Deputado diz que relatoria poderá abranger outros trustes ligados ao deputado afastado Eduardo Cunha

Deputado Eduardo Cosentino da Cunha foi afastado do mandato e da presidência da Câmara Federal por determinação do STF, em decorrência de envolvimento no esquema de corrupção do Caso Lava Jato.

Deputado Eduardo Cosentino da Cunha foi afastado do mandato e da presidência da Câmara Federal por determinação do STF, em decorrência de envolvimento no esquema de corrupção do Caso Lava Jato.

O primeiro vice-presidente do Conselho de Ética da Câmara, Sandro Alex, questionou os argumentos apresentados por Eduardo Cunha (PMDB-RJ), de que os demais trustes (um tipo de contrato, um negócio jurídico, que só passa a funcionar quando é passada a propriedade e a posse sobre um bem para o truste), que não o Netherton, não fariam parte da natureza da representação para investigar o presidente afastado da Câmara.

Ao passar recursos para o truste, Cunha alegou ter deixado de ser o titular dos valores, por mais que originalmente os recursos tenham sido de propriedade do deputado.

Posteriormente, ele perguntou se Cunha gostaria de corrigir as informações apresentadas durante a CPI da Petrobras, de que não teria contas no exterior, e cobrou explicações sobre documentos apresentados pelo Ministério Público da Suíça, segundo os quais Cunha teria contas no exterior.

No início de sua exposição, Cunha havia dito que não responderia questões sobre trustes a ele relacionados, como Orion e Triumph. Recorrendo a notas taquigráficas obtidas durante a votação da admissibilidade do processo, Sandro Alex disse que o conselho está autorizado a investigar a origem desse dinheiro e que, portanto, os demais trustes podem constar no relatório a ser preparado pelo deputado Marcos Rogério (DEM-RO).

“Vou me ater aos fatos provados na admissibilidade. Em primeiro lugar, o que estamos avaliando é a existência de dinheiro no exterior. Em segundo, a origem lícita desse dinheiro. Esses são os aspectos que a população quer saber, porque [esse] truste [ao que parece, pelas palavras de Cunha] não tem dono, não é conta, não é investimento, não é patrimônio. É apenas uma bênção, uma expectativa divina”, disse Sandro Alex.

Em resposta, Cunha disse que o inciso ao qual as notas taquigráficas se referiam “foi afastado” e, portanto, não teria validade. “Mantenho na íntegra todo meu depoimento à CPI da Petrobras”, afirmou. De acordo com o deputado afastado, “a remessa do Ministério Público da Suíça não atribui a mim a conta bancária em questão”, acrescentou.

Anteriormente, Cunha havia dito que seus recursos tinham como origem atividades de comércio exterior feitas ainda na década de 1980. Levantando dois passaportes seus e dizendo que eles comprovariam a grande quantidade de viagens feitas em função dessas atividades, principalmente à África, Cunha informou que isso foi feito em uma época anterior a seu ingresso na vida pública.

Netrherton

Segundo ele, esta é a origem do dinheiro do truste na Suíça. “A década de 80 era um período de inflação, com dificuldades de muitas naturezas. Era outro Brasil. Foi esse o patrimônio doado posteriormente ao truste. Eu não detinha vida pública naquele momento.”

Reiteradas vezes Cunha se recusou a responder sobre os trustes Orion e Triumph, por não serem o objeto da representação apresentada no conselho. Portanto, só responderia os relacionados ao truste Netrherton. “Qualquer outra natureza que não seja a da representação já teve resposta de natureza pública por mim ou por meu advogado”, concluiu Eduardo Cunha.

Deputados batem boca em depoimento de Cunha no Conselho de Ética

A reunião do Conselho de Ética voltada para colher o depoimento do presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) foi marcada por tumulto e gritaria envolvendo aliados de Cunha. Em determinado momento, a reunião chegou a ser interrompida, após um bate-boca iniciado pelo deputado Wladimir Costa (SD-PA), aliado de Cunha, ter atacado o deputado Julio Delgado (PSB-MG).

Costa, que é do mesmo partido do deputado Paulo da Força (SD-SP), defendeu Cunha, afirmando que não estava provado que o presidente afastado da Câmara mentiu na CPI da Petrobras sobre ter contas na Suíça, e que se o conselho tivesse que cassar Cunha também teria que cassar o mandato de Delgado (PSB-MG).

“Se for tratar de mentira, o nobre e atuante parlamentar, falando que não recebeu dinheiro da UTC, que não recebeu dinheiro da Lava Jato”, disse Costa, que acusou Delgado de ter recebido R$ 100 mil reais, com base na delação do dono da empresa, Ricardo Pessoa. “”Se for realmente ter que cassar o Eduardo Cunha por mentir em CPI, vamos ter que cassar uma pessoa que eu não quero, eu antecipo”, emendou.

Houve tumulto, e o presidente do colegiado, José Carlos Araújo, pediu ordem e disse que o representado no colegiado é Cunha, e não Delgado. “Que moral o senhor vai ter para cobrar de alguém? Se eu fosse o senhor, alegava a sua suspeição, saía logo daqui para contratar um advogado”, continuou Costa. ”Olhe a sua trajetória aqui, quem é vossa excelência, é um absurdo ter que ouvir isso”, rebateu Delgado.

Após outros deputados terem questionado Cunha, Delgado tomou a palavra e se defendeu. “Eu não recebi dinheiro da UTC, reafirmo isso aqui. Não recebi dinheiro na minha conta”, disse, mostrando as prestação de contas de sua campanha.

O deputado lembrou que a denúncia foi alvo de investigação da Polícia Federal e do Ministério Público, que pediu o arquivamento da investigação na última semana. “Fui alvo de uma investigação em que o titular foi o Ministério Público e pelo procurador, que acabaram pedindo o seu arquivamento”, disse. “É totalmente infundada essa tentativa de nos constranger a respeito de nossa conduta”, concluiu.

Antes, outro aliado de Cunha, o deputado Carlos Marun (PMDB-MS) também causou tumulto, após ter criticado os questionamentos do deputado Betinho Gomes (PSDB-PE). O deputado questionou Cunha sobre o fato de o Ministério Público da Suíça ter aberto investigação contra Cunha. “Diante do que informou o MP da Suíça, de que Cunha e sua mulher são donos de quatro contas no banco Julius Baer, não resta dúvida de que elas deveriam ser declaradas [no Imposto de Renda]”, disse.

O deputado Marun também disse que Cunha mentiu na CPI ao afirmar não conhecer o empresário, Fernando Soares, o baiano. Em depoimento no Conselho de Ética, Baiano disse ter entregue R$ 4 milhões no escritório de Cunha, fruto de propina envolvendo o esquema investigado na operação Lava Jato. “Ele [Baiano] fala claramente que entregou recursos de operação feitas na Petrobras, e que estão sendo investigados na Lava Jato”, disse Gomes. “Para mim, isso deixa claro que fica passível a conduta de falta de decoro parlamentar”, acrescentou.

A reunião foi interrompida por Marun, que contestou a fala de Gomes. “Eu não tenho a obrigação de escutar algo que eu não considero verdade”, disse. “Tem sim, deputado, o senhor tem que escutar com respeito o que os outros deputados falam”, rebateu Gomes.

Logo no começo da sessão, que começou às 9h37, o deputado Laerte Bessa (PR-DF) e Ivan Valente (PSOL-SP) trocaram ofensas. Apesar do incidente, a sessão continuou. Posteriormente, a assessoria de Ivan Valente disse que o deputado pediu ao relator esclarecimentos técnicos sobre truste quando foi xingado pelo deputado Laerte Bessa. Em resposta, Ivan Valente se dirigiu ao deputado com um “cala a boca, imbecil”. O depoimento de Cunha segue no Conselho de Ética.

Sobre o autor

Redação
O Jornal Grande Bahia é um portal de notícias com sede em Feira de Santana. Para enviar informações, fazer denúncias ou comunicar erros do jornal mantenha contato através do e-mail: editor@jornalgrandebahia.com.br