Chico Xavier bebeu Ayahuasca. Chico, Emmanuel e a experiência extática

Chico Xavier e Emmanuel no cinema

Chico Xavier e Emmanuel no cinema

Emmanuel se aproximou de Chico Xavier, colocou uma bebida num copo e explicou: era um alcaloide. O efeito foi surpreendente: alegria profunda. Teve sonhos maravilhosos, visitou uma cidade de cristal, olhou para o céu como se fosse de vidro. Até a Fazenda Modelo (seu ambiente de trabalho) ficou deslumbrante. Os livros pareciam encadernados por safiras e ametistas, luzes saíam do corpo dos companheiros, das plantas e dos animais. Chico sentiu vontade de abraçar todo mundo. Ficou assim, em êxtase, quatro dias seguidos, em estado de alegria descontrolada, insuportável.

Francisco Cândido Xavier (Chico Xavier) médium brasileiro, considerado o maior psicógrafo de todos os tempos (412 livros, 27 milhões de exemplares), nasceu em Pedro Leopoldo-MG, em 2 de Abril de 1910 e passou para a vida espiritual a 30 de junho de 2002, em Uberaba-MG, dia que o Brasil, feliz, comemorava o pentacampeonato de futebol. Foi embora assim num dia de alegria para o povo brasileiro, como ele desejara — e o seu mentor espiritual, Emmanuel, havia profetizado.

Esse anjo do Senhor viveu para a caridade e o amor ao próximo. A sua importância para o aprofundamento e difusão da Doutrina Espírita é indescritível. As 16 obras da Coleção André Luiz que inicia com o best seller Nosso Lar, mais os romances históricos do Espírito Emmanuel (Há dois mil anos, Paulo e Estevão etc…) colocam o nosso querido Chico no mesmo patamar de grandeza de Allan Kardec — o Codificador do Espiritismo.

Em 1994 o jornalista Marcel Souto Maior escreveu uma adorável biografia de Chico, revista e ampliada em 2003: “As vidas de Chico Xavier”, onde, ao lado de importantes dados biográficos do médium mineiro, narra divertidos e interessantes causos da sua vida — ou vidas.

A humildade foi um traço característico da personalidade de Chico Xavier: quando era aclamado como porta-voz de Deus, ele reagia se identificando como “uma besta encarregada de transportar documentos dos espíritos”… ou, suavizando, dizia de si mesmo: “sou uma tomada entre dois mundos”.

Quando caravanas de fiéis e curiosos vindos de todo o Brasil o visitavam e chegaram a levantar dois milhões de assinaturas para indicá-lo ao Prêmio Nobel da Paz, Chico falava e repetia:

Sou um nada. Menos do que um nada.

Se defendendo assim do excesso de assédio e para evitar a perigosa armadilha da vaidade. Aliás, vaidade que só cultivou em um período da sua vida, e vaidade estética: o uso de uma démodé peruca, abandonada na velhice.

Em relação a uma mania existente no universo espírita de muitos indivíduos em encarnações passadas acreditarem terem vindo na pele de um nobre — um príncipe ou princesa — ou… o que é de pasmar… de um santo católico ou profeta bíblico… há um bem humorado causo narrado por Souto Maior: certa vez, uma senhora chegou perto dele feliz da vida. Tinha feito uma descoberta.

Fui mártir. Morri na arena devorada por um leão. E você Chico?

Ah, eu fui a pulga do leão!

Às vezes, cansado daqueles tantos heróis a sua volta, como um ex-Napoleão, um ex-rei, um ex-apóstolo… pois ninguém abria a boca pra dizer: fui um perdedor… Chico não resistia a uma ironia:

Eu, aqui, no meio dessas cabeças coroadas, com a cabeça decepada.

Jesus perguntou certa vez aos seus discípulos:

 Que estavam vós discutindo pelo caminho?

Mas eles calaram-se; porque pelo caminho tinham disputado entre si qual era o maior. E Ele, assentando-se, chamou os doze, e disse-lhes:

Se alguém quiser ser o primeiro, será o derradeiro de todos e o servo de todos.

Assim foi Chico Xavier. A vida desse missionário está diretamente entrelaçada, no invisível, com a do seu mentor espiritual, o Espírito Emmanuel, que lhe apareceu pela primeira vez em 1931, e perguntou:

Estás mesmo disposto a trabalhar na mediunidade?

Para a resposta afirmativa de Chico, Emmanuel replicou que para tal era preciso trabalho, estudo e esforço na prática do bem. E os três pontos básicos para o serviço eram: disciplina, disciplina e… disciplina.

O Espírito Emmanuel ditou para Chico um dos seus mais conhecidos livros: “Há dois mil anos”, que narra a história do orgulhoso senador romano Publius Lentulus, que estava em missão em Jerusalém, designada pelo Imperador, quando da paixão e morte do Nosso Senhor Jesus Cristo.

Um pouco antes, o soberbo senador teve a graça de ter a sua filha Flávia curada de lepra pelo próprio Cristo. Porém, isso não o motivou a interceder pelo Messias junto a Pilatos.

É um livro autobiográfico, uma vez que o prepotente senador é o mesmo Emmanuel, e especula-se que Flávia foi uma encarnação passada de Chico Xavier.

Ao longo de toda a sua vida, inspirado e guiado por Emmanuel, mesmo com a saúde frágil, Chico vai se desdobrar nas atividades profissionais de escriturário, na militância espírita e ainda arranjará tempo, roubado ao sono, de psicografar centenas de livros e milhares e milhares de páginas.

Há um saboroso causo com Chico Xavier e Emmanuel, narrado por Souto Maior, no seu tocante livro: num voo de Uberaba para Belo Horizonte, o avião começa a trepidar com violência e parecia fora de controle. Os passageiros começaram a gritar, pedir socorro. Chico uniu-se ao coro:

Valei-me meu Deus. Socorro, misericórdia. Socorro, pelo amor de Deus. Tende piedade de nós.

Um padre, a poucas poltronas de distância, reconheceu o desesperado e gritou:

O Chico Xavier está ali. Ele é médium, espírita, e está rezando conosco.

Graças a Deus, padre, eu também estou rezando.

E continuou a berrar:

Valei-me meu Deus.

Após quase 10 minutos de gritos desesperados do famoso médium mineiro, Emmanuel entra no avião e fica horrorizado com a cena. O espírita mais importante do Brasil, defensor da vida depois da morte, estava em pânico diante da hipótese de morrer. Aproxima-se de Chico e pergunta o motivo de tanta gritaria.

O senhor não acha que estamos em perigo de vida?

Sim, estão, responde Emmanuel.

Chico contesta:

Se estamos em perigo de vida, eu vou gritar. Valei-me, socorro, meu Deus!

Fazendo coro com os demais passageiros.

Emmanuel indignou-se:

Você não acha melhor se calar? Dá testemunho da tua fé, da tua confiança na imortalidade?

Chico defendeu seu direito de estar em pânico:

Estou apavorado como todo mundo. Estou com medo de morrer como qualquer ser humano.

Emmanuel perdeu a paciência:

Está bem. Então, cale a boca para não afligir a cabeça dos outros com seus gritos. Morra com fé em Deus. Morra com educação.

Quando Emmanuel virou as costas, Chico ainda resmungava:

Quero saber como alguém pode morrer com educação…

Souto Maior nos conta mais uma interessante história: Chico Xavier estava bastante abalado e deprimido com a morte de um sobrinho. Daí que, em outubro de 1958, toma uma decisão surpreendente: iria experimentar o ácido lisérgico LSD.

O químico suíço Albert Hofmann havia sintetizado o LSD pela primeira vez em 1938 nos Laboratórios Sandoz em Basel, Suíça, como parte de um grande programa de pesquisa para a medicina. O LSD foi inicialmente utilizado como recurso psicoterapêutico e para tratamento de alcoolismo e disfunções sexuais.

Pelas suas propriedades alucinógenas o consumo do LSD difundiu-se no movimento psicodélico mundial nos anos 1960-70 e nos meios universitários europeu e norte-americano, entre hippies, grupos de música pop, ambientes literários etc. A proibição e criminalização do seu uso só ocorreu em 1966.

Chico perguntou a Emmanuel se ele poderia fazer a experiência com amigos de Belo Horizonte. O mentor se ofereceu para promover a “viagem”. À noite, Chico se sentiu fora do corpo, Emmanuel se aproximou dele, colocou uma bebida num copo e explicou: era um alcaloide capaz de produzir o mesmo efeito do LSD.

Cabe aqui um parênteses para explicação de tal fenômeno mediúnico. Existe um ponto de intercessão entre o nosso mundo material e o mundo espiritual, onde os corpos físico e astral de encarnados e seres divinos se comunicam e interagem. Objetos como a bebida oferecida por Emmanuel a Chico também podem se plasmar. Esse ponto ou lugar de intercessão é quando os comunicantes assumem o seu corpo bioplasmático.

Chico Xavier engoliu a bebida, um tanto amarga, e levou uma dura peia: começou a se sentir mal, como se estivesse entrando num pesadelo. Animais monstruosos se aproximavam e cenas assustadoras desfilavam diante de seus olhos. Ele acordou com mal-estar. O sol parecia uma fogueira e o irritava, as pessoas o cercavam, desfiguradas.

À noite, Emmanuel reapareceu com a lição psicodélica:

Chico, o alcaloide refletiu o seu estado mental.

Chico quis saber como recuperar a tranquilidade e escapar da ressaca. Receita transmitida por seu mentor: oração, silêncio e caridade, para colher vibrações positivas.

Chico seguiu as dicas à risca. Começou a visitar doentes pobres, a atrair bons fluidos e, durante cinco dias, trabalhou para se refazer. No sexto dia ele se sentiu melhor.

À noite, Emmanuel voltou e propôs repetir a experiência com o mesmo alcaloide. Mesmo desconfiado, o discípulo concordou. O efeito foi surpreendente: alegria profunda. Teve sonhos maravilhosos, visitou uma cidade de cristal, olhou para o céu como se fosse de vidro. Até a Fazenda Modelo (seu ambiente de trabalho) ficou deslumbrante. Os livros pareciam encadernados por safiras e ametistas, luzes saíam do corpo dos companheiros, das plantas e dos animais. Chico sentiu vontade de abraçar todo mundo. Ficou assim, em êxtase, quatro dias seguidos, em estado de alegria descontrolada, insuportável.

Emmanuel apareceu com as explicações:

Você está vendo seu próprio mundo íntimo fora de você.

Dessa maneira se deu a experiência de Chico Xavier com a bebida Ayahuasca, utilizado para fins religiosos no Brasil. Assim acreditamos, pela descrição do autor do livro.

Quanto a Emmanuel, por não ser um anjo ayahuasqueiro, parece não recomendar que Chico continuasse a beber o chá ou procurar outras formas de expansão de consciência.

Cada um na sua linha e Deus por todos nós.

 

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.