem e invocarem o Mestre Daniel, já falecido, a vir ensiná-los a tocar os instrumentos musicais. E assim foi feito.

Lourdes Carioca conta que, em miração, no desprendimento corpóreo volitou em direção ao Cemitério São João Batista, na região central de Rio Branco, onde Daniel estava enterrado.

No caminho deste voo astral, já nas proximidades da necrópole, dona Lourdes encontrou com um grande e luminoso ser. Era o Frei Daniel – que vinha em seu auxílio.

Mestre Daniel a convidou para entrar em um lindo salão encantado, numa das moradas do Divino Pai Eterno. Era o Castelo do Monte Azulado, sede mítica desta linda Missão de Luz — a Barquinha de Frei Daniel.

Lá no Castelo Azulado foram dadas as fundamentais aulas musicais para a aluna atenciosa. Cada nota musical, cada dedilhar dos dedos nas cordas do violão vinha acompanhado por lindos pingos de ouro, formosos pingos de luz.

Assim está contada a história da introdução da música instrumental na Doutrina do Mestre Raimundo Irineu Serra. Com o auxílio e apoio do seu irmão amigo, por toda a eternidade, Mestre Daniel Pereira de Mattos.

 

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.