Nada muda para melhor se o povo não tiver consciência política. Entrevista com Tio Louro (PMN), de Candeal

Tio Louro 2Nada muda para melhor se o povo não tiver consciência política, saber escolher os políticos comprometidos com a sociedade, com o interesse público (Tio Louro).

Tio Louro (Domingos Borges Pereira

Tio Louro (Domingos Borges Pereira

Pergunta: Sr. Domingos, vamos chamá-lo de Tio Louro, como é conhecido politicamente. Para iniciar queremos que fale sobre você. Quem é Tio Louro?

Tio Louro: Meu nome de batismo é Domingos Borges Pereira, sou nascido no município de Candeal, tenho 63 anos, sou viúvo. Filho de pais pobres da zona rural. A minha escolaridade é o ensino médio completo. E profissionalmente fiz um curso integral de corretor. Logo depois me tornei um pequeno empresário do ramo de corretagem de imóveis, seguros, títulos e valores em São Paulo.

Nos anos 1970 tive que sair de minha terra natal, Candeal, para ganhar a vida, como se diz. Não havia àquela época oportunidades de emprego a não ser na Prefeitura através de pistolão, porque ainda não havia como hoje a obrigatoriedade de concurso público. Ou seja, mesmo que você tivesse estudo, dependia de político local para trabalhar. E no campo era impossível ter um futuro melhor.

Foi esse o real motivo que me fez sair de Candeal para tentar a vida na cidade grande, como muitos naquele tempo. Mas graças a Deus e aos meus esforços tudo deu certo e hoje estamos aqui vivo, com saúde e certa condição de vida. Agora que estou um pouco melhor de vida, estou aos pouco retornando para viver na minha terra amada.

O senhor já foi candidato a deputado estadual e a prefeito por duas vezes, obtendo um número pequeno de votos. Como avalia essa experiência política eleitoral?

É verdade. Fui candidato a cargo eletivo por quatro vezes. Em duas para  deputado estadual (2006 e 2010) e também me lancei candidato a prefeito em 2008 e 2012. Sou uma pessoa muito querida na minha cidade e uns amigos cobravam por que eu não era candidato.

Mas a decisão de participar da vida política eleitoral nasceu de uma reflexão no ano de 2006. Morando em São Paulo muitos anos – mais de 40 anos, todas as vezes que retornava a Candeal observava a grande insatisfação popular com os vários governos.

A sensação, passado tantos anos é que nada havia mudado. A pobreza do povo, a precariedade dos serviços públicos de saúde e educação, mas também a falta de investimento em infraestrutura etc. Isso tudo passou a me preocupar, incomodar.

Como fazer alguma coisa? O que fazer? Descobri então que a mudança social se faz pela política. A política é responsável pelo desenvolvimento ou não de um povo, de uma comunidade. Tem dois jeitos de fazer a mudança, de construir a melhoria social.

Primeiro de tudo na minha visão: nada muda para melhor se o povo não tiver consciência política, saber escolher os políticos comprometidos com a sociedade, com o interesse público, com as reais demandas do povo. Tudo bem que os políticos não tem escrito na testa se presta ou não, mas uma vez no poder é preciso observar o que ele faz ou não pelo povo, pelos trabalhadores, pela juventude, pela mulher, pelo idoso, agricultor familiar…

A segunda coisa: deixar de acreditar apenas no rico, porque ele tem dinheiro. Não trocar o voto, que é um instrumento de mudança por coisas, por promessas. Essa troca tem um custo social muito alto. Não é à toa que as contas públicas em Candeal são sempre rejeitadas pelo Tribunal de Contas dos Municípios – o TCM. O resultado político disso é que as principais lideranças que ocuparam cargo de prefeito estão inelegíveis, porque enquadrados pelo Ministério Público Eleitoral como ficha suja. Mas eles continuam no poder, porque lançam filhos, parentes ou amigos que fazem parte do grupo e que também são beneficiados. Mudam de vida da noite para o dia. E quem realmente trabalha e produz não sai do lugar.

O povo de Candeal precisa aprender com a História, com outras experiências. Quando o povo brasileiro aprendeu e confiou num trabalhador politicamente preparado, teve a coragem de eleger o maior presidente da história do país, Lula. Ele mudou o Brasil e isso é visível em todos os quatro cantos. A mesma coisa aconteceu nos Estados.

Na Bahia, por exemplo, depois que saiu o carlismo, veja como tudo mudou e o povo, o trabalhador teve vez. Outro exemplo: nos municípios, que o povo também compreendeu e teve a coragem de apostar no novo, a coisa mudou para melhor. Foi o que ocorreu com os municípios de Pintada, Serrinha, Conceição do Coité, Valente, Tucano, Quijingue, Teofilândia, Itiúba, Quixabeira, Capela do Alto Alegre… Isso para falar apenas da região.

Então agora dá para entender como fui parar na política. Para contribuir com a consciência política popular. Mostrar que há alternativas de mudança, basta o povo acreditar e ter coragem de votar pela renovação. Votou e não correspondeu, adeus. Nunca mais vota.

Qual é a sua avaliação da realidade social do município? Houve alguma mudança recente, qual?

Posso fazer duas afirmações. A primeira é que a situação do povo, dos trabalhadores melhorou muito, mas isso foi graças às políticas públicas dos governos Lula e Dilma. É o impacto das políticas do governo federal no município. Já a segunda melhoria, o investimento em obras de infraestrutura da cidade também foi graças às políticas do governo federal e do governo estadual com Jaques Wagner.

Ou seja, se dependesse de políticas públicas e de investimento do governo municipal, o povo e a cidade estavam muito mal, muito ruim. E essa é a minha preocupação agora. Com o golpe de Estado que derrubou o governo Dilma, tudo indica que a situação social e econômica para o povo vai piorar muito.

Os analistas mais sérios, comprometidos com o Brasil falam num cenário de terra arrasada. Dizem ainda que a pobreza no país vai ser pior. Aliás, ontem mesmo o atual ministro da Fazenda falou que a situação da economia vai ser pior que a depressão dos anos 30 do século passado. Porque lá atrás o PIB foi negativo em – 5% e agora dizem que será de – 8,5%. O bicho vai pegar.

Tudo faz crer que teremos o aumento da miséria. Isso quer dizer que o poder público municipal, a Prefeitura, terá que ter um papel fundamental. Mas isso vai depender de quem for o prefeito eleito. Ele vai ter compromisso com os reais problemas do povo?

Sabendo desde agora que poder ser a continuidade dos mesmos, o povo vai se iludir, se enganar novamente? Essa é a questão, infelizmente.

Como você está vendo o cenário político eleitoral de 2016 em Candeal? Será candidato? Quais seriam as suas diretrizes políticas de governo?

A política na cidade está aparentemente muito quieta. Mas já se sabe que possivelmente haverá duas candidaturas dos grupos tradicionais. Uma ligada ao ex-prefeito Ribeiro Tavares do PMDB. A outra do também ex-prefeito Tadeu do PSDB.

O atual prefeito Fernando Nere (Donhuinha), eleito pelo Grupo Harmonia, liderado por Ribeiro Tavares, não será o candidato natural à reeleição, certamente por dois motivos: 1. o grupo não quer; 2. a rejeição popular é muito grande. Nenhuma raposa política lança nome sem viabilidade política.

O que se sabe é que Tavares lançará o filho Có do PTB. Já Tadeu está inelegível e não pode ser candidato. A questão é quem será o nome do grupo: a esposa Orlandina ou o filho Tadeuzinho? Mas ainda tem Everton Cerqueira (DEM) que foi o nome apoiado por Tadeu no pleito de 2012, embora já exista a sua possível substituição, o atual presidente da Câmara de Vereadores, o vereador José Almir do DEM (ex-PP).

A outra discussão seria uma terceira via ainda em debate com as lideranças políticas de base que tem se mostrado favorável a duas posições. Aliança com outra força tradicional, mediante o compromisso com programa de governo. Possível aliança para candidatura própria.

Sobre ser candidato ou não, as conversas e a articulação política estão andando. Essa decisão hoje acontece em diálogo com grupo de apoio. É diferente de antes quando fui candidato a prefeito e a deputado. Agora faço parte de um coletivo político que tem projeto político para a cidade, para o povo. Essa a diferença importante em relações ao processo político passado.

Os proprietários, representantes das oligarquias local estão organizados e articulados faz muito tempo, desde os seus antepassados. O povo, os trabalhadores demoraram para entender isso. Mas agora os trabalhadores estão se organizando e se articulando como força política. Acreditamos ser uma oportunidade concreta de mudança.

As possíveis diretrizes políticas de governos estão sendo discutidas, construídas aos poucos, em diálogo dentro do grupo, mas também ouvindo as pessoas, os trabalhadores, as lideranças de base…O diagnóstico político, no entanto, é geral. Nenhum governo até os dias de hoje em Candeal foi capaz de formular políticas públicas municipais de educação, de saúde, de agricultura, de cultura, de desenvolvimento local sustentável etc.

Para terminar, você gostaria de acrescentar mais alguma coisa? O quê?

Em primeiro lugar quero agradecer muito pelo espaço, pela oportunidade que me foi dada de apresentar as minhas ideias, falar um pouco do pensamento político de um grupo novo que está se fortalecendo aos poucos.

Também aproveitar para dizer que aprendi muito com o tempo, com a experiência política dos últimos 16 anos. Mas também pude me preparar mais, buscar mais conhecimento, informação, assessoria técnica. E isso faz toda a diferença. Ganha eu, mas também poderá ganhar o povo de Candeal, porque disporá de um possível representante mais preparado, mais amadurecido, embora me considere bastante jovem de alma.

Para concluir, criei recentemente a Tribuna de Louro para me comunicar diretamente com o povo. É uma experiência extraordinário as redes sociais. Hoje me comunico diariamente com as pessoas, discutindo política, falando dos problemas da cidade, divulgando informações do interesse do povo.

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.