Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?

Eli, Eli, lamá sabactáni, que significa ‘Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?’

Eli, Eli, lamá sabactáni, que significa ‘Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?’

Jesus foi abandonado pelo Pai na hora que mais precisou Dele? Foi desamparado por Deus no momento da sua infame crucificação? Essa é a suposição dos homens ao se depararem com tal passagem bíblica.

Será que o espinho da dúvida atravessou o Corpo e Espírito do Nosso Salvador? Pois na hora de sua morte Jesus exclamou em aramaico, sua língua materna:

 Eli, Eli, lamá sabactáni, que significa ‘Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?’.

Algumas horas antes, orando ao Criador no Horto das Oliveiras, Jesus chorou lágrimas de sangue, ao antever todo o sofrimento pelo qual passaria.

Rogou:

— Pai, se for possível, afaste de mim este cálice, mas seja feita a Vossa vontade, e não a Minha.

Ele completou:

— Na verdade, o Espírito está pronto, mas a Carne é fraca.

Jesus sofreu — e muito — na cruz. Ele anteviu todo o Seu sofrimento. Porém tinha total consciência que este era o plano Divino.

O que sofreu foi o seu invólucro carnal, o corpo físico, e não o Espirito, pois, como disse: “o Espírito está pronto, mas a carne é fraca”.

Na vil crucificação Ele exclamou:

— Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?

O possível sentimento de desamparo e abandono de Jesus por Deus Pai é contradito neste mesmo instante, pois Ele sabia que seria elevado aos Céus.

Vejamos: Jesus era acompanhado na crucificação por dois ladrões, um a sua direita e outro a sua esquerda.

Gestas, o trapaceiro e embusteiro, à sua esquerda, O provocou:

— Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós.

Dimas, o bom ladrão à sua direita, o repreendeu e pediu a Jesus:

— Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino.

Respondeu-lhe Jesus:

— Em verdade te digo que hoje mesmo estarás comigo no Paraíso.

Outras esclarecedoras frases Ele proferiu durante a sua crucificação:

— Pai, perdoai-vos, pois não sabem o que fazem.

E no suspiro final, bradou:

— Pai, nas Tuas Mãos entrego meu Espírito.

Todavia, ainda resta a dúvida entre os homens: Jesus foi desamparado por Deus no momento que mais necessitou Dele? Foi abandonado pelo Pai na hora de sua abominável crucificação?

Para buscar compreender este momento crucial da vida do Mestre aqui no mundo Terra, é preciso antes de tudo despir-se de qualquer vaidade intelectual e filosófica, e entender a nossa limitação — limitação da mente humana — de acessar alguns ou muitos dos enigmas bíblicos.

Certo dia, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram:

— Por que falas ao povo por parábolas?

Ele respondeu:

— A vocês foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não. Porque vendo, eles não veem e, ouvindo, não ouvem nem entendem. Mas, felizes são os olhos de vocês, porque veem; e os ouvidos de vocês, porque ouvem.

Existem ensinos exotéricos e ensinos esotéricos. Exotéricos são os ensinos abertos, acessíveis a todos; esotéricos são os ensinos ocultos, fechados, acessíveis a iniciados ou agraciados.

Sendo assim, o Cristianismo pode ser compreendido a partir de duas vertentes: Cristianismo Exotérico e Cristianismo Esotérico. O Cristianismo Exotérico se fundamenta principalmente nos ensinos éticos e morais de Jesus; já o Cristianismo esotérico se baseia nos ensinamentos ocultos, os grandes mistérios de Deus.

Jesus é o Filho de Deus e o Filho do Homem. Isto significa que Ele é totalmente Deus e totalmente Homem. O verdadeiro Deus e o verdadeiro Homem.

Ao descer das Alturas para viver entre nós, o Mestre Jesus se submeteu às leis naturais que regem este plano terrestre — plano denso e grosseiro, entre as múltiplas moradas do Pai.

Vivendo entre nós passou pelas mesmas agruras que somos obrigados a passar. Jesus ri e chora; se alegra e se entristece em sua vida de matéria, Deus confinado em um frágil corpo físico.

Quando o Verbo se encarnou, e viveu entre nós, Ele se submeteu às leis físicas do Planeta Terra. Inclusive se submeteu ao determinismo biológico de que morreria um dia.

Porém, mesmo como Homem, por ter plena consciência da sua condição divina, a sua Fé (fidelidade) no Pai Criador permite que realize milagres e prodígios — feitos incomuns entre homens comuns, mas não para Jesus.

— Vós também sois deuses, todos vós são filhos do Altíssimo.

Porem, por não termos a consciência da nossa condição divina, não termos fé inexpugnável, não realizamos os milagres e prodígio que Ele nos prometeu:

— Em verdade vos digo: se tiverdes fé do tamanho de um grão de mostarda, direis a esta montanha: vai daqui para lá, e ela irá. Nada vos será impossível.

Estava no propósito divino a sua morte para a salvação de muitos. O Cordeiro de Deus morreria pela nossa salvação.

O Divino Mestre, na hora de Sua morte, continuou a nos ensinar, através do próprio exemplo. Ao se declarar abandonado, Ele sabia que iria morrer nos próximos minutos, pois a morte é o fruto do pecado. Todavia, Jesus não tinha a mácula do pecado.

Repetindo, vivendo entre nós, passou pelas mesmas vicissitudes que nós, menos uma: o pecado.

A morte não é da condição divina, e sim da condição mundana. A morte é resultado do pecado de Adão e Eva. Mito bíblico que simboliza a queda do homem dos planos superiores, divinais, para esse plano de expiação e provas que é o mundo Terra.

Pela desobediência e rebeldia de Adão e Eva (mito) o homem adâmico, expulso do Paraíso, morrerá, pagando por suas culpas. Separado do Pai Criador fomos desamparados, e sentenciados a morte.

Pelo pecado fomos submetidos à morte — doce morte regeneradora — pois abre a possibilidade de retorno em outro corpo físico (reencarnação), para a oportunidade de reparação das faltas e o prosseguimento da evolução espiritual. O retorno à Casa do Pai.

Todos nós morreremos, é da condição humana. Na cruz, quem morreria dali a alguns instantes seria o corpo físico de Jesus. Porém, se Jesus não é filho do pecado, por que teria que morrer como qualquer um de nós outros?

Para entendermos o mistério da crucificação e morte do Salvador Jesus Cristo, temos que lembrar e crer que Ele ressuscitou ao terceiro dia.

Jesus não morreu, pois Ele ressuscitou de entre os mortos. Morreu e ressuscitou de entre os mortos.

Jesus foi o segundo Adão. Aquele que venceu o pecado e a morte.

Ele morreu, mas ressuscitou.

Por isso, não foi Jesus o abandonado, desamparado. Fomos nós, por nossas culpas, nossas rebeldias. É a lição que Ele nos dá.

Alegrem-se irmãos, regozijem-se. Jesus ressuscitou. Ter fé na ressurreição do Cristo é ter Fé na nossa ressurreição.

Assim como o Cristo venceu o pecado e a morte, imitando os passos do Nosso Salvador, poderemos também vencer o pecado e a morte.

Amém!

 

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.