Editorial do New York Times: ‘Piorando a crise política do Brasil – Making Brazil’s Political Crisis Worse’

Editorial do New York Times ‘Piorando a crise política do Brasil – Making Brazil’s Political Crisis Worse’.

Editorial do New York Times ‘Piorando a crise política do Brasil – Making Brazil’s Political Crisis Worse’.

Editorial do jornal The New York Times (NYT), publicado no site, na quinta-feira (12/05/2016), e na versão impressa na sexta-feira, o veículo de comunicação estadunidense apresenta percepção crítica do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, avaliando que julgadores da presidente estão envolvidos em graves indícios de crime de corrupção, enquanto no tocante à presidente, não existe indícios de corrupção.

O NYT infere que a presidente está sendo defenestrada do poder por ter permitido que as investigações do Caso Lava Jato alcançasse a elite política do país. O jornal avalia, também, que “o Brasil está se recuperando da pior recessão desde 1930, e agora a crise política está a minar a fé na saúde da jovem democracia.”.

Confira o editorial ‘Piorando a crise política do Brasil – Making Brazil’s Political Crisis Worse’

Horas após senadores votaram esmagadoramente no julgamento por suposta trapaça financeira, o presidente do Brasil, Dilma Rousseff, denunciou a tentativa de impeachment como um golpe. “Eu posso ter cometido erros, mas eu nunca cometi crimes”, disse Dilma.

Isso é discutível, mas Dilma tem o direito de questionar os motivos e autoridade moral dos políticos que buscam derrubá-la. A presidente brasileira, que foi reeleita em 2014 para um mandato de quatro anos, tem sido uma política ruim e um líder abaixo das expectativas. Mas não há nenhuma evidência de que ela abusou do poder para obter ganhos pessoais, enquanto muitos dos políticos que orquestram a expulsão dela, têm sido implicados em um grande esquema de propina e outros escândalos.

O Supremo Tribunal do Brasil determinou na semana passada que Eduardo Cunha, o legislador veterano que levou o esforço para expulsar Rousseff, deixasse o cargo de presidente da Câmara Federal para ser julgado por acusações de corrupção. O vice-presidente Michel Temer, que assumiu o comando do país na quinta-feira, se tornou inelegível para concorrer a um cargo por oito anos, porque as autoridades eleitorais determinaram, recentemente, que ele violou os limites de financiamento de campanhas.

Dilma é acusado de usar dinheiro dos bancos nacionais para encobrir déficits orçamentários, uma tática outros líderes brasileiros têm utilizado no passado sem chamar muito escrutínio. Muitos suspeitam, no entanto, que o esforço para remover Dilma tem mais a ver com sua decisão de permitir que os procuradores da República avançassem com a investigação de corrupção na Petrobras, a companhia estatal de petróleo. O escândalo de corrupção, denominado Caso Lava Jato, atingiu mais de 40 políticos , incluindo líderes seniores no Partido dos Trabalhadores de Dilma.

Se o Senado se convencer da má conduta financeira de Dilma Rousseff – o que é provável, observando que 55 dos 81 senadores do Brasil votou pela abertura do processo de julgamento – os líderes políticos brasileiros estariam optando por mudar o poder da República à revelia da soberania do voto. Isso é indefensável.

O Brasil está se recuperando da pior recessão desde 1930, e agora a crise política está a minar a fé na saúde da jovem democracia. Para agravar esses problemas, o governo enfrenta o surto do vírus Zika, pouco antes do início dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro.

As recentes investigações de corrupção, que expuseram a elite governante podre do país, têm provocado a indignação do povo. Se o mandato de Dilma é interrompida, os brasileiros devem ser autorizados a eleger um novo líder prontamente. Uma nova eleição poderia ser realizada em breve, se o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que vem investigando alegações de que o dinheiro do escândalo Petrobras infiltrou-se na campanha de Dilma 2014, invalide a última vitória. Alternativamente, o Congresso Nacional poderia aprovar uma Lei convocando uma eleição antecipada.

Enquanto Dilma não conseguiu conduzir o país de forma eficaz, os senadores saboreando sua saída deve se lembrar que a presidente foi eleita duas vezes. O Partido dos Trabalhadores ainda tem apoio considerável, particularmente entre os milhões brasileiros que foram tirados da pobreza ao longo das últimas duas décadas.

Confiança em Dilma e seu partido pode ter mergulhado em uma espiral negativa nos últimos meses. Mas Dilma está prestes a pagar um preço desproporcionalmente alto para o erro administrativo, enquanto vários dos detratores mais ardentes são acusados de crimes mais flagrantes. Avalia-se que grande parte da ira que tem sido focada na presidente Rousseff será redirecionado para eles.

*Conselho Editorial The New York Times, 12 de maio de 2016.

*Uma versão deste editorial aparece na edição impressa do The New York Times, de 13 de maio de 2016, página A 26.

Sobre o autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto Oliveira da Silva (Carlos Augusto) é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF). Atua como jornalista e cientista social. Telefone: (75)98242-8000 | E-mail: diretor@jornalgrandebahia.com.br.