Para onde sopram os ventos | Por Luiz Holanda

Protestos contra o governo Temer. Momento é de incerteza política.

Protestos contra o governo Temer. Momento é de incerteza política.

Os ventos nada mais são do que o ar em movimento. Os sentimos quando eles se deslocam de um lado para outro. Mesmo com as previsões meteorológicas, eles sempre nos enganam. Recentemente, na região sul, vieram em companhia de muitos raios. Por onde passaram trouxeram destruição e mortes. Alguém, metido a profeta, disse, recentemente, que monitora os ventos desde quando eles ameaçam aparecer. Suas palavras foram de quem sabe que o que diz: “Se eles aparecerem, estou preparado”.

Infelizmente, não podemos dizer o mesmo quando eles rumam em direção à política. Pode acontecer de tudo, inclusive tempestades. As gravações de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpreto, subsidiária da Petrobrás, mostraram que eles sopraram em direção à privatização da estatal pelo PT e pelo PMDB, até recentemente seus os sócios controladores.

Eles também sopram em direção aos integrantes da cúpula do governo de Michel Temer, agraciados com o pedido de prisão pelo Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot. O áudio revelou que eles comandaram o impeachment da presidente Dilma visando acabar com a Lava Jato. Romero Jucá e Eduardo Cunha lideraram o processo; os demais foram os seus fiadores. Todos são acusados de inúmeras falcatruas e de obstrução da justiça, embora nenhum deles seja, jamais, condenado. Os ventos da impunidade sopram em sua direção, que o diga o Supremo Tribunal Federal.

Temer, o interino, pranteou a morte do tenente coronel Jarbas Passarinho expressando seus sentimentos de pesar pela “perda desse grande brasileiro”, esquecendo que ele, em sua “grandeza”, entregou aos torturadores o destino de centenas de brasileiros, segundo a imprensa e a Comissão da Verdade. E que, por ocasião do famigerado Ato Institucional nº 5, que soprou sobre o Brasil como um vendaval destruidor, saudou-o dizendo ao presidente de plantão, marechal Costa e Silva, que mandasse “ás favas” os escrúpulos de consciência naquele momento.

Os pedidos de prisão da cúpula dos articuladores políticos do presidente interino veio com os ventos da justiça do Paraná, diferente das demais justiças do Brasil, principalmente de Brasília, sede do STF. Muito antes da divulgação das gravações, o ministro Teori Zavascki já tinha em mãos o pedido do procurador Geral. A divulgação do conteúdo sigiloso do áudio irritou tanto o ministro Gilmar Mendes que ele não se conteve: “Isso é algo grave”. Para ele, os crimes praticados por gente grande não podem vir a público; são segredos de justiça.  O povo não pode saber.

Antes, por ocasião da divulgação das gravações envolvendo o sindicalista Lula da Silva, o ministro, não só achou “correta” como “extremamente grave” o seu conteúdo. Mendes parece ter esquecido que grave mesmo foi a citação do seu nome e do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso numa lista divulgada pela imprensa como sendo da contabilidade do “valerioduto tucano”. Na época, o governador de Minas era Eduardo Azeredo (1988). A matéria, assinada pelo repórter Leandro Fortes, afirma que tanto Mendes como FHC receberam volumosas quantias do esquema supostamente ilegal do mensalão mineiro.

O alagoano Renan, também da cúpula do PMDB, foi obrigado a renunciar à presidência do Senado quando descobriram que ele tinha uma filha, fora do casamento, com a apresentadora de tevê, Mônica Veloso. Na ocasião ele bancava a moça com mesada paga por Cláudio Gontijo, diretor da Construtora Mendes Junior. Ao tentar se explicar, Renan enredou-se em documentos fajutos, rebanhos superfaturados, emissora de rádio em nome de laranjas e, ainda por cima, humilhado com a atitude da ex-amante que, num gesto despretensioso, mostrava para a imprensa uma borboleta tatuada na nádega.

Já Eduardo Cunha, a respeito de suas contas na Suíça, levadas pelos ventos da corrupção, disse que se tratava de um trust para administração de recursos, ou seja, o dinheiro não é dele; ele é apenas o “beneficiário”. Depois desse disparate, Cunha veio com a história de que o dinheiro poderia ter sido de um empréstimo feito a seu amigo, Fernando Diniz, que faleceu sem ter pago a dívida. Pode?

De Jucá, a revista Época denunciou que o senador, ex-ministro e amigo pessoal de Temer, entre 1994 e 2002, passou boa parte do seu patrimônio para nome de parentes e amigos. Até a sua esposa, Tereza Jucá, na época prefeita de Boa Vista, foi citada pela revista num contrato altamente suspeito entre a prefeitura e uma Cooperativa de Roraima.

Para complicar, a autora do pedido de impeachment de dona Dilma, a histriônica Janaína Paschoal, foi flagrada respondendo ao senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) dizendo que decretos assinados por Michel Temer poderiam ser motivo de seu impeachment. Por aí se vê que o presidente Interino cometeu as mesmas ilegalidades atribuídas à incompetente petista.

Por fim, os ventos sopraram para o lado de FHC, não para alçá-lo a grandes voos, mas para derrubá-lo do alto de sua empáfia. Uma comissão de juristas, diplomatas e intelectuais da Associação de Estudos Latino-Americanos (Lasa), que aconteceu entre os dias 26 a 31 de maio, ameaçou vaiá-lo se ele fosse à reunião. FHC, envergonhado e temeroso do escândalo, desistiu de participar.

Por aí se vê que os ventos marcham numa direção que ameaça tempestades no país, em todos os sentidos: econômico, social, político e institucional. E o pior é que não existe nenhum líder capaz de fazê-los mudar de rumo.

*Luiz Holanda é advogado e professor universitário.

Sobre o autor

Luiz Holanda
Luiz Holanda é advogado e professor universitário, possui especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (SP); Comércio Exterior pela Faculdades Metropolitanas Unidas de São Paulo; Direito Comercial pela Universidade Católica de São Paulo; Comunicações Verbais pelo Instituto Melantonio de São Paulo; é professor de Direito Constitucional, Ciências Políticas, Direitos Humanos e Ética na Faculdade de Direito da UCSAL na Bahia; e é Conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/BA. Atuou como advogado dos Banco Safra E Econômico, presidiu a Transur, foi diretor comercial da Limpurb, superintendente da LBA na Bahia, superintendente parlamentar da Assembleia Legislativa da Bahia, e diretor administrativo da Sudic Bahia.