O impeachment, e depois? Como os jornais se comportaram nos primeiros dias do governo Temer | Por Camila Mont’Alverne

No dia 13 de maio de 2016, o presidente interino Michel Temer faz discurso durante cerimônia de posse aos ministros de seu governo, no Palácio do Planalto.

No dia 13 de maio de 2016, o presidente interino Michel Temer faz discurso durante cerimônia de posse aos ministros de seu governo, no Palácio do Planalto.

Um apanhado dos editoriais publicados por três dos maiores jornais brasileiros – Folha de S. Paulo, O Globo e O Estado de S. Paulo – após o afastamento de Dilma Rousseff indicam nuances diferenciadas entre as três publicações. Se os dois últimos jornais – OESP com maior clareza e recorrência – viam o impeachment como solução adequada para a crise política do país, o processo não era aprovado pela FSP, que preferia a opção de novas eleições.

A leitura dos editoriais dos três jornais publicados nos dias seguintes a 12 de maio de 2016 revela uma Folha de S. Paulo desconfiada da capacidade do governo interino para resolver a crise política e econômica vivida pelo Brasil, enquanto O Globo e Estadão parecem dar um voto de confiança ao presidente interino Michel Temer. Tal suporte seria de se esperar, considerando posicionamentos anteriores das empresas, embora o apoio ao impeachment não redundasse – explicitamente, pelo menos – em apoio incondicional a Temer.

É importante ressaltar, porém, que a agenda liberal proposta pelo governo interino vai ao encontro de várias das pautas defendidas, principalmente, por OESP – que chega a exigir, no editorial “A missão de Temer”, a adoção de “medidas emergenciais impopulares”. A adesão ao governo Temer parece acontecer, em grande medida, na esperança da adoção de uma agenda largamente defendida pelo Estadão – e que o periódico vê como ignorada por parte dos governos petistas. A pauta do jornal fica muito clara no editorial “O novo governo começa a se definir”, no qual são apresentadas questões prioritárias para a publicação, como reforma da Previdência e das leis trabalhistas. É possível que a simpatia em direção ao governo de Temer se dê na esperança de ver tais agendas contempladas, evitando desgastá-lo logo de saída, tanto que o editorial de domingo, 15 de maio, elogia entusiasmadamente as medidas prometidas pela nova equipe econômica.

A estratégia de poucas críticas a Temer e ao seu ministério é seguida por O Globo. No editorial “Tempestade perfeita numa caixa preta”, o periódico apresenta os problemas herdados do governo Dilma e elenca pontos-chave para compreensão do assunto, de acordo com sua perspectiva. O Globo ainda justifica, em outro editorial, o impeachment como processo legítimo, procurando contrapor a narrativa de que seria um golpe, fartamente distribuída à sociedade. Na realidade, os três jornais acreditam na validade do procedimento, embora a Folha questione a força das acusações para levar à cabo processo tão traumático.

A Folha de S. Paulo é, dentre os três periódicos, o que mais se distancia de Michel Temer, fazendo críticas à composição do ministério em editorial publicado no dia seguinte ao afastamento de Dilma – inclusive ao vergonhoso fato de não haver mulheres no cargo de ministras. O jornal se junta aos outros, porém, no coro de aprovação às medidas econômicas anunciadas. As discordâncias apresentadas pela Folha podem estar relacionadas ao fato de o periódico defender a realização de novas eleições.

Pela análise geral dos editoriais, o governo de Temer parece estar contando com certa paciência por parte das principais empresas de comunicação brasileiras – que também tiveram um papel importante ao tentar construir a legitimidade do processo de impeachment de Dilma Rousseff. Questiona-se, todavia, quanto tempo esta “lua de mel” irá durar, tendo em vista as discordâncias existentes na sociedade e no campo político acerca do novo governo, bem como as dificuldades que deverá enfrentar.

Se a cobertura informativa e os editoriais direcionados a Dilma Rousseff e ao seu governo eram duros, deve-se cobrar que a vigilância permaneça em relação ao governo Temer – e aos subsequentes. As empresas jornalísticas não podem cumprir papel de meramente atirar pedras em vitrines de maneira irresponsável, mas são fundamentais para fiscalizar os agentes políticos. Esta função não pode ser desconsiderada porque os novos governantes estão mais próximos politicamente das posições defendidas pelos periódicos, sob pena de ferirem – ainda mais – um dos fundamentos basilares da atividade jornalística: o compromisso com o interesse público.

*Camila Mont’Alverne é doutoranda em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Integrante do Grupo de Pesquisa em Política e Novas Tecnologias (PONTE).

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