Editorial: a caminho da condenação pelo STF, Eduardo Cunha representa o PMDB que usurpou a República; ele levará consigo os próceres do partido

Presidente interino Michel Temer e deputado afastado Eduardo Cunha, membros de uma mesma organização.

Presidente interino Michel Temer e deputado afastado Eduardo Cunha, membros de uma mesma organização.

Desdobramento do Caso Lava Jato, a Operação Sépsis foi deflagrada na sexta-feira (01/07/2016) pela Polícia Federal, por ordem do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Teori Zavascki. A operação objetivou colher provas e testemunhos dos núcleos operacional e financeiro que alimentaram o “possível” esquema corrupto liderado pelo deputado afastado Eduardo Cunha (PMDB/RJ).

Pode-se resumir o perfil de Eduardo Cunha a partir das palavras do procurador-geral da República, Rodrigo Janot: “Cunha é líder de uma célula criminosa”. Em conjunto com as palavras, três inquéritos criminais foram enviados por Janot ao STF.  Os inquéritos resultaram em duas consequências concretas: primeiro, Cunha foi afastado, por unanimidade da Corte de Justiça, do mandato de presidente da Câmara Federal; segundo, foi proibido de frequentar o Congresso Nacional, sob o argumento do procurador-geral de que a presença na sede do Poder Legislativo Nacional, do parlamentar afastado, “é oportunidade para delinquir”.

Em Cunha reside o principal elemento para compreender como um governo golpista assumiu o Poder da República. O deputado afastado resumi o modus operandi da organização que usurpou a República. Permitindo que próceres do conservadorismo nacional retomassem o controle da União. Em vários aspectos, esses personagens políticos têm relação direta e indireta com o Golpe Civil/Militar de 1964.

Aspectos da assunção usurpadora

Três situações ilustram bem essa assunção — usurpadora, conservadora e reacionária — ao poder:

— Em 1ª de julho de 2016, Michel Temer restitui poderes aos comandantes militares. “Precisamos democratizar e reconstitucionalizar o País”, disse o presidente interino. Mas a leitura do fato concreto é que existe uma retirada do poder dos civis, portanto, do povo, para instituições que em passado recente protagonizaram atos de violação dos direitos civis e aturam em desrespeito aos princípios democráticos.

— Em 26 de junho de 2016, no Palácio do Jaburu, Michel Temer se encontrou com o correligionário Eduardo Cunha. Foi terceiro encontro entre os membros da organização, desde que Temer se tornou interino, e o primeiro encontro desde o afastamento de Cunha. Sintomático é o fato do presidente da República receber um “delinquente contumaz”, como afirmado por Janot. Mas, compreensível, quando revista a afirmação do ex-ministro Ciro Gomes: “Não é Eduardo Cunha que é homem de Michel Temer. Mas é Temer que é homem de Cunha”.

— Em 12 de maio de 2016, com a decisão do Senado de afastar Dilma Rousseff da presidência da República, Michel Temer compôs o ‘Novo Governo da Velha República’ com os aliados do ‘Golpe de Estado’. O golpe é explicitado ao observar que as forças que assumem o Poder da República foram as mesmas forças derrotadas nas quatro últimas eleições presidências. Personalidades como José Serra, senador (PSDB/SP); Aécio Neves, senador (PSDB/MG); Aloysio Nunes, senador (PSDB-SP); Arthur Maia, deputado federal (PPS/BA); José Carlos Aleluia, deputado federal (DEM/BA); detre outros, representam a mudança usurpadora do poder.

Essas situações, em conjunto com uma série de medidas do Governo Temer —  a mais explícita, a de acabar com a autonomia institucional da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) — representam as características de um governo usurpador, conservador e reacionário que promove o privilégio de classe, é condescendente com a corrupção e os corruptos, nega princípio democrático e busca controlar o acesso a informação.

A queda

Palavra de origem grega, sépsis significa corrupção ou putrefação de tecidos ou substâncias orgânicas. Em uma transliteração do termo e do significado da palavra do campo da medicina para ciência política, pode-se concluir que a Operação ‘Sépsi’ objetivou identificar com precisão quais são os ‘Agentes Patogênicos da República’, eliminado o órgão político putrefato, sem matar o corpo, que nesse caso pode ser entendido como a República.

A eminente condenação de Eduardo Cunha pelo STF apenas será mais uma incisão cirúrgica em um paciente — a República; com grave enfermidade, a estrutura política. Mas, terá efeitos profundos, em decorrência do ‘agente patogênico’ ser um dos próceres a corromper a República, ou seja, um dos mais proeminentes líderes da organização.

Com o eminente fim do poder de Eduardo Cunha, a ‘República Usurpadora’ resumida no “Governo Temer’ será abalada. Ainda assim, corrompida, putrefata pelos anos do Golpe Civil/Militar de 1964, a República continuará contaminada por outros agentes patogênicos.

É possível afirmar que, como membro de uma organização, pelo protagonismo, uma possível futura delação de Eduardo Cunha poderá ser considerada como a segunda mais importante contribuição ao processo saneador do Caso Lava Jato. A primeira, mais importante contribuição está em curso, é a do executivo Marcelo Odebrecht e do Grupo Odebrecht.

O martírio dos leões

Na reportagem de Daiene Cardoso e Daniel Carvalho, publicada no jornal O Estado De S.Paulo, em 3 Julho de 2016, com título ‘Cunha troca claque política por advogados’, as jornalistas resumiram a situação do prócer do PMDB:

— ‘ACM de hoje’. Cunha já foi visto aos domingos na Igreja Casa da Bênção, em Taguatinga, no Distrito Federal. No dia 12 de junho, ele participou do culto, leu um versículo da Bíblia e disse se sentir como “Daniel na cova dos leões”, mas que acreditava na justiça divina. Segundo o site da igreja, o peemedebista foi aplaudido e pediu orações para ele próprio. “Em todo caso, ninguém, em sã consciência, pode prever o que vai acontecer com o experiente Eduardo Cunha, que têm em mãos a história recente da Câmara dos Deputados. Um fato é certo: Cunha hoje é o ACM (Antônio Carlos Magalhães, político influente no Congresso) de ontem: firme e conhecedor dos graves pecados de seus adversários. Dilma que o diga…”, diz texto no site da igreja. Em casa, costuma rezar com uma senhora que costumava frequentar seu gabinete.

Um lugar

Custará muito ao povo observar a concretude de uma República democrática plural, que permita ao cidadão comum o encontro com a felicidade. Enquanto isso, durante os carnavais, a nação exalta-se em aparente encanto. Mas, um segundo olhar, observa a marcha da desigualdade persistir, negando aos filhos da jovem República um lugar ao sol. Dessa dualidade emergem questionamentos:

— Até quando os aparatos ideológicos do estado irão manter contida a plebe?

— Até quando a sociedade negará a si própria o direito a viver em equilíbrio social?

Muita sepsia precisará para chegar a conclusão dessas respostas.

*Carlos Augusto é cientista social e jornalista.

Sobre o autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto Oliveira da Silva (Carlos Augusto) é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF). Atua como jornalista e cientista social. Telefone: (75)98242-8000 | E-mail: diretor@jornalgrandebahia.com.br.