6 de Julho. Passagem para a Vida Espiritual do Mestre Raimundo Irineu Serra

Túmulo do Mestre Raimundo Irineu Serra (15.12.1892 – 06.07.1971)

Túmulo do Mestre Raimundo Irineu Serra (15.12.1892 – 06.07.1971)

Testemunhas afirmam que foi às nove horas da manhã de 6 de julho de 1971 que o Mestre Irineu Serra fez a sua passagem para o mundo espiritual.  Assim, o hino ‘Rogativo dos mortos’ — recebido por ele ainda nos anos 1930 — pode ser visto como um prenúncio sobre o dia e hora do abandono consciente do seu corpo aqui no mundo Terra por Mestre Irineu, para em espírito ir governar o seu Império lá do Mundo Astral.

São doze horas da noite,

Meu irmão se mudou.

O sono da eternidade,

Deus do céu quem te chamou.

 

Uma hora da madrugada,

Meu irmão se mudou.

O sono da eternidade,

Deus do céu quem te chamou.

 

Duas horas da madrugada,

Meu irmão se mudou.

O sono da eternidade,

Deus do céu quem te chamou.

 

São três horas da madrugada,

Meu irmão se mudou.

O sono da eternidade,

Deus do céu quem te chamou.

 

Quatro horas da madrugada,

Meu irmão se mudou.

O sono da eternidade,

Deus do céu quem te chamou.

 

Cinco horas da manhã,

Meu irmão se mudou.

O sono da eternidade,

Deus do céu quem te chamou.

 

São seis horas da manhã,

Meu irmão se mudou.

O sono da eternidade,

Deus do céu quem te chamou.

 

São sete horas do dia

Meu irmão se mudou.

O sono da eternidade,

Deus do céu quem te chamou.

 

São oito horas do dia

Meu irmão se mudou.

O sono da eternidade,

Deus do céu quem te chamou.

 

São nove horas do dia

Meu irmão se mudou.

O sono da eternidade,

Deus do céu quem te chamou.

 

Tantos anos que viveste

No mundo da ilusão.

Eu rogo a Deus do céu

Que te dê o santo perdão.

 

A Divina Estrela vem

Para ir te alumiar.

Eu rogo a Deus do céu

Que te bote em bom lugar.

 

A Virgem Senhora vem

Para ir te acompanhar.

Eu rogo à Virgem Mãe

Que te bote em bom lugar.

Este 14º hino d’O Hinário ‘O Cruzeiro Universal’ do Mestre Raimundo Irineu Serra Juramidã faz parte da Santa Missa daimista, e é um rogo, uma súplica ao Pai que está no Céu para que, ao chamar o seu filho para o outro lado da vida, o ilumine com a Divina Estrela e o leve para um bom destino no mundo espiritual. Roga-se também a Virgem Senhora Mãe que o acompanhe nesta viagem — e “te bote em bom lugar”.

O rogativo começa para o irmão que se mudou as “doze horas da noite” e vai num crescendo até chegar as “nove horas do dia”.

Por que para aí nesse horário?

Testemunhas afirmam que foi às nove horas da manhã de 6 de julho de 1971 que o Mestre Irineu Serra fez a sua passagem para o mundo espiritual.  Assim, este hino — recebido ainda nos anos 1930 — pode ser visto como um prenúncio sobre o dia e hora do abandono consciente do seu corpo aqui no mundo Terra por Mestre Irineu, para em espírito ir governar o seu Império lá do Mundo Astral.

Nos últimos dias do mês de junho de 1971 ele já dava sinais do seu passamento. Depoimento de dona Percília Matos da Silva:

— Ele foi se abatendo, se abatendo… Já não mais comia carne. Disse que o organismo dele não mais aceitava essas coisas. E a gente vendo ele se abater. Perto do dia 30 de junho de 1971 perguntei para ele:

— O senhor não gostaria de uma Concentração para melhorar sua saúde?

— É bom! Então vamos fazer. Chame o pessoal mais próximo.

No dia 30 de junho de 1971 a irmandade se reuniu para mais uma Concentração. No final da função, Mestre Irineu perguntou:

— Quem foi que viu o meu enterro?

Os presentes disseram que não tinham visto nada, e ele disse que havia recebido um remédio e que ficaria bem.

— E que remédio é este, Mestre?

— É um remédio que tem em todo lugar… Eu cheguei a um salão onde havia uma mesa arrumada, toda composta com as cadeiras em seu lugar, só havia uma cadeira vazia, a da cabeceira.

Foi então quando a Virgem Mãe Soberana chegou ao seu lado e disse:

— De hoje em diante você é o Chefe Geral dessa Missão. O General. Tu és o chefe no Céu, na Terra e no Mar, para todos os efeitos. Todo aquele que de ti se recorde e te chame de coração, e confie, receberá a luz.

Foi assim que, depois de 50 anos de trabalho, ele recebeu o seu comando espiritual.

Na véspera do seu passamento, 5 de julho de 1971, Percília Matos da Silva — que ele criou como uma filha — foi visitá-lo, como de costume.

— Todo dia quando eu saia daqui, ia lá. E, se não fosse, ele reclamava. Nesse dia eu fui. Ele estava alegre, alegre. Parecia não estar sentindo coisa nenhuma. Conversava e contava história. Fiquei um tempo por lá e disse que ia voltar pra casa pra fazer o almoço. Ele disse:

— Você não vai não. Você ‘tá com fome?

E chamou a menina para botar o almoço na mesa.

— Você não vai agora não. Quero conversar com você.

Dona Percília:

— Ele estava na maior alegria, contando tudo! Eu pensei: Graças a Deus! Ele está bom! E disse para ele: Amanhã eu vou à rua, pois vou receber (o modesto salário de professora primária).

— Vá. Pode ir.

— Aí eu tomei a benção e ele fez uma recomendação como nunca tinha feito antes. Não entendi nada. Eu o vi tão alegre que não suspeitei de coisa alguma. Ele me recomendou que eu fosse muito feliz. Saí tranquila… e satisfeita.

Como de hábito, ao amanhecer de cada dia, muitos dos seus amigos e discípulos passavam na sua casa para pedir a benção ao Padrinho Irineu, perguntar por sua saúde e saber se ele precisava de algo.

Na manhã de 6 de julho de 1971 assim fez o sr. Leôncio Gomes da Silva, designado a poucos meses como presidente do Centro Livre instituído juridicamente por Mestre Raimundo Irineu Serra. Comerciante de gêneros de primeira necessidade, Leôncio Gomes rodava no seu automóvel, uma Rural Williams, entregando mercadoria aos seus inúmeros clientes. Era auxiliado pelo sr. Emílio Mendonça Furtado (Professor Emílio) e o cunhado do Padrinho Irineu, Raimundo Gomes do Nascimento (Raimundo Gonçalves).

Surpresos eles ouviram do Mestre Irineu, na despedida:

— Vocês precisam ir mesmo?

— Alguma coisa, Padrinho? — perguntou-lhe Leôncio.

— Não. Nada. Podem ir.

A um grande mestre é dado o poder de saber a hora da sua passagem desta vida para o mundo espiritual. Jesus Cristo tinha todo o conhecimento da sua trajetória aqui na Terra, e isso, mais que facilitar a sua Missão, aumentava o desafio rumo à vitória. Prevendo o sofrimento que o esperava com a vil crucificação, suou “grossas gotas de sangue” no Horto das Oliveiras.

— Pai, se quiseres, afasta de Mim este cálice, não se faça, contudo, a minha vontade, mas a tua. Então vindo do Céu, apareceu-Lhe um anjo que O confortava.

Outras passagens evangélicas testificam isso: “procuraram prendê-lo, mas ninguém lhe deitou as mãos, porque ainda não era chegada a sua hora”;  “Sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo ao Pai” Ele rogou:  “Pai, é chegada a hora. Glorifica teu Filho, para que teu Filho glorifique a ti”.

E numa ensolarada manhã do verão amazônico — 6 de Julho de 1971 — nas terras sagradas do Alto Santo (Rio Branco – Acre), Raimundo Irineu Serra fez a sua passagem para o mundo espiritual, enquanto esperava um chá de folha de laranjeira que a filha Marta preparava.

— Quando chegamos (Percília e Pedro, seu marido) em frente ao Palácio (Palácio Rio Branco, no centro da capital do Acre) encontramos a esposa do Seu Doca. Ela vinha amarela, com os cabelos assanhados. Foi logo dizendo: o Mestre, meu Deus! O Mestre morreu! Só acreditei quando cheguei. Ele ainda estava na cama. O suor derramando como se estivesse trabalhando muito.

Naquela data Leôncio, Emílio e Raimundo retornaram mais cedo da lida, ao saberem do passamento. Nesse mesmo dia Mestre Irineu pisou “na terra fria” e seu corpo baixou à sepultura.

Fala Percília:

— E a história do remédio que ele havia recebido e que ficaria bem é a terra onde se pisa. Ele não foi pra debaixo da terra? Ele não disse que tem em todo lugar? É a própria (Mãe) Terra…

Pisei na terra fria,

Nela eu senti calor.

Ela é quem me dá o pão,

A minha Mãe, que nos criou.

Havia ali um vaso cheio de vinagre. Imediatamente correu um deles (soldado) a tomar uma esponja, embebeu-a em vinagre e, fixando-a numa cana e levando-a à sua boca dava-lhe de beber… Então Jesus, depois de ter tomado o vinagre, disse:

— Está consumado!

Depois, tornando a dar um grande grito, Jesus entregou o Espírito, dizendo:

— Pai, em tuas mãos entrego o meu Espírito.

Dizendo isso, inclinou a cabeça, entregou o Espírito e expirou.

No último hino recebido por Mestre Irineu, ‘Pisei na Terra Fria’ encontramos similitude com o enunciado do Nosso Senhor Jesus Cristo:

A matéria eu entrego a ela

E meu espírito ao Divino.

Ela, a (Mãe) Terra.

Certa vez, lá no Planeta Acre, me foi narrada uma poética e bela versão para o episódio da esponja que ensopada foi dada de beber a Jesus, embebida não de vinagre, mas de… Daime.

Meu espírito, eu entrego a Deus,

E o meu corpo, à sepultura.

E na luz do Daime, Jesus desceu a mansão dos mortos, para de lá ressuscitar ao terceiro dia.

Desde então, sempre que leio, vejo ou esc

Túmulo do Mestre Raimundo Irineu Serra (15.12.1892 – 06.07.1971)

Túmulo do Mestre Raimundo Irineu Serra (15.12.1892 – 06.07.1971)

uto essa passagem da Paixão de Cristo, lembro dessa surpreendente versão. É consolador pensar no Nosso Senhor fazendo a sua última viagem, o voo espiritual antes da ressurreição, na força e na luz do Daime.

Amém Jesus, Maria e José.

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.