Santo Antônio: Melhor jogar os alimentos no lixo do que dar aos pobres | Por Reginaldo de Souza Silva

Artigo aborda aspectos da fome e da pobreza no mundo.

Artigo aborda aspectos da fome e da pobreza no mundo.

O relatório sobre a Insegurança Alimentar no Mundo 2012, apontava que 13 milhões de brasileiros ou passavam fome ou sofriam de desnutrição. A realidade presente nega o país do futuro, ostentando a fartura, a fome e o desperdício de 30% de toda produção agrícola. Segundo a FAO, 2013, um terço dos alimentos produzidos no mundo é desperdiçado a cada ano (incluindo toda a energia, mão de obra, água e produtos químicos envolvidos em sua produção e descarte). No Brasil, 26,3 milhões de toneladas de alimentos têm o lixo como destino, 45% são hortifrutos.

Da água disponível no mundo 70% é para agricultura; 1,3 bilhão de toneladas de alimentos são jogadas fora por ano no mundo, o equivalente a 750 bilhões de dólares. No Brasil o desperdício de alimentos está presente em toda a cadeia, sendo: 10%  campo; 50% manuseio e transporte; 30% comercialização e abastecimento; 10% varejo (supermercados) e consumidor final (Embrapa). Tudo isto impacta no preço dos alimentos fazendo com que a comida fique muito mais cara.

No País dos Desperdícios, (Abrantes, 2005), chega a 150% do PIB. Número que diz respeito não apenas ao que se perde de alimentos, água e energia elétrica, mas também a fatores como o desemprego, analfabetismo, doenças e não aproveitamento do lixo. Ao redor do mundo, os países europeus estão entre 20% e 25%, o Japão, menor que 20% e, EUA 35%.

Em pleno dia de Santo Antônio, deparei-me com um fato inusitado para um país que tem 3,4 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar, (1,7%) da população. Na cidade de Vitoria da Conquista, Ba, comida vira lixo! Com a falta de água nas cidades da região, milhares de pessoas estão perdendo suas roças, animais e as condições para produzir seus alimentos, dificultando a vida no campo e na cidade que, registra o aumento da população de rua, drogaditos, idosas, senhoras jovens e crianças catando sucata para sobreviverem no período noturno. Tudo isto não impede, não sensibiliza comerciantes que preferem jogar no lixo, produtos alimentícios em perfeitas condições de utilização ainda no prazo de vencimento final: hortifrutos, produtos lácteos etc.

Falei com dois proprietários de um supermercado, um negou, outra autorizou a doação, mas o gerente negou: vai tudo pro lixo! Muito do que é desperdiçado, principalmente no comércio varejista, não é necessariamente estragado. Frutas amassadas e restos das feiras ou de restaurantes não são necessariamente impróprios para consumo. Mas de acordo com o inciso IX, do art. 7º, da Lei 8.137/90 do Código de Defesa do Consumidor, “Constitui crime contra as relações de consumo: … IX – vender, ter em depósito para vender ou expor à venda ou, de qualquer forma, entregar matéria-prima ou mercadoria, em condições impróprias ao consumo”. Isso faz com que a possível doação de alimentos seja inibida.

Segundo o Frei Atílio Abat, a  pobreza, é uma chaga e uma realidade cruel escandalosa. É reflexo da miséria humana, que deforma e perverte os seres humanos e seus relacionamentos, gerando analfabetos, famintos, doentes e sofredores. Sintomas de um mundo doente, carente de fraternidade, debruçado sobre si próprio, traindo os princípios do Evangelho.

Iniciativas na união Europeia (Bélgica, França) estabeleceram leis que obrigam grandes redes de supermercados a doarem alimentos não vendidos a instituições-socioassistenciais, inclusive aqueles com mais de 400 m2 a assinarem contratos de doação de alimentos não vendidos, mas ainda consumíveis, para caridade ou para uso como ração animal ou compostagem agrícola.

Não basta ter nome de Santo, se proprietário e gerente são insensíveis a pobreza, escondidos em discursos legais, nas falcatruas governamentais, no menor dos prejuízos, preferem o lixo aos seres humanos.

*Dr. Reginaldo de Souza Silva é professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e atua no Departamento de Filosofia e Ciências Humanas.

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