Editorial: apesar das evidências de práticas criminais atingirem alguns dos expoentes líderes do PMDB, eles permanecem intocáveis; estamos diante de uma justiça seletiva?

Populares protestam em frente ao Supremo Tribunal Federal contra a seletividade do Poder Judiciário nas ações que julgam políticos e partidos.

Populares protestam em frente ao Supremo Tribunal Federal contra a seletividade do Poder Judiciário nas ações que julgam políticos e partidos.

Enquanto a elite política do Partido dos Trabalhadores (PT) sente o peso da Lei recair sobre os membros dos praticantes de atos corruptos. A justiça posterga decisões contra os expoentes líderes do PMDB, cujos nomes pululam em tenebrosas transações.

A disparidade da ação do Poder Judiciário sobre diferentes membros dos partidos envolvidos no caso Lava Jato e nos subsequentes casos de corrupção, conduz ao seguinte questionamento: estamos diante de uma justiça seletiva? Esse questionamento é o fio condutor deste editorial.

Movendo as peças

As forças conservadoras que retiraram a presidente Dilma Rousseff do poder se movem como expoentes de um jogo de xadrez, onde cada peça do tabuleiro desempenha um papel, cuja vitória conduz ao domínio da República. República traduzida no poder de direcionar uma das maiores economias do planeta.

O julgamento da presidente Rousseff pelo Senado da República é mais um movimento do jogo pelo poder. Ele não passa de mera formalidade. Evidente está que não existem elementos jurídicos capazes de condená-la. Mas, o elemento político, formado por um Senado de maioria conservadora, está apto a repetir o papel dos tribunais de exceção, condenando sem provas, apenas baseado em frágeis teses jurídicas, oriundas de pareceres comprados e pagos pelo partido de oposição, PSDB.

Para Rousseff, o retorno ao poder é bastante improvável, e para que ocorra é necessário que o imponderável da política acontecesse.

Nesse momento, os elementos da política e da economia parecem transmitir certo caos, certa desordem. Mas, evidente está, que eles operam de maneira a construir uma realidade que lhes seja adequada, para impor a doutrina do capitalismo dependente. Negando um projeto de desenvolvimento autônomo de nação, que reduza drasticamente a desigualdade social.

Não um jogador, mais uma peça do xadrez do poder, o ministro Gilmar Mendes, atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), moveu-se de forma magistral, postergando o julgamento das contas da campanha da chapa Rousseff/Temer para 2017. Nesse meio tempo, evidências matérias de uso de recursos ilícitos para financiamento da campanha presidencial estão sendo acumuladas pelo Tribunal.

O pedido para separação das contas de Temer e Rousseff foi negado, e o desfecho torna-se óbvio. Em 2017, nos primeiros meses, o TSE deve julgar ilegal a prestação de contas da campanha presidencial e cassar a chapa Rousseff/Temer.

Ato seguinte, eleição indireta para presidente. Oportunidade em que o derrotado candidato a presidente, atual ministro e senador licenciado José Serra (PSDB/SP) pode alcançar o desejado papel de presidente da República.

Quanto ao presidente interino Michel Temer, um acordo deve lhe garantir a salvação nacional. Salvação que será negada aos companheiros “de copo e de cruz”, os partidários do PMDB, envolvidos nas tenebrosas transações do Caso Lava Jato e congêneres.

No PSDB, a briga pela liderança do partido, protagonizada por Aécio Neves, Geraldo Alckmin e o próprio José Serra, será acomodada, com a finalidade de ungir o candidato escolhido pela Federação das Indústrias de São Paulo (FIESP), ao cargo eletivo direto de presidente da República, em 2018. Para esse papel, foi escolhido pelos barões do café, das finanças e da indústria o derrotado ao cargo de presidente da República, atual governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

Justiça seletiva

A partir da análise proposta, está evidente que a seletividade da justiça tem o propósito de agir em tempo determinado, cujo objetivo final é atender, na pura essência, os interesses do conservadorismo nacional. A ideia de uma justiça neutra, porque a imparcialidade é apenas mito, é cada vez mais distante e menos verdadeira.

Supressão do progressismo

O que os elementos indiciários revelam, o que demonstram os atores políticos, é uma intencionalidade permanente de suprimir qualquer forma de autonomia que possibilite que lideranças e partidos alinhadas com o pensamento progressista alcancem o poder da República no período das próximas duas décadas.

O nome mais respaldado junto à população, do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, é desconstruído por inúmeros tipos de ataques. Os ataques são retroalimentados pela corrosão moral e ética que atinge o PT.

Marina Silva, do Rede — o partido que ela diz que não é partido — foi atingida por notícias na mídia que expressam que o mesmo esquema de financiamento de campanha revelado pelo Caso Lava Jato, irrigou com recursos financeiros de origem ilícita a campanha presidencial Campos/Marina.

O ataque jurídico e midiático aos políticos progressistas não tem fim, e é reaceso sempre que pesquisas não divulgadas indicam intencionalidades eleitorais. O propósito é aniquilar potenciais concorrentes à República, permitindo que apenas legítimos conservadores ascendam ao poder.

Revelações dos delatores

Das inúmeras revelações dos criminosos confessos, os delatores do Caso Lava Jato e congêneres, destacam-se as seguintes:

— O que foi revelado é que um sistema ilícito e irregular de financiamento político/partidário funcionou por décadas;

— Diferentes níveis de corrupção, com diferentes percentuais de propina são cobrados em esquemas que envolvem os Poderes Executivo e Legislativo, nas esferas Nacional, Estadual e Municipal;

— O esquema de corrupção envolvendo contratos públicos transfere ilicitamente riqueza da sociedade, não apenas para o financiamento político, mas, também, para o enriquecimento pessoal;

— Diferentes níveis de propina ocorrem em diferentes níveis de poder — federal, estadual e municipal — seja no executivo ou no legislativo, esquemas de corrupção repassam percentuais a organizações políticos/partidários; e

— Um quadro sistêmico de corrupção foi evidenciado com as investigações.

Prosa e poesia

O poeta e escritor Chico Buarque, na elegante letra da música ‘Vai Passar’, descreve com maestria, em várias passagens, o momento que atravessa a República.

A seguir, com pequenas adaptações, um trecho da poesia:

— Num tempo. Página infeliz da nossa história.

— Seus filhos. Erravam cegos pelo continente. Levavam pedras feito penitente.

— Das nossas novas gerações. Dormia. A nossa pátria mãe tão distraída. Sem perceber que era subtraída. Em tenebrosas transações.

A nação é o povo, que alienado, no sentido marxista do termo, não percebe que apenas age como os detentores do poder querem que ajam. A sociedade aparenta pseudo despertar, mas, de fato, permanece em sono profundo, vivendo na ilusão de ideias difundidas pela mídia de massa ligada ao Golpe Civil/Militar de 1964.

Reflexão

Não é passado que envergonha, porque, com ele sempre é possível aprender. É o futuro negado que preocupa. Porque condena a nação a ser o que sempre tem sido, uma promessa de paraíso perdido, um lugar onde a felicidade é apenas um desejo que jamais pode ser conquistado.

*Carlos Augusto é cientista social e jornalista.

Sobre o autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto Oliveira da Silva (Carlos Augusto) é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF). Atua como jornalista e cientista social. Telefone: (75)98242-8000 | E-mail: diretor@jornalgrandebahia.com.br.