Exclusiva: deputado José Cerqueira Neto analisa processo de impeachment, comenta sobre a possibilidade de ingresso de Jaques Wagner no governo e protagonismo de Geddel Vieira Lima

Carlos Augusto entrevista o deputado José Cerqueira Neto (Zé Neto). "Observe que a grande mídia é responsável, como sempre foi por esses golpes tão avassaladores para a nossa história. Porque a grande mídia nacional sempre esteve alinhada, infelizmente, com esses momentos de ruptura institucional", afirma Zé Neto.

Carlos Augusto entrevista o deputado José Cerqueira Neto (Zé Neto). “Observe que a grande mídia é responsável, como sempre foi por esses golpes tão avassaladores para a nossa história. Porque a grande mídia nacional sempre esteve alinhada, infelizmente, com esses momentos de ruptura institucional”, afirma Zé Neto.

José Cerqueira Neto (Zé Neto): Ainda não paramos para conversar com o governador sobre esse assunto. Ele já falou publicamente sobre o tema, o próprio ministro Wagner falou da necessidade de ficar em quarentena e vamos aguardar, no decorrer dos dias. Onde ele estiver vai ser nossa grande liderança, na militância ou em qualquer função.

José Cerqueira Neto (Zé Neto): Ainda não paramos para conversar com o governador sobre esse assunto. Ele já falou publicamente sobre o tema, o próprio ministro Wagner falou da necessidade de ficar em quarentena e vamos aguardar, no decorrer dos dias. Onde ele estiver vai ser nossa grande liderança, na militância ou em qualquer função.

Líder do governo Rui Costa e líder da maioria na Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA), o deputado José de Cerqueira Neto (Zé Neto, PT) concede entrevista ao Jornal Grande Bahia. Durante a entrevista, Zé Neto analisa o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, a posição da Corte Interamericana de Direitos Humanos e do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o processo, o fato do vice-presidente ter sido decretado como inelegível pela Justiça Eleitoral de São Paulo, a possibilidade do ex-ministro Jaques Wagner integrar o secretariado do governo Rui Costa, o protagonismo político que emerge através do ministro Geddel Vieira Lima (PMDB), a possibilidade de retrocesso na parceira do governo federal com o estado da Bahia.

Confira a entrevista

Jornal Grande Bahia – Como analisa o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff?

José Cerqueira Neto (Zé Neto) – Como um golpe, um golpe não só na presidenta e no PT, mas como um golpe fundamentalmente na democracia, no Estado de Direito, nos valores que norteiam o nosso processo eleitoral, nosso desenvolvimento institucional.

Nesse instante é uma agressão a Constituição. Ela não cometeu nenhum crime de responsabilidade. Mas, desde o começo do segundo governo, uma eleição apertada, um Congresso que foi eleita em um conservadorismo muito grande e isso evidentemente criou um ambiente. Culminado com a insatisfação dos derrotados e os interesses de uma elite internacional e também de uma elite nacional que nunca se convenceu de que o Brasil pode ser mais para o conjunto do povo brasileiro do que para uma casta de dominadores. Esse conjunto de fatores acabou gerando esse momento indesejado, que será enfrentado com todo rigor, nas ruas, na política e em toda a sua institucionalidade.

JGB – A Corte Interamericana de Direitos Humanos questiona a legitimidade desse processo, em decorrência da falta de objetividade do crime praticado e do significativo número de deputados citados em atos de corrupção. Como analisa isso?

Zé Neto – Na verdade, o mundo não aceita mais essas peripécias. Porque o mundo não gosta de ser dominado, o mundo em que se desvencilha e tende se desvencilhar da opressão, da fome, da miséria, do terror, dessas tantas situações que estão sendo enfrentadas na Europa desde as situações econômicas a situações relacionadas a essas migrações que tenha corrido nos continentes e mostrado o quanto nós precisamos de soberania e de liberdade e de um olhar mais qualificado para o outro, para vida do outro, para qualidade de vida do outro, para expectativa e esperança do outro. Então, o mundo disse não a essa articulação. Não só nessa Corte, mas, principalmente, nos países europeus onde tem democracia consolidada e imprensa livre. O repúdio ocorreu também nos Estados Unidos, na América Latina e na Ásia.

O mundo disse não ao golpe. O que você pode notar é que se esperava que com saída da presidenta, que essa retirada gerasse um novo ânimo, porque eles sonhavam com isso e pensavam que isso ia ser construído o consenso na grande mídia. Observe que a grande mídia é responsável, como sempre foi por esses golpes tão avassaladores para a nossa história. Porque a grande mídia nacional sempre esteve alinhada, infelizmente, com esses momentos de ruptura institucional.

Então, a grande mídia não conseguiu influenciar a maioria da população. mesmo aqueles que foram para as ruas contra a Dilma, depois do dia 17 de abril de 2016, viram aquele quadro de horror na Câmara Federal. Viram mais de perto quem são os nossos deputados.

Inclusive fica aqui a minha sensação de como nossa população é desinformada. Porque muitos me procuraram e me perguntavam o que era aquilo? Muitas pessoas ficaram assustadas, abismadas com aquele quadro de terror, expresso por uma classe política desinteressada e grande parte desclassificada com os interesses do povo e olhando para o próprio umbigo.

Então para mim o mundo disse não ao golpe, e agora esse não começa a atuar ainda mais em nosso país. Isso pode culminar em uma outra eleição.

JGB – Como analisa a postura do STF com relação a todo esse processo? Observe que ontem, recentemente o ministro Teori Zavascki disse que o senado se constitui em uma corte final não podendo ocorrer em recursos em âmbito do STF.

Zé Neto – O STF não errou ontem, vem errando há um bom tempo. Porque, para mim, é um erro a Corte máxima deixar a situações do deputado Edaurdo Cunha ser prorrogada, e só tomou uma posição, que era uma posição que podia ser tomada há muito tempo atrás ou, pelo menos, não deixar chegar onde chegou. Principalmente no mérito do impeachment, porque não houve julgamento da Corte, só ocorreu julgamento do Congresso Nacional.

O Michel Temer, por exemplo, se você analisar vai observar que ele é réu. Ao mesmo tempo nós vimos uma justiça de primeiro instância agindo de forma seletiva, criando a lei em Curitiba. Selecionando o que tinha que ir para mídia, selecionando quem era que ia ser preso, selecionando qual o momento de cada um e isso, infelizmente, afetou terrivelmente a popularidade e a vulnerabilidade da presidenta Dilma.

Então, para mim, a Corte poderia coibir essa seletividade e poderia atacar o mérito. Porque o mérito não condiz com o texto constitucional e a presidenta não cometeu nenhum crime, e se cometesse algum crime, pelo amor de Deus, estariam todos inclusos de Fernando Henrique até ela, todos cometeram o que querem considerar crime fiscal. 18 governadores do país cometeram o mesmo “crime”, e os municípios que aprovam créditos também estariam cometendo crime. Então, para mim, O STF não agiu como deveria.

JGB – Recentemente o Jornal Grande Bahia publicou que o presidente Michel Temer está inelegível. Como analisa esse dado?

Zé Neto – Golpe é golpe e está aí caminhando, o impeachment já venceu duas etapas, mas o golpe não vem vencendo. Ele não se engane e a turma dele não se engane que é a terceira vez que o PMDB chega ao poder sem eleição, e que ninguém venha com essa de porque ele é o vice-presidente, que teve voto, não é isso.

É uma situação que ele [Michel Temer] vai enfrentar não só as atividades políticas como sociais dos movimentos que vão para as ruas e também vai enfrentar uma situação jurídica que tem muita coisa que ainda vai ser debulhada. Vamos ver até que ponto o nosso Supremo Tribunal Federal vai ficar na posição, diria até certo ponto calada, porque ela precisa ser uma posição mais estridente de uma defesa do Estado de Direito e o STF não pode ficar calado à medida que foram sendo orientados aos diversos temas que foram relacionados as tantas que estão sendo denunciadas, tanto do vice-presidente como de alguns que vão ser levados ao novo ministério.

JGB – Um dos melhores quadros nacionais do PT é o ex-governador da Bahia e ex-ministro Jaques Wagner, existe uma possibilidade dele ingressar como secretário do governo Rui Costa?

Zé Neto – Ainda não paramos para conversar com o governador sobre esse assunto. Ele já falou publicamente sobre o tema, o próprio ministro Wagner falou da necessidade de ficar em quarentena e vamos aguardar, no decorrer dos dias. Onde ele estiver vai ser nossa grande liderança, na militância ou em qualquer função. Enfim, vai ser sempre uma luz que norteou todos e nos ajudou a vencer a tirania e a perseguição na Bahia. Ele foi o grande catalizador da vitória do nosso governador Rui Costa e eu tenho certeza que onde ele estiver, vai estar junto da nossa luta.

JGB – Com a chegada de Michel Temer na presidência, o ex-aliado do PT Geddel Vieira Lima ganha protagonismo. Como analisa esse dado?

Zé Neto – Vamos avaliar esse protagonismo passo a passo e acompanhar. Porque. em verdade, nós já tivemos outros momentos onde havia na Bahia uma força política com representatividade em Brasília [referência ao Magalhismo], mas que não traduzia em benefícios concretos para o Estado, nem para o nordeste.

Foi assim na época de ACM que era ministro de José Sarney como também teve força no governo Fernando Henrique. Então nos dois momentos ele teve força, foi ministro e senador da República e isso não traduziu ganhos pela Bahia. Observe que o Estado, até pouco tempo tinha apenas uma universidade federal. Antes do governo Lula, principalmente, tinha as piores estradas do Brasil, tinha um índice de investimento muito mais baixo do que era investidos em outras regiões. Então, o fato de ser ministro não garante ter protagonismo e uma ação concreta em benefício do Estado. Nesse momento estamos torcendo para que pelo menos a Bahia não seja retaliada pelo governo federal. Essa é a nossa maior preocupação, que a Bahia não seja prejudicada.

JGB – Existem importantes investimentos federais em parceira com o governo do estado, a exemplo do metrô de Salvador. Existe possibilidade de retrocesso nesses investimentos?

Zé Neto – Eu acredito que não. Porque o metrô já está todo planejado e tudo contratado praticamente. Não é possível que eles vão suprimir contratos de metrô, não acredito nisso. Como também não acredito que vão criar alguma espécie de dificuldade com o governador Rui Costa. Porque, nesse caso, estariam retaliando a Bahia. Se eles querem vencer no estado, se eles querem ter mais espaço, se eles querem um pouco mais de condição política, é óbvio que não é esse o caminho. Até porque, não foi esse o caminho que adotamos em nenhum momento, com nenhuma das prefeituras do Democratas e com nenhum dos Estados em que o partido é de oposição.

*A entrevista com o deputado José de Cerqueira Neto (Zé Neto, PT) foi concedida ao jornalista e cientista social Carlos Augusto, na sede do Jornal Grande Bahia, na quinta-feira (12/05/2016), em Feira de Santana.

Sobre o autor

Redação
O Jornal Grande Bahia é um portal de notícias com sede em Feira de Santana. Para enviar informações, fazer denúncias ou comunicar erros do jornal mantenha contato através do e-mail: editor@jornalgrandebahia.com.br