Exclusiva: Deputado federal Fernando Torres avalia processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff e fala em golpe parlamentarista

Fernando Torres: “Eu vejo que é um golpe, com o modelo diferente do passado, um golpe parlamentarista vindo do parlamento.”.

Fernando Torres: “Eu vejo que é um golpe, com o modelo diferente do passado, um golpe parlamentarista vindo do parlamento.”.

Fernando Torres: “Michel Temer, o PMDB, e o Eduardo Cunha arquitetaram muito bem esse golpe e tudo indica que a presidenta saia.”.

Fernando Torres: “Michel Temer, o PMDB, e o Eduardo Cunha arquitetaram muito bem esse golpe e tudo indica que a presidenta saia.”.

O deputado federal Fernando Dantas Torres (PSD/BA) analisa o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, comenta sobre aspectos da votação de admissibilidade do processo na votação ocorrida no plenário da Câmara Federal, e avalia comentários a respeito da venda de votos por parte dos parlamentares que acataram a admissibilidade do relatório do impeachment. O deputado avalia, também, o papel de Eduardo Cunha e Michel Temer no processo de tomada do poder da República, e os reflexos que essas medidas tiveram na economia nacional.

A entrevista foi concedida, na sexta-feira (06/05/2016), pelo deputado Fernando Torres ao jornalista e cientista social Carlos Augusto. Dentre as declarações que se destacam, o deputado afirma que:

— Michel Temer, o PMDB, e o Eduardo Cunha arquitetaram muito bem esse golpe e tudo indica que a presidenta saia.

— Que é um golpe, com o modelo diferente do passado, um golpe parlamentarista vindo do parlamento.

— A Câmara dos Deputados é a cara do Brasil, é o Brasil de hoje. É o médico, o borracheiro, é o empresário de hoje e se lá tem uma boa parte de corruptos eu acho que em uma boa parte de todos os segmentos da sociedade também têm corruptos.

— Nós sabemos que o Brasil está infestado de corruptos, e que na Câmara Federal 90% dos deputados são corruptos. O Senado Federal também tem vários corruptos, e não teve nenhum ato de corrupção comprovado para a presidenta Dilma.

Confira a entrevista

Jornal Grande Bahia — Como analisa o processo de Impeachment em transcurso no Congresso Nacional contra a presidente Dilma Rousseff?

Fernando Torres — Eu vejo que é um golpe, com o modelo diferente do passado, um golpe parlamentarista vindo do parlamento. A presidenta Dilma não cometeu crime algum, o crime que ela por ventura cometeu é uma jurisprudência que todos os governadores fazem, a maioria dos prefeitos, os ex-presidentes como o Lula, Fernando Henrique, o Itamar Franco, e todos esses presidentes cometeram esses supostos crimes e eu acho que por esse motivo a presidenta não merecia sair.

Nós sabemos que o Brasil está infestado de corruptos, e que na Câmara Federal 90% dos deputados são corruptos. O Senado Federal também tem vários corruptos, e não teve nenhum ato de corrupção comprovado para a presidenta Dilma.

Eu vejo que o Michel Temer, o PMDB, e o Eduardo Cunha arquitetaram muito bem esse golpe e tudo indica que a presidenta saia. Espero que ela saia durante os seis meses, e na votação final do senado, eles não consigam 54 votos. Que é algo difícil, não é fácil para eles obterem os 54 votos.

JGB — Você fala depois de seis meses, você acredita que esse relatório de admissibilidade do processo de impeachment, que foi votado na comissão, será aprovado no plenário do Senado?

Fernando Torres — Eu acredito que o relatório passa na íntegra. Ele foi feito por um relator [Antonio Anastaisa – PSDB] que é um senador que cometeu as pedaladas fiscais lá do Estado dele [Minas Gerais].

JGB — Você acredita que a presidente Rousseff será afastada. Então ela vai passar seis meses fora do poder?

Fernando Torres – Eu acredito que ela vai ser afastada, que ela fique de cinco a seis meses fora da presidência da República. Estou torcendo que o Michel Temer não segure os 54 votos.

Em Brasília está tendo algumas insatisfações, tem alguns parlamentares, eu acredito que até nosso partido [PSD] proque a maioria apoiou Michel Temer, apresentam insatisfação. Para o PSD foi acordado com Michel Temer o ministério das Cidades, e eu soube que foi ofertado o Ministério das Comunicações. Eu não faço parte desse compromisso com o Michel Temer, tanto eu como outros sete deputados, no total foram oito deputados que votaram contra o processo impeachment.

Eu não conversei com o Gilberto Kassab [ex-ministro, presidente nacional do PSD], não sei a opinião dele, mas eu vejo a maioria dos deputados que votaram a favor do Impeachment insatisfeitos com o não cumprimento da palavra do atual vice-presidente, e talvez até do futuro presidente provisório o Michel Temer.

JGB — Como o deputado explica que 367 deputados votaram favoráveis ao relatório de admissibilidade do impeachment, seguindo praticamente a liderança do presidente da Câmara Feederal, Eduardo Cunha?

Só para pontuar, com a decisão recente do Supremo Tribunal Federal de afastar Eduardo Cunha existe um juízo prévio de que ele é um criminoso. Então, nós temos aquela votação do Impeachment que a a imprensa internacional e setores da imprensa progressistas nacional consideraram um dos piores momentos da história da Câmara Federal. Observe que ao invés de votar em nome da sociedade, votam em nome do filho, da mulher, alguns até citaram que votavam em nome de torturadores.

Fernando Dantas Torres — Teve um deputado que queria colocar o filho para votar. Eles transformaram em uma chacota.

Eu considero que 10% dos deputados federais, são cerca de 50 parlamentares, honestos, sérios, pessoas que está defendendo o interesse do cidadão, defendendo o ser humano, defendendo uma vida melhor para o país. Mas, tem mais de 400 deputados que está defendendo interesse próprio, está defendendo os interesses de Eduardo Cunha.

JGB — Existe uma tese, é uma informação que circula nos bastidores, de que não apenas o Eduardo Cunha, mas setores da economia nacional ligadas a Federação da Indústria de São Paulo (FIESP) teria dado dinheiro aos deputados para poder votar contra a Dilma Rousseff e a favor do relatório. Como você avalia esse tipo de comentário?

Fernando Torres — Eu ouvi comentário desse tipo. Mas eu não acredito que a FIESP, uma instituição reconhecida, iria se envolver com isso. Não estou defendendo a FIESP porque eu nem faço parte, mas eu acho que a FIESP não iria se envolver em um momento tão conturbado de uma saída de uma presidenta, ou continuidade. Eles não iriam fazer pagamentos escondidos a deputados, eu não acredito nisso. Ocorreram essas conversas em Brasília, na Câmara Federal. Alguns deputados desconfiaram disso. Mas eu quero não acreditar que uma instituição como a FIESP esteja envolvida nisso. Essa é minha opinião. Porque se a FIESP se envolveu com isso, o Brasil chegou ao fundo do poço. O Brasil chegou ao pior momento.

JGB — Mas, em Brasília, ouviu comentários nesse sentido de colegas?

Fernando Torres — Ouvi em um bate papo como esse que a gente está tendo agora. Comentários desse tipo, não alguém que prove que fulano de tal deu a fulano de tal.

JGB — O deputado José Carlos Araújo é o presidente da comissão de ética da Câmara Federal. Ele está conduzindo um processo contra o deputado Eduardo Cunha. Durante entrevista coletiva, ocorrida no município de Anguera, ele insinuou que o deputado Eduardo Cunha tinha 100 deputados ligados a ele, e que financiava esses deputados. Como analisa esse comentário?

Fernando Torres — O José Carlos Araújo já foi do PSD, hoje ele está no PR da Bahia. É um excelente deputado, ele é experiente como deputado e também na vida pessoal. Ele tem mais de 70 anos, mas ele gosta tanto de trabalhar que ele não vai parar nesse mandato nem no próximo, ele vai tentar uma próxima eleição e ganha porque ele é um bom deputado atuante, sério e ele é exemplo na Câmara Federal

Sobre a pergunta, eu acho que se ele falou que se na Câmara tem 100 deputados ligados a Cunha. Deve ter uma quantidade, a gente não tem como numerar. Se ele disse que tem 100 deputados que Eduardo Cunha financiou, ele conhece, pois ele é antigo na Câmara e a palavra dele tem valor. Mas eu não posso dizer que deputado tal foi financiado por Eduardo Cunha. Até porque esse tipo de financiamento é feito na calada da noite, é feito no caixa dois, e eu não faço parte disso.

JGB — O senhor ouviu comentário nesse sentido?

Fernando Torres — Você está muito bem informado. Esses comentários existem sim, em Brasília. Agora, tudo a gente acredita, e tudo torce para que não aconteça. A gente também fica com um pé na frente e o outro atrás acreditando. Porque como o Eduardo Cunha, um corrupto que o Ministério Público já provou que é corrupto, com dinheiro fora do país, como ele chegou a ser presidente da Câmara? É porque ele é bonito? É porque ele conhece o regimento? Não, não é por isso. É porque deve ter pessoas iguais a ele que acreditam que aquela forma dele agir está correta.

JGB — Deputado, o senhor lamentavelmente faz parte de uma câmara federal pela primeira vez na história do Brasil e de forma muito pouco comum tem um presidente afastado por corrupção que foi Eduardo Cunha, em decisão tomada pelo Supremo Tribunal Federal, primeiro monocraticamente pelo Teori Zavasckique e depois pelo colegiado, de forma unânime, ou seja, não há uma dúvida de que há graves indícios de corrupção, ele não foi condenado, mas é difícil acreditar que algum que ele seja absorvido depois de terem analisado tão demoradamente as acusações que só pesam contra ele.

Então como o senhor analisa essa situação no ponto de vista histórico de ter um presidente que é afastado pelo Supremo Tribunal Federal de ter uma Câmara Federal que não repudiou desde o primeiro momento no seu conjunto obviamente, eu não estou aqui “fulanizando”, como diz o ministro do Supremo, Barroso, mas no conjunto o que nós percebemos é uma defesa de deputados da continuidade inclusive do Deputado Eduardo Cunha como presidente da Câmara. Como o senhor avalia esse contexto?

Fernando Torres — É uma vergonha nacional aquilo ali, eu acho que o país passou pelas Diretas já, passamos pelo Impeachment de Collor e o Brasil tem amadurecido muito durante esses longos anos de lá para cá, a diretas já tem 31 anos e o Brasil amadureceu bastante e vai amadurecer ainda mais, eu acho que é uma vergonha um presidente daquele como Eduardo Cunha.

Quando eu votei a favor contra o Impeachment da presidenta Dilma no meu discurso eu falei com ele que esperava que o conselho de ética mande para a Câmara o processo dele, e eu vou voltar sim a cassação dele e ele já sabe qual o meu voto, antecipei meu voto em relação a cassação de Eduardo Cunha e eu acho que a democracia é isso.

JGB — O senhor não se tão constrangido por ter tantos colegas deputados que defendem Eduardo Cunha?

Fernando Torres — Na Câmara Federal, cada deputado tem a liberdade de escolha, cada um é líder de si mesmo. Eu tento convencer, mas eu não tenho poder de mudar opinião desses que são do lado de Eduardo Cunha. Cada um tem sua opinião, eu tenho minha opinião, cada um dos deputados tem a própria opinião e a Câmara dos Deputados é a cara do Brasil, é o Brasil de hoje. É o médico, o borracheiro, é o empresário de hoje e se lá tem uma boa parte de corruptos eu acho que em uma boa parte de todos os segmentos da sociedade também têm corruptos.

JGB — O que esperar, na economia, em um provável futuro governo Michel Temer?

Fernando Torres — Eu espero que ele não continue presidente. Não porque ele vai ser um mau presidente, ou um bom presidente. Não por isso. Mas, porque ele não foi eleito pelo povo. Espero que ele fique cinco, seis meses e a presidenta Dilma Rousseff volte, eu torço por isso. Porque quem teve 54 milhões dos votos foi Dilma. Se Dilma é ruim, não administra bem, tem que esperar chegar o dia da próxima eleição e o povo tirar pelo voto. Democracia é isso.Não é colocar no poder um presidente que quase não se elege Deputado Federal pelo estado de São Paulo que é o Michel Temer.

Mas se acontecer na última votação do Senado, e a presidenta Dilma concretizar a saída, eu vou torcer para que ele faça um bom governo. Vou procurar até ajudar de alguma forma, com projetos que seja bom para o país.

JGB — Recentemente, nós publicamos uma matéria pontuando que Michel Temer foi condenado pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo, e que a condenação o torna inelegível.

Fernando Torres – Mas ele já foi diplomado como vice-presidente da República.

JGB — Esse é o aspecto, ele está inelegível, ele não pode concorrer a um novo pleito eleitoral. Mas existe outro, na decisão do Supremo Tribunal Federal e no relatório do ministro Teori Zavascki sobre o afastamento de Eduardo Cunha, foi citado os R$ 5 milhões que possivelmente Eduardo Cunha deu a Michel Temer. Como essa informação?

Fernando Torres — É complicado, é uma questão difícil de analisar, essa pergunta é muito inteligente e eu vou resumir. Como tiram uma presidenta que não está envolvida em nada disso, apenas devido a possível “pedalada fiscal” que a maioria dos governantes fazem, e os presidentes que passaram por lá fizeram, e colocam o vice-presidente Michel Temer, que segundo o STF e o Ministério Púbico está envolvido em corrupção? Quer dizer, o prêmio da presidenta em não ser corrupta é sair, e o prêmio do vice-presidente de estar envolvido, segundo o STF, em atos de corrupção é virar presidente da República. Eu acho que era para ser o inverso. Mas a análise é essa, a gente tem que falar dessa forma e não comentar mais nada.

JGB – Como representante da vontade popular, qual o sentimento nesse contexto?

Fernando Torres – Sentimento de revolta. Como a maioria dos 54 milhões pessoas que votaram em Dilma Rousseff. Nosso sentimento é de revolta, exatamente pelo que falei anteriormente, em sair uma mulher que não cometeu crime nenhum, e entrar um vice-presidente, que segundo o STF cometeu crime.

JGB – A crise econômica nacional é resultado de que fatores, além dos erros do governo federal?

Fernando Torres – Na Câmara Federal teve as chamadas “pautas bomba”, que eram projetos que foram colocados em pauta para atrapalhar o governo federal. Isso ocorreu sob a liderança de Eduardo Cunha, de setores do PMDB, e por parte de Michel Temer. Hoje, nós sabemos que desde aquela época o vice-presidente estava por de trás disso, ficou claro agora, e isso prejudicou o país demais.

Alguns empresários ficaram contra a presidente Dilma, mas não foi nem porque eles são contra ela, eles ficaram contra porque achavam que a Dilma estava atrapalhando o Brasil e fez a crise, que a crise veio devido a presidente Dilma. Esses empresários foram enganados.

JGB — Então o senhor avalia que parte dessa crise também é culpa de parte dos deputados reacionários, conduzidos por Eduardo Cunha?

Fernando Torres — Totalmente.

JGB — Nesse contexto de crise econômica, o senhor avalia que poderíamos estar em uma situação econômica melhor se a Câmara Federal tivesse contribuído?

Fernando Torres — Poderíamos estar em uma situação melhor se o Eduardo Cunha não colocasse a pauta bomba em prática. O Eduardo Cunha colocou o judiciário contra o governo, além de ter colocado vários segmentos contra o governo.

JGB — Qual a parcela de participação de Michel Temer nisso?

Fernando Torres — Eu não acreditava que Michel Temer teria alguma participação nesse processo. Mas, diante desse quadro, hoje, ficou claro em nível nacional que tudo foi orquestrado por Michel Temer, Eduardo Cunha e alguns membros de outros partidos que traíram a presidenta.

Sobre o autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto Oliveira da Silva (Carlos Augusto) é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF). Atua como jornalista e cientista social. Telefone: (75)98242-8000 | E-mail: diretor@jornalgrandebahia.com.br.