O artista plástico feirense Raimundo de Oliveira, vida e obra

Crucificação, obra de Raimundo Falcão de Oliveira (Raimundo de Oliveira), produzida em 1955, com uso da técnica aquarela (pintura a óleo sobre tela).

Crucificação, obra de Raimundo Falcão de Oliveira (Raimundo de Oliveira), produzida em 1955, com uso da técnica aquarela (pintura a óleo sobre tela).

Pintura de autoria de Raymundo Oliveira, datada de 1955, com tí

Pintura de autoria de Raymundo Oliveira, datada de 1955, com tí

Monge, obra de Raimundo Falcão de Oliveira (Raimundo de Oliveira), produzida em 1955, com uso da técnica nanquim sobre papel.

Monge, obra de Raimundo Falcão de Oliveira (Raimundo de Oliveira), produzida em 1955, com uso da técnica nanquim sobre papel.

Raimundo Falcão de Oliveira (Raimundo de Oliveira) Raimundo de Oliveira (Feira de Santana 1930 – Salvador 1966) Gravador, pintor, desenhista. Ele  iniciou nas artes por intermédio da mãe, pintora de temática religiosa, que o encaminha para o desenho e a pintura, como também o orienta na religião. Incentivado pela professora de desenho, expõe pela primeira vez no Ginásio Santanópolis, onde retrata os professores da escola. Após a conclusão do curso ginasial, em 1947, segue para Salvador, onde faz cursos regulares de pintura com Maria Célia Amado, na Escola de Belas Artes da Universidade da Bahia, e conhece Mario Cravo Júnior e Jenner Augusto . Realiza a primeira individual no hall da Prefeitura de Feira de Santana, em 1951, momento em que se liga a um grupo de artistas independentes, responsável pelos Cadernos da Bahia. Reside em São Paulo de 1958 a 1964, depois volta a morar na Bahia. Vive no Rio de Janeiro entre 1965 e 1966. No ano de seu suicídio, 1966, é editada a Pequena Bíblia de Raimundo de Oliveira. Xilogravuras, pela Galeria Bonino e Petite Galerie, organizada por Julio Pacello, com prefácio de Jorge Amado. Em 1982, é publicado o segundo álbum do artista, Via Crucis, pela Fundação Cultural do Estado da Bahia, e é inaugurada a Galeria Raimundo de Oliveira, em Salvador.

Comentário Crítico

A obra de Raimundo de Oliveira – desenho, guache, óleo e gravura – se desenrola no universo religioso, com santos, imagens e cenas bíblicas representados de diversas formas. Os críticos tendem a distinguir duas fases em sua produção em função das variações observadas no tratamento dado ao tema. Nas décadas de 1950 e 1960 predominam as composições com cores sombrias e caráter expressionista – as figuras marcadas por traços dolorosos e dramáticos, definidas com nanquim e contornos negros, como Cabeça de Cristo, 1957, Crucificado, s.d., e Moisés, 1960 – e algumas leituras mostram afinidades com a pintura de Georges Rouault. Em outro momento, as telas aproximam-se dos pequenos enredos, elaborados com o auxílio de figuras apequenadas (mais humorísticas que trágicas, pelas deformações e desproporções), que se repetem por causa das situações apresentadas. Estruturadas geometricamente, por um equilíbrio de planos horizontais e verticais, as novas telas possuem dinamismo particular, obtido pelos espaços construídos com base em círculos. A energia das cores vibrantes e o dinamismo da tela são as marcas salientes dessa fase, visto em O Sonho de Jacob, s.d. Além das influências simbolistas e da arte naif de Henri Rousseau, são perceptíveis, nessa fase, ecos da arte popular nordestina brasileira. O universo religioso é lido da ótica das festas e da religiosidade popular, misturando-se frequentemente ao mundo profano – procissões, bumba-meu-boi, altares domésticos etc. Os enredos e modos de figuração, por sua vez, remetem à arte dos gravadores e ceramistas do Nordeste. Elementos retirados da paisagem nacional, como árvores e animais tropicais, são outra forma de articular o erudito e o popular, o universal e o nacional – Jesus no Horto das Oliveiras, 1962, e Chegada em Jerusalém, 1964.

Críticas

“E então todos se deram conta que o burel não era um burel, era uma velha capa contra a chuva, e o cajado não era cajado, eram pincéis de pintura. E havia uma tela e o cujo sujeito pintava. Alguns quiseram apedrejá-lo, considerando-o um vigarista vindo de fora, mas outros reconheceram o peregrino e a ele se dirigiram, tratando-o familiarmente de Mundinho. Pois era Raimundo de Oliveira, filho da terra, desde menino um vago, sem jeito para o trabalho, a não ser para riscar papel, se isso é trabalho que se considere. Tinha ido embora fazia tempo, dele não havia notícia. Apareceu agora de repente e em torno de sua grande cabeça pairava uma atmosfera mágica, como se o cercasse a luz da madrugada. (…)

Esse pintor, esse grande pintor da Bíblia e da Bahia, esse que passou a limpo a violência do Velho Testamento e o tornou de maciez de veludo, esse que encheu de flores a áspera tragédia antiga, esse moço de voz tímida e segura certeza, esse Raimundo de Oliveira é um profeta com alma de Francisco de Assis. Só a Bahia o podia produzir, nos caminhos da cidade onde nasce o sertão; só a Bahia o podia alimentar e o oferecer às galerias do sul, à glória e à fama, pois sua Bíblia tem uma respiração de candomblé (não fosse ele filho de mãe Senhora de Ôpo Afonjá e não houvesse aprendido a cozinhar com Olga do Aleketu). Mestre pintor, não sei de outro que tenha crescido tanto em sua arte, mantendo-se tão fiel aos sonhos de sua meninice, às esperanças de sua Mãe e ao seu tesouro escondido. (…)

Raimundo de Oliveira (…) não ficou na Bahia. Era um profeta e tinha de levar sua profecia mundo adentro. Tinha de correr os caminhos e demorar em terras distantes. Anda por aqui e por ali, mas é na Bahia que ele vem se alimentar de terra, de animais, de Deus e de amor, é na Bahia que ele vem, humilde e vitorioso, reapreender o mistério do homem e sua necessidade de paz e de fartura”.

Jorge Amado – 1966

AMADO, Jorge. [Palavras]. In: OLIVEIRA, Raimundo de. Pequena Bíblia de Raimundo de Oliveira. Xilogravuras. Prefácio Jorge Amado; organização Julio A. Pacello. São Paulo: Lia Cesar, 1966.

“Este livro (de xilogravuras) nasceu há mais de dois anos, quando Raimundo de Oliveira me procurou para que eu o ajudasse a distribuir convites para a sua exposição, na Galeria Astréia. Saímos juntos, nessa simples missão, e foi no caminho que nasceu a idéia de fazer uma pequena Bíblia. Daí em diante, durante muitos meses, trabalhamos em estreita colaboração. Levamos bastante tempo escolhendo as cenas bíblicas que nos pareciam mais representativas. Essa escolha levava em consideração tanto o aspecto bíblico como o artístico. Além disso, teve que sujeitar-se às limitações impostas pela técnica da xilogravura”.

Julio A. Pacello – 1966

PACELLO, Julio A. In: OLIVEIRA, Raimundo de. Pequena Bíblia de Raimundo de Oliveira. Xilogravuras. Prefácio Jorge Amado; organização Julio A. Pacello. São Paulo: Lia Cesar, 1966.

“Apesar da ingênua composição plástica de suas obras e de sua franca rebeldia em relação à disciplina escolar (…) jamais foi, como equivocadamente o apresentaram (…), um primitivo, um ‘naif’ (…) estava preocupado com a problemática estilística que lhe provocavam os temas e as narrativas religiosos, interpretando-os com cenas de extremo lirismo”.

Clarival do Prado Valadares

PONTUAL, Roberto. Dicionário das artes plásticas no Brasil. Apresentação de Antônio Houaiss. Textos de Mário Barata et al. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969.

Exposições Individuais

1951 – Feira de Santana BA – Primeira individual, na Prefeitura Municipal

1951 – Salvador BA – Individual, na Galeria Oxumaré

1953 – Feira de Santana BA – Individual, na Prefeitura Municipal

1953 – Salvador BA – Individual, na Galeria Oxumaré

1956 – Salvador BA – O Drama do Calvário, no Belvedere da Sé

1957 – Buenos Aires (Argentina) – Individual, na Plástica Galeria de Arte

1958 – Salvador BA – Individual, na Galeria Oxumaré

1959 – Santos SP – Individual, no Hall do Edifício Indaiá

1959 – São Paulo SP – Individual, na Galeria Ambiente

1960 – São Paulo SP – Individual, no Teatro Novos Comediantes

1960 – São Paulo SP – Individual, no Teatro Oficina

1961 – Campinas SP – Individual, na Galeria Aremar

1961 – São Paulo SP- Individual, na Galeria Astréia

1962 – São Paulo SP – Individual, no Clubinho

1962 – São Paulo SP- Individual, na Galeria Astréia

1963 – Rio de Janeiro RJ – Individual, na Galeria Bonino

1964 – Buenos Aires (Argentina) – Individual, na Galeria Bonino

1964 – São Paulo SP – Individual, na Galeria Astréia

1965 – Rio de Janeiro RJ – Individual, na Galeria Bonino

1966 – Rio de Janeiro RJ – Individual, no MAM/RJ

Exposições Coletivas

1951 – Salvador BA – 1º Salão Universitário Baiano de Belas Artes

1952 – Feira de Santana BA – 1ª Exposição de Arte Moderna de Feira de Santana, no Banco Econômico da Bahia

1952 – Rio de Janeiro RJ – 1º Salão Nacional de Arte Moderna, no MAM/RJ

1952 – Salvador BA – 2º Salão Universitário Baiano de Belas Artes

1953 – Salvador BA – Poty, Carlos Bastos e Raimundo Oliveira, na Galeria Oxumaré

1953 – Salvador BA – 3º Salão Baiano de Belas Artes

1954 – Salvador BA – 4º Salão Baiano de Belas Artes, no Hotel Bahia

1955 – Salvador BA – 5º Salão Baiano de Belas Artes, na Galeria Belvedere da Sé – menção honrosa em desenho

1956 – Rio de Janeiro RJ – 5º Salão Nacional de Arte Moderna

1956 – Salvador BA – 6ª Salão Baiano de Belas Artes, na Galeria Oxumaré – menção honrosa em pintura

1956 – Salvador BA – Artistas Modernos da Bahia, na Galeria Oxumaré

1956 – Salvador BA – Exposição de Pintura Moderna, no Palácio Rio Branco

1957 – Rio de Janeiro RJ – 6º Salão Nacional de Arte Moderna

1957 – São Paulo SP – Artistas da Bahia, no MAM/SP

1959 – São Paulo SP – 47 Artistas, na Galeria de Arte das Folhas

1960 – São Paulo SP – 9º Salão Paulista de Arte Moderna, na Galeria Prestes Maia – medalha de bronze

1961 – Porto Alegre RS – Círculo dos Amigos da Arte, no Margs

1961 – São Paulo SP – Arte Sacra Contemporânea, na Sede do Movimento Graal

1961 – São Paulo SP – 10º Salão Paulista de Arte Moderna, na Galeria Prestes Maia – prêmio aquisição

1962 – São Paulo SP – 11º Salão Paulista de Arte Moderna – pequena medalha de prata

1963 – São Paulo SP – 12º Salão Paulista de Arte Moderna, na Galeria Prestes Maia

1963 – São Paulo SP – 7ª Bienal Internacional de São Paulo, na Fundação Bienal

1964 – São Paulo SP – 13º Salão Paulista de Arte Moderna

1965 – Caracas (Venezuela) – Avaliação da Pintura Latino-Americana

1965 – Paris (França) – Salon Comparaisons, no Musée d’Art Moderne de La Ville de Paris

1965 – Paris (França) – Oito Pintores Ingênuos Brasileiros, na Galerie Jacques Massol

1965 – Rio de Janeiro RJ – 33 Artistas em Homenagem à Cidade do Rio de Janeiro – menção honrosa

1965 – São Paulo SP – 8ª Bienal Internacional de São Paulo, na Fundação Bienal

1966 – Buenos Aires (Argentina) – Artistas Brasileiros Contemporâneos, no Museo de Arte Moderno

1966 – Lausanne (Suíça) – Artistas e Descobridores de Nosso Tempo

1966 – Nova York (Estados Unidos) – Brazilian Artists, na Amel Gallery

1966 – Montevidéu (Uruguai) – Artistas Brasileiros Contemporâneos, no Museo de Arte Moderno de Buenos Aires

1966 – Madri (Espanha) – Artistas da Bahia, no Instituto de Cultura Hispânica

1966 – Lausanne (Suíça) – Salão Internacional de Galerias – Piloto

1966 – Nova York (Estados Unidos) – Brazilian Artists, na Amel Gallery

1966 – Moscou (Rússia) – Pintores Primitivos Brasileiros

1966 – São Paulo SP – 15º Salão Paulista de Arte Moderna, na Galeria Prestes Maia

1966 – Nova York (Estados Unidos) – The Emergent Decade, no Solomon R. Guggenheim Museum

Exposições Póstumas

1966 – Rio de Janeiro RJ – 4ª Resumo de Arte do JB, no MAM/RJ

1966 – Salvador BA – 1ª Bienal Nacional de Artes Plásticas

1966 – São Paulo SP – 15º Salão Paulista de Arte Moderna, na Galeria Prestes Maia

1967 – Salvador BA – Exposição Coletiva de Natal, na Panorama Galeria de Arte

1969 – Rio de Janeiro RJ – Via Crucis, no Gabinete de Arte de Botafogo

1976 – São Paulo SP – Individual, na Galeria de Arte Portal

1979 – São Paulo SP – Raimundo de Oliveira: pinturas, na Galeria de Arte Ipanema

1982 – Salvador BA – A Arte Brasileira da Coleção Odorico Tavares, no Museu Carlos Costa Pinto

1984 – São Paulo SP – Coleção Gilberto Chateaubriand: retrato e auto-retrato da arte brasileira, no MAM/SP

1984 – São Paulo SP – Tradição e Ruptura: síntese de arte e cultura brasileiras, na Fundação Bienal

1986 – São Paulo SP – Individual, na Biblioteca Mário de Andrade

1988 – São Paulo SP – Pintura Ingênua Brasileira, no Espaço Quadros e Objetos de Arte

1990 – São Paulo SP – Figurativismo/Abstracionismo: o vermelho na pintura brasileira, na Itaugaleria

1992 – Belém PA – Décima Primeira Arte, na Fundação Romulo Maiorana

1992 – Rio de Janeiro RJ – Individual, na Galeria Bonino

1993 – João Pessoa PB – Xilogravura: do cordel à galeria, na Funesc

1993 – Rio de Janeiro RJ – Individual, na Galeria Ipanema

1994 – Poços de Caldas MG – Coleção Unibanco: exposição comemorativa dos 70 anos de Unibanco, na Casa da Cultura

1994 – São Paulo SP – Xilogravura: do cordel à galeria, no Metrô

1995 – Rio de Janeiro RJ – Coleção Unibanco: exposição comemorativa dos 70 anos de Unibanco, no MAM/RJ

1996 – Belém PA – 15º Salão Arte Pará, no Museu de Arte do Belém

1996 – São Paulo SP – Ex Libris/Home Page, no Paço das Artes

1997 – Porto Alegre RS – Exposição do Acervo da Caixa, no Conjunto Cultural da Caixa

1997 – São Paulo SP – Exposição do Acervo da Caixa, no Conjunto Cultural da Caixa

1998 – Curitiba PR – Exposição do Acervo da Caixa, no Conjunto Cultural da Caixa

1998 – Rio de Janeiro RJ – Exposição do Acervo da Caixa, no Conjunto Cultural da Caixa

1998 – São Paulo SP – Os Colecionadores – Guita e José Mindlin: matrizes e gravuras, na Galeria de Arte do Sesi

1999 – Salvador BA – 100 Artistas Plásticos da Bahia, no Museu de Arte Sacra

1999 – Salvador BA – 60 Anos de Arte Brasileira, no Espaço Cultural da Caixa Econômica Federal

2000 – São Paulo SP – Investigações. A Gravura Brasileira, no Itaú Cultural

2000 – São Paulo SP – Os Anjos Estão de Volta, na Pinacoteca do Estado

2001 – Brasília DF – Investigações. A Gravura Brasileira, na Itaú Galeria

2001 – Penápolis SP – Investigações. A Gravura Brasileira, na Galeria Itaú Cultural

2001 – São Paulo SP – Coleção Aldo Franco, na Pinacoteca do Estado

2002 – Rio de Janeiro RJ – Arte Brasileira na Coleção Fadel: da inquietação do moderno à autonomia da linguagem, no CCBB

2002 – São Paulo SP – Arte Brasileira na Coleção Fadel: da inquietação do moderno à autonomia da linguagem, no CCBB

2002 – São Paulo SP – Santa Ingenuidade, na Unifieo

Museu leva nome do artista

Criado em 1967, pelo empresário Assis Chateaubriand, o Museu Regional de Feira de Santana foi instalado no prédio onde funcionava a administração e balança de animais da feira de gado – posterior Ginásio Municipal – e adaptado sob a orientação dos arquitetos Jader Tavares, Diocleciano Barreto, Fernando Frank e Oto Gomes. No final de 1995, a UEFS, que administra o Museu Regional, transferiu todo o acervo para o Centro Universitário de Cultura e Arte – CUCA. Consciente da importância histórica do edifício que durante quase trinta anos abrigou o Museu Regional, o Departamento de Cultura do Município dirigido na época por Juraci Dórea Falcão, na gestão do prefeito José Raimundo Pereira de Azevedo, desenvolveu um projeto visando a preservação do citado espaço para a área cultural, criando o Museu de Arte Contemporânea de Feira de Santana – Decreto 5.958, de 25 julho de 1996 – que através do Projeto de Lei 147/97, passou a denominar-se Museu de Arte Contemporânea Raimundo de Oliveira.

*Com informações do Itaú Cultural.

Sobre o autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto Oliveira da Silva (Carlos Augusto) é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF). Atua como jornalista e cientista social. Telefone: (75)98242-8000 | E-mail: diretor@jornalgrandebahia.com.br.