O Daime. O Aleph. 30 anos de ausência de Jorge Luis Borges

O Aleph, de Jorge Luis Borges

O Aleph, de Jorge Luís Borges

Por Juarez Duarte Bomfim

Estados Alterados de Consciência, transe místico, experiências extáticas não são situações exclusivas aos ayahuasqueiros. Podem acontecer com qualquer individuo ou sistema religioso nas formas de experiências espirituais, estados místicos, práticas meditativas, rituais ancestrais ou simples relação com o mundo natural. Os daimistas consideram que o “êxtase” místico revelador, próximo ao estado de “iluminação” proporcionado por essa bebida feita de um cipó e folha, é um atalho para a comunhão com o divino, pois as demais práticas meditativas, contemplativas e religiosas requerem um longo processo de disciplina, exercício, aprendizagem e graça divina. Já a miração está ali, ao alcance de todos — ou quase todos.

Introdução

No 14 de junho registra-se o trigésimo aniversário de morte do poeta e escritor argentino Jorge Luis Borges, expoente da literatura fantástica. Seus contos mais parecem visões e experiências transcendentais. Ayahuasqueiros que leem essas narrativas fantásticas podem facilmente associá-las as visões e mirações experimentadas no Estado de Expansão de Consciência que o Daime/Ayahuasca proporciona. O então neófito ayahuasqueiro Alex Polari — e futuro líder daimista — escreveu o seu “O livro das mirações” em 1984 e, não tendo à época melhor referência, compara a sua experiência extática ao maravilhoso conto borgiano “O Aleph”.

É função da arte, no caso a arte literária, de nos comover com maneiras e modos de narrar superiores à pura necessidade orgânica da manifestação dos juízos e sentimentos. Literatura é linguagem carregada de significado até o máximo grau possível. Isso aproxima a literatura de Jorge Luiz Borges das experiências, visões e mirações dos ayahuasqueiros.

A miração

Uma das formas de desenvolvimento dos trabalhos espirituais em alguns sistemas mágico-religiosos brasileiros acontece por meio do transe místico, através da Alteração do Estado de Consciência, como nas diversas religiões espiritualistas brasileiras, a exemplo dos centros espíritas, da umbanda, candomblé de caboclo ou no culto do Santo Daime.

No caso do culto do Santo Daime, o transe místico é induzido pela ingestão de uma beberagem produzida a partir da combinação do cipó jagube-mariri (banisteriopsis caapi) e da folha rainha-chacrona (psychotria viridis) — que proporciona a miração.

Miração é um termo usado para designar o estado visionário que a bebida produz. É uma expressão típica de português fronteiriço com países de língua castelhana, uma vez que o verbo mirar está em desuso na língua portuguesa.

Alex Polari diz:

“O verbo ‘mirar’ corresponde a olhar, contemplar. Dele deriva-se o substantivo ‘mirante’, que é um local alto e isolado onde se pode descortinar uma vasta paisagem. A palavra ‘miração’ une contemplação mais ação (mira+ação), o que expressa de maneira clara que o termo foi cunhado por pessoas que eram plenamente conscientes da viagem do Eu no interior da experiência visionária, característica do êxtase xamânico. E que é simbolizado pela viagem da águia voando em direção ao sol” (1)

Entre os daimistas (ayahuasqueiros) se diz que depois de tomar a bebida, o indivíduo fica “pegado” ou “mira”. Nesse estado ele está sujeito não só a experiências visionárias e auditivas como também a revelações ou intuições de grande profundidade e emoções.

O efeito da beberagem Daime/Ayahuasca pode ser definido como uma alteração qualitativa no padrão comum de funcionamento mental em que o experimentador sente que sua consciência está radicalmente diferente de seu funcionamento “normal”.

O transe, ou Estado Alterado de Consciência pode surgir naturalmente, ser induzido mediante distintas práticas contemplativas ou com o uso de substâncias psicoativas. Exprime-se nas formas de experiências espirituais, estados místicos de consciência, práticas meditativas, estados xamânicos, rituais ancestrais e na relação com o mundo natural.

Para poder definir o conteúdo destas experiências extáticas, todas as grandes tradições têm elaborado seus termos específicos: o Zen fala do satori, o Taoísmo sobre hsù (“estado de vazio”), o Sufismo sobre faná (“extinção do ego”), o Budismo sobre nirvana, o hinduismo sobre o samadhi, o Catolicismo sobre o “reino dos céus” – e o culto do Santo Daime de “miração”.

Os daimistas consideram que o “êxtase” místico revelador, próximo ao estado de “iluminação” proporcionado por essa bebida feita de um cipó e folha, é um atalho para a comunhão com o divino, pois as demais práticas meditativas, contemplativas e religiosas requerem um longo processo de disciplina, exercício, aprendizagem e graça divina. Já a miração está ali, ao alcance de todos — ou quase todos.

“Aí eu vi. As pessoas bailando e agitando seus maracás eram a celebração da origem da vida. O ritual originário da celebração do início do homem sobre esse planeta. A Floresta resplandeceu em volta e o cipó era a compreensão de tudo, um ser que a tudo assistia desde o início. Eu entendia o Universo, a vida, a criação, o seu profundo sentido e mistério. Eu entendia o tempo em seu fluxo desordenado e em sua permanência. Tudo era e não era. Tudo que seria, continuava sendo. Eu era o universo desde os tempos mais imemoriais e o meu próprio corpo, era ele um universo a recriar, a cada segundo, milhões de ciclos de vida.

“Aquela dança, onde a energia era constantemente domesticada e apurada, abria um alçapão no tempo. As visões tinham formas de lembrança. De algo que eu já vira. Em algum momento eu já fora parte desse peso da floresta, eu trazia em mim milhões de anos da evolução humana que agora desfilavam ante meus próprios olhos como fotogramas vivos.

“A vida se explicou para mim desde suas origens. Era uma dádiva e um desígnio de forças nunca por mim suspeitadas. Existia um poder que pairava sobre todos. Não era imaginação, projeção, arquétipos, atavismos, era uma entidade colossal, personificada ali, naquele cipó, naquela bebida” (2).

Quem passa por uma experiência desta, que podemos denominar de “revelação mística” muitas vezes a compara a um “renascimento”, ou que lhe foi dado o direito de mirar através das “portas da percepção” (3).

Vivencia-se uma emoção profunda e muito forte, semelhante ao êxtase; uma profunda sensação de paz ou tranquilidade; a sensação de estar em harmonia ou em comunhão com o universo; uma sensação de profundo conhecimento ou profundo entendimento; a sensação de que é uma experiência muito especial que seria difícil ou impossível descrevê-la adequadamente com palavras.

Apesar de ser uma sensação “indescritível”, a sensibilidade literária pode propiciar essa oportunidade. Alex Polari, atual líder daimista, quando ainda neófito nas “viagens” do Daime, compara essa “experiência única” a uma passagem presente na literatura de Jorge Luis Borges, o Aleph: um dos pontos do espaço que contem todos os pontos. “O lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do mundo, vistos de todos os ângulos” (4).

“Qualquer coisa que eu pensasse e todas as coisas, eu via, simultaneamente, ligado a esse cipó (à semelhança do Aleph, aquele conto de Borges, onde o personagem percebe tudo o que está se passando no mundo)” (5).

Escreve Borges: “… se todos os lugares da terra estão no Aleph, ali estarão todas as luminárias, todas as lâmpadas, todas as fontes de luz” (6).

Continua o bardo argentino:

“Senti um vago mal-estar, que tratei de atribuir à rigidez, e não ao efeito de um narcótico. Fechei os olhos, abri-os. Então, vi o Aleph.

“Toda linguagem é um alfabeto de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartem; como transmitir aos outros o infinito Aleph, que minha tímida memória mal e mal abarca? Os místicos, em transe semelhante, gastam os símbolos: para significar a divindade, um persa fala de um pássaro que, de algum modo, é todos os pássaros; Alanus de Insulis fala de uma esfera cujo centro está em todas as partes e a circunferência em nenhuma; Ezequiel fala de um anjo de quatro asas que, ao mesmo tempo, se dirige ao Oriente e ao Ocidente, ao Norte e ao Sul.

“Nesse instante gigantesco, vi milhões de atos agradáveis ou atrozes; nenhum me assombrou mais que o fato de todos ocuparem o mesmo ponto, sem superposição e sem transparência.

“O diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros, mas o espaço cósmico ali estava, sem diminuição de tamanho. Cada coisa (o cristal do espelho, digamos) era infinitas coisas, porque eu a via claramente de todos os pontos do universo. Vi o populoso mar, vi a aurora e a tarde, vi as multidões da América, vi uma prateada teia de aranha no centro de uma negra pirâmide, vi um roto labirinto (era Londres), vi intermináveis olhos próximos perscrutando em mim como num espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me refletiu, vi num pátio da Rua Soler os mesmos ladrilhos que, há trinta anos, vi no saguão duma casa de Frey Bentos, vi cachos de uva, neve, tabaco, listras de metal, vapor de água, vi convexos desertos equatoriais e cada um de seus grãos de areia, vi em Inverness uma mulher que não esquecerei, vi um câncer no peito, vi um círculo de terra seca numa vereda onde antes existira uma árvore, vi numa quinta de Adrogué um exemplar da primeira versão inglesa de Plínio, a de Philemon Holland, vi, ao mesmo tempo, cada letra de cada página , vi a circulação de meu escuro sangue, vi a engrenagem do amor e a modificação da morte” (7).

Vamos encontrar semelhanças na narrativa borgiana com alguns depoimentos de indivíduos que beberam Ayahuasca e transmitiram as suas visões e percepções.

Ritualisticamente, a conjunção da ingestão dessa bebida e a participação em cerimônias propiciam a ocorrência das mirações. “O momento quando diferentes entidades (corpo físico, pensamentos, sentimentos, cultura, emoções, mente, alma, espaço espiritual etc.) se conectam na consciência” (8).

As mirações mediam e tornam conscientes, formando um todo coerente e trabalhável, elementos como o ritual, o Daime/Ayahuasca, os processo de autotransformação/conhecimento/exploração, elementos da consciência individual e condições fisiológicas, e fatores espirituais.

Conclusão

Estados Alterados de Consciência, transe místico, experiências extáticas não são situações exclusivas aos ayahuasqueiros. Podem acontecer com qualquer individuo ou sistema religioso nas formas de experiências espirituais, estados místicos, práticas meditativas, rituais ancestrais ou simples relação com o mundo natural.

A literatura — ou arte literária — exige, para nos comover e interessar, maneiras e modos de narrar superiores à pura necessidade orgânica da manifestação dos nossos juízos e sentimentos. O poeta norte-americano Ezra Pound diz que: “Grande Literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível” (9). Assim é, para a nossa felicidade, a literatura de Jorge Luiz Borges.

E a bebida Ayahuasca/Daime, que já foi chamada de “cinema de índio”, “Deus engarrafado”, “Deus alcalóide”… é mais uma das dádivas — e para nós ayahuasqueiros, a maior — que a biodiversidade da floresta amazônica proporcionou ao mundo Terra.

________________________________________

(1) POLARI DE ALVERGA, Alex. Eram os deuses alcalóides? Disponível em http://www.santodaime.org/arquivos/alex3.htm Acesso em 8 jun 2008.

(2) POLARI DE ALVERGA, Alex. O livro das mirações. Uma viagem ao Santo Daime. 2 ed. Rio de Janeiro: Record/Nova Era, 1995, p.54.

(3) HUXLEY, Aldous. As portas da Percepção. São Paulo: Globo, 2001.

(4) BORGES, Jorge Luiz. O Aleph. Rio de Janeiro: Globo,2001, p. 130

(5) POLARI, 1995, p.105.

(6) BORGES, 2001, p. 130.

(7) BORGES, 2001, p.130-134.

(8) MERCANTE, Marcelo Simão. Images of healing: spontaneous mental imagery and healing process of the Barquinha, a Brazilian ayahuasca religious system. Tese de Doutorado em Ciências Humanas. Saybrook Graduate School and Research Center, 2005. Disponível em http://alto-das-estrelas.blogspot.com/2006/11/site-do-neip-publica-tese-de-doutorado.html Acesso em 08 jun 2008.

(9) O que é literatura? Disponível em http://www.geocities.com/alcalina.geo/39litera/oquee.htm Acesso em 08 jun 2008.

Trecho de O Aleph, em pdf:

http://epoca.globo.com/edic/657/657_trecho_O_Aleph.pdf

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.