Pisei na Terra fria. A visita do Padre Pacífico ao Mestre Irineu

Em plena Ditadura Militar, o padre progressista, adepto da Teologia da Libertação, teme. Receia que uma guarnição militar tenha vindo prendê-lo… Entretanto, era uma comitiva enviada pelo presidente do Centro Livre criado pelo saudoso Mestre Irineu, convidando-o para o “festival” logo à noite.

Manoel Pacífico da Costa, nascido em 07 de março de 1945, em Rio Branco-Acre

Manoel Pacífico da Costa, nascido em 07 de março de 1945, em Rio Branco-Acre

Alquebrado pelo peso da idade e sentindo que se aproximava o dia de sua passagem para o mundo espiritual, Mestre Raimundo Irineu Serra se preocupava com a continuidade de seu trabalho. E, com a saúde debilitada, dizia:

— Eu não sinto dor. Eu não sinto fome. O que eu sinto é saudade de vocês. Eu sinto uma saudade tão grande de vocês que é isto que está me abatendo.

Poucos meses antes, ele havia recebido seu último e derradeiro hino, de despedida:

Pisei na terra fria

Nela eu senti calor

Ela é quem me dá o pão

A minha mãe, que nos criou.

A minha mãe, que nos criou

E me dá todos os ensinos

A matéria eu entrego a ela

E meu espírito ao Divino.

Devido a isso, as mulheres da comunidade o cercavam de cuidados, e viviam apreensivas quanto ao seu possível passamento. Para confortá-las o Mestre Irineu brincava:

— Eu vou morrer nada. Eu só vou desencarnar no dia em que um padre bater à minha porta!

Assim o Velho Mestre as consolava. Pois a vastidão da floresta amazônica e a escassez de padres nas matas e nos seringais tornava a figura de um padre algo raro de se ver.

Anos e anos se passavam até um padre aparecer nas comunidades ribeirinhas para as “desobrigas” — realizar batismos em crianças já crescidas, e casamentos em casais já de longa convivência marital. Daí que essa declaração do Mestre Irineu equivalia a dizer que ele demoraria a falecer.

Porém, ele também afirmava: “nenhuma brincadeira minha cai no chão”. Isto é, nada que ele falava era à toa, sem propósito.

O sr. Júlio Carioca, antigo discípulo e amigo do Mestre, comenta que não era uma mera brincadeira:

— Um dia o Mestre Irineu me chamou e disse que sua Professora havia lhe dito que um dos avisos que ela lhe daria quando estivesse perto dele fazer sua passagem era a presença de um padre na sua Sede — isto é, no Centro Livre fundado por ele, nas terras sagradas do Alto Santo.

Provavelmente a outros amigos e discípulos ele também tenha feito essa revelação, trazida diretamente da Sua Mãe, a Rainha da Floresta, Virgem da Conceição.

Eis o Padre: Manoel Pacífico da Costa

Manoel Pacífico da Costa, nascido em 07 de março de 1945, em Rio Branco-Acre, é casado, pai de três filhos, professor e padre diocesano, na atualidade tem o status de “padre casado”, isto é, continua padre, porém não autorizado a ministrar os sacramentos eucarísticos da Madre igreja.

O jovem Padre Pacífico começou a cumprir o seu apostolado como pároco da Paróquia Cristo Libertador, no Bairro Estação Experimental (Rio Branco – Acre). Corria o ano de 1971. Certa manhã, caminhando pelas ruas da Paróquia no intuito de conhecer o seu rebanho e também buscando doações de galinhas para o próximo arraial da Igreja (quermesse), se depara com uma capelinha onde se realizava um ato litúrgico. Imaginou que aquela igrejinha fazia parte da sua paróquia e entrou. A celebração religiosa era feita entre cânticos e orações, com uma mesa de centro, na forma de cruz, onde 13 pessoas sentavam ao redor.

Logo percebeu que talvez se tratasse de um culto de catolicismo popular, coordenado por leigos e à margem da Igreja Católica. Como a função religiosa não acabava, após uma hora e meia de assistência o Padre Pacífico se retirou discretamente — assim acreditava.

No dia seguinte, dando aula para as crianças da comunidade, alguns menores o abordaram:

— Teve na casa de papai ontem, né?

Era uma das filhas de Antônio Geraldo da Silva, presidente, à época, do Centro Espírita “Casa de Jesus – Fonte de Luz” (a Barquinha).

Assim, o Padre Pacífico ficou sabendo que aquela era uma casa de Daime. Todavia, ele dizia estar “vacinado contra o Daime”, pois o preconceito contra a bebida e as comunidades ayahuasqueiras era grande na capital do Acre, o influenciando negativamente num primeiro momento, por desinformação.

O Padre Pacífico havia iniciado o seu ministério justamente no período de grandes reformas na Igreja, com o Concílio Vaticano II. Entre estas mudanças, a prática fraternal do ecumenismo. Ecumenismo significa o respeito pela religião alheia, o respeito à diversidade religiosa. Portanto, ecumênico é aquele que sabe que a verdade pode ter muitas faces, assim como Deus pode ter muitas formas de se manifestar. A relação de amizade do Padre Pacífico com as comunidades ayahuasqueiras do Acre então se inicia e dura até os dias de hoje.

Voltando a junho de 1971: o Padre Pacífico manifesta interesse de conhecer a outra comunidade daimista de Rio Branco, mais antiga e tradicional, liderada pelo Mestre Irineu. O senhor Raimundo Irineu Serra, fundador da Doutrina do Daime, era então uma personalidade religiosa muito conhecida e ao mesmo tempo misteriosa na sociedade rio-branquense.

De um lado, era visto como verdadeiro profeta da floresta, hierofante brasileiro, e amigo de influentes líderes políticos do Território Federal do Acre; por outro lado, era visto como “feiticeiro negro”, que distribuía uma bebida que “enlouquece as pessoas e as transforma em homicidas”, segundo o bispo diocesano Giocondo Maria Grotti, ao qual Padre Pacífico estava subordinado.

O Padre Pacífico se cerca de algumas crianças e pede para elas conduzi-lo até a casa de Mestre Irineu, para uma visita. Essas crianças foram Antônio Geraldo Filho, Sandra Geraldo e Chaguinha, filha de dona Chica Gabriel. Ia com eles duas freiras.

É contado que quando as mulheres da comunidade viram o Padre Pacífico na porta da humilde casinha de madeira do Padrinho Irineu, batendo palmas e exclamando:

— Ô de casa!

Começaram a se lamentar e dizer:

— Valha-me Deus! O Padrinho Irineu vai morrer!…

Júlio Carioca, que testemunhou este momento, afirma que ouviu o Velho Mestre dizer:

— Que tempo é esse minha Mãe!

Ele lembrava do sinal que a Virgem havia lhe advertido, conta Júlio Carioca.

As senhoras da comunidade tentaram logo afastar aquele fatídico presságio, dizendo que o Padrinho Irineu estava adoentado, e por isso não recebia visitas. O Velho Mestre, ouvindo o diálogo deitado na sua rede, do lado de dentro da casa, fala para os demais:

— Manda o Padre entrar!

Muito cortesmente o Velho Juramidã atende o Padre Pacífico, enquanto Peregrina Serra e Zulmira Gomes, esposa e sogra do Mestre, recebem as freiras e as crianças.

Conversam animadamente. Mestre Irineu afirma ter sido amigo do pai do Padre, o Sargento Pacífico, e costumava andar a cavalo na rua onde a família do padre residia (Rua Floriano Peixoto, região central de Rio Branco).

O Padre Manoel Pacífico manifesta desejo de assistir um trabalho de Daime na Sede de Serviços do Alto Santo. E o velho Mestre lhe diz:

— No próximo hinário do nosso festival mandarei fazer uma homenagem ao senhor, seu Padre.

Festival é o nome que na cultura daimista se dá ao período festivo do calendário cristão, onde são bailados os hinários cantados, ao ritmo do maracá.

Após esses acontecimentos, na tarde de verão amazônico de 6 de Julho de 1971, o Padrinho Irineu entrega a sua matéria a Mãe Terra e o seu espírito ao Divino Pai Criador.

Do sangue das minhas veias

Eu fiz minha assinatura

O meu espírito eu entrego a Deus

E o meu corpo à sepultura.

Passam-se alguns poucos dias e o Padre Pacífico é surpreendido em pleno Palácio do Bispo da Prelazia do Acre e Purus com uma visita inesperada:

— Padre, tem um pessoal aí fardado que quer falar com o senhor.

Em plena Ditadura Militar, o padre progressista, adepto da Teologia da Libertação, teme. Receia que uma guarnição militar tenha vindo prendê-lo… Entretanto, era uma comitiva enviada pelo presidente do Centro Livre criado pelo saudoso Mestre Irineu, convidando-o para o “festival” logo à noite. Seria cantado o hinário O Cruzeiro pelo festejo do aniversário da Madrinha Peregrina Gomes Serra, esposa do Mestre, deste mundo à eternidade.

O aniversário da jovem Peregrina era festejado até o ano anterior com forró. Antes de sua passagem para o mundo espiritual o Mestre Irineu deixou a instrução de que a partir de então a significativa data entraria para o calendário litúrgico do Alto Santo, e se cantasse O Cruzeiro com a farda branca.

Na noite de 14 de julho de 1971, hinário festivo de aniversário, foi realizada a homenagem ao ilustre visitante: Padre Manoel Pacífico da Costa, amigo do Daime.

Meu corpo na sepultura

Desprezado no relento

Alguém fala em meu nome

Alguma vez em pensamento?

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.