Ayahuasca e Projeto ACUDA, cooperação para ressocialização de presidiários em Rondônia

Rogério Araújo, Diretor-Geral da Acuda

Rogério Araújo, Diretor-Geral da Acuda

Em meio às intensas psicoterapias desenvolvidas na Acuda, o presidente Luiz Marques, na condição de discípulo do psiquiatra chileno Claudio Naranjo — renomado pesquisador da Ayahuasca — teve a ideia de incorporar ao processo terapêutico de ressocialização dos presidiários o uso desta bebida sacramental.

Rogério Souza Araújo, 46 anos, nasceu em Marabá, Estado do Pará. Quando muito jovem exerceu a atividade de garimpeiro no Norte do Mato Grosso e sul do Pará. Migrou para Rondônia onde se envolveu com o tráfico de drogas. Foi preso e condenado a 15 anos de reclusão, dos quais cumpriu três anos e meio em regime fechado no violento Complexo Penitenciário de Rondônia.

Na cadeia, Rogério conheceu o diretor de teatro Marcelo Felice, e isto mudaria a sua vida. Felice selecionava atores entre os presidiários do sistema carcerário para atuarem na Peça “Bizarrus”, uma proposta de desenvolvimento de trabalho de ressocialização de prisioneiros através da arte e de processos terapêuticos, que ele denominou de “terapia de autorresponsabilização”.

A ideia e o surgimento da peça teatral Bizarrus se deu quando o diretor Marcelo Felice visitou o Presídio Ênio Pinheiro, no Complexo Penitenciário de Porto Velho – Rondônia, em 1998, para conhecer a escola da prisão e desenvolver trabalho de expressão corporal com os presidiários. Depõe Marcelo:

— Um dia pedi para que cada um redigisse as histórias mais marcantes da vida deles e me trouxeram um arsenal. Nasceu a peça e o roteiro da peça.

O sucesso do espetáculo foi imediato e duradouro, devido a cenas fortes e marcantes expressas em diálogos realistas, que criava um clima de insuportável tensão no palco, como neste depoimento de um presidiário. Ele grita:

— Aos 11 anos matei um cara. Me senti um rei. Toda a galera tinha medo de mim.

O rapaz narra que matou o colega de 14 anos de quem apanhava com frequência durante os jogos no campinho de futebol do bairro. E continua:

— Eu falei para minha mãe: da próxima vez que ele me bater, eu vou matar ele. Então minha mãe se assustou e disse: ‘para de besteira, menino! Vai se aquietar’.

Momentos perturbadores como este, da peça Bizarrus, fazem parte da proposta de “terapia de autorresponsabilização”.

— Eles expõem o mal que fizeram a sociedade. Eles jamais podem esquecer isso, que devem às famílias que feriram, inclusive a família deles. Comenta o idealizador da peça, Marcelo Felice.

Voltando a Rogério Araújo: ele se apresentou para fazer o teste de recrutamento de atores, pois via ali uma oportunidade de tentar a fuga do cárcere — ele e todos os demais candidatos. Afinal de contas, ser “ator de teatro” depunha contra a masculinidade dos prisioneiros, encarcerados num ambiente machista e homofóbico.

Depõe Rogério:

— Minha primeira motivação para participar da peça teatral Bizarrus foi de sair do regime fechado e tentar a fuga, esperar surgir a oportunidade de fuga.

Depoimentos quase unânimes dos participantes das seleções feitas para o espetáculo Bizarrus falam da possibilidade de fuga da penitenciária.

— Todos presos têm a ideia de fuga. Eu tinha uma pena muito alta, 15 anos. Vir para o espetáculo dava essa oportunidade, eu pensava.

Se surgiu a oportunidade de Rogério Araújo fugir da cadeia não sabemos… Sabemos sim que ali se apresentou a possibilidade dele mudar radicalmente de vida e de ressocialização, pois a ideia de fuga da prisão foi arrefecendo:

— Dentro do processo terapêutico nas oficinas, ensaios, apresentações… senti mudanças internas em mim. Comecei a frequentar a psicoterapia, massoteraria, reiki e outras terapias. Era feito toda uma preparação com os presidiários que vinham para o espetáculo. Eu fui fisgado pelo processo terapêutico de autoconsciência.

É quando se revela a Rogério a sua vocação de instrutor e educador:

— Percebi a possibilidade de fazer esse trabalho com outros prisioneiros. Estender este processo terapêutico a outros prisioneiros.

Após ser selecionado para a peça Bizarrus como voluntário, Rogério foi se destacando com o talento de educador. Se tornou coordenador de projetos educacionais e Instrutor de adolescentes e jovens em conflito com a lei, desenvolvendo e ensinando atividades de marcenaria, confecção de brinquedos pedagógicos, promovendo debates com adolescentes sobre a realidade dos presídios e dos prisioneiros, atividades com pacientes psiquiátricos etc.

A peça Bizarrus viajou e foi apresentada em diversas partes do Brasil, sempre em eventos importantes. O detalhe é que os presidiários viajavam livres, sem escolta, autorizados pelos juízes da Vara de Execuções Penais (VEP), e a experiência foi plenamente exitosa.

Recapitulando: Rogério Souza Araújo foi condenado a 15 anos de prisão, cumpriu 3,5 anos em regime fechado e o restante em liberdade condicional. Hoje é um homem livre, no gozo pleno da cidadania. Não deve mais nada a justiça.

Rogério tem três filhos do seu primeiro casamento. Conheceu a atual companheira, Márcia, já fora da prisão. Com ela está casado a treze anos. Constituem uma linda família com a jovem Vitória, filha de sua esposa.

Após exercer atividades de instrutor e educador em diversas instituições e projetos, Rogério Araújo foi convidado a participar da ONG Acuda, da qual é o atual Diretor-Geral.

Luiz Marques e a ONG Acuda

Uma importante personalidade rondoniense se insere no projeto de ressocialização de presidiários e este trabalho frutifica. É quando o terapeuta, orador espírita e diretor do Sest Senat sr. Luiz Marques abraça a causa de reabilitação de prisioneiros através da arte e dos processos terapêuticos, e junta esforços ao diretor teatral Marcelo Felice.

Do empenho e dedicação de Luiz Marques é criada, no ano de 2001 a Acuda (Associação Cultural e de Desenvolvimento do Apenado e Egresso).

A Acuda é uma ONG (Organização Não-Governamental) que há mais de 15 anos tem como objetivo a reabilitação de presidiários e a sua reinserção na sociedade, durante e após o cumprimento da pena.

A Acuda tem parceria com a SEJUS – Secretaria de Estado de Justiça de Rondônia, e objetiva atender detentos do regime fechado e semiabeto que pertencem ao Complexo Penitenciário de Porto Velho, capital de Rondônia.

Este que vos escreve visitou a sede da Acuda, situada na Estrada da Penal, km 5, ao lado do presidio Ênio Pinheiro, e foi muito bem ciceroneado naquela profícua tarde de março de 2016 pelo presidente Luiz Marques e o diretor-geral Rogério Souza Araújo.

A Acuda desenvolve atividades de reabilitação de apenados do regime fechado e semiaberto. São traficantes de drogas, estupradores, pedófilos e homicidas. Os detentos participam de diversas atividades como laborterapia e terapias alternativas tipo massagem ayurvédica, banho de argila, yoga, reiki, meditação, eneagrama, teatro gestáltico, programação neurolingüística… entre outras atividades.

Em 15 anos de projeto, apenas seis apenados tentaram fugir. Número muitas vezes inferior do que as tentativas de fuga de dentro dos presídios.

A laborterapia, ou terapia ocupacional, é a tônica das atividades diurnas na sede da Acuda, intercalada com as terapias curativas enumeradas acima. 96 presidiários do regime fechado e semiaberto ocupam produtivamente o seu tempo, envolvidos nestas atividades, longe do ócio que induz à violência nas tensas relações interpessoais dentro dos presídios.

As atividades laborais que os presidiários desenvolvem se dão em oficinas de tapeçaria, tecelagem, ateliê, pintura e marcenaria; mecânica de automóveis e de motos; cozinha e trabalho na granja, horta e jardim internos.

Há uma loja para venda das mercadorias ali produzidas, à direita do portão de entrada. Todavia a maior parte da produção é comercializada em feiras e mercados de Rondônia.

Promotores, juízes e organizações de Defesa dos Direitos Humanos apoiam e colaboram com o Projeto Acuda, atestando a sua credibilidade e eficácia. Reconhecem a incapacidade do Estado na função de reeducar e reinserir o apenado e o egresso do sistema penal.

Muitos egressos do sistema presidiário se tornaram artesãos, mecânicos, marceneiros e outras profissões, com a capacitação profissional adquirida nas oficinas da Acuda.

Saldo positivo do Projeto Acuda, reconhecido pelo Poder Judiciária de Rondônia, foi a reaproximação com suas famílias dos apenados e egressos e a reinserção na sociedade através do mercado de trabalho.

Há casos de concursados para o serviço público, como um egresso que se tornou agente penitenciário, superando enormes dificuldades, inclusive sendo obrigado a concluir o ensino médio e assim se habilitar ao concurso. Depois, este mesmo egresso concluiu o curso de Direito e atualmente exerce função diretiva no sistema penitenciário de Rondônia.

Entretanto, o saldo positivo de mudança pessoal para futura ressocialização, na perspectiva dos  pedagogos e profissionais de saúde voluntários da Acuda, é creditado principalmente ao poder de transformação das terapias ali desenvolvidas.

Depõe a pedagoga e terapeuta Leide Perea:

— A maioria dos prisioneiros vêm a Acuda procurando sair do presídio durante o dia, em busca de um lugar mais bonito, mais confortável, onde possam trabalhar para ganhar algum dinheiro para mandar para suas famílias. Mas isso é apenas a isca para o trabalho terapêutico

Segundo a pedagoga, o objetivo é a transformação interna do prisioneiro, construção de uma vida nova, através de uma “overdose terapêutica”.

Na visita que fizemos a Acuda naquela tarde de inverno amazônico, nos chamou a atenção as atividades laborais e terapêuticas sendo desenvolvidas lado a lado, paralelamente. Por exemplo: saíamos de uma oficina mecânica e entravamos numa sala de aplicação de reiki; entravamos numa oficina de tecelagem e, logo depois, numa sala de meditação e yoga.

Isto porque as turmas de trabalho nas oficinas e os grupos terapêuticos se revezam e se sucedem ao longo do dia. Atividades lúdicas e culturais — como apresentações musicais — também são realizadas. Nas sextas-feiras acontecem cultos religiosos ecumênicos ou de denominações religiosas diversas, que se intercalam na programação mensal da Acuda.

Rogério Araújo e a Ayahuasca

Rogério Araújo conheceu a Ayahuasca numa sessão da União do Vegetal (UDV) em Porto Velho, Rondônia, no ano de 2000, e esta primeira experiência foi “desesperadora”, segundo ele. A luz dessa bebida sagrada se apresentou disciplinadora, ao fazê-lo refletir sobre os crimes até então praticados. Nesse primeiro contato com a Ayahuasca levou uma depuradora “peia” (surra, castigo).

— Que quereis? Irei ter convosco com vara ou com amor e espírito de mansidão? (1 Coríntios 4:21).

A Ayahuasca, nome quéchua que se dá à bebida, é usada desde tempos imemoriais por comunidades indígenas da Amazônia Ocidental. É resultante do cozimento do cipó Jagube/Mariri (banisteriopsis caapi) e da folha Rainha/Chacrona (psychotria viridis).

No Brasil acontece o uso indígena da Ayahuasca e também se organizaram cultos cristãos: as religiões ayahuasqueiras do Santo Daime, Barquinha e União do Vegetal. Há ainda um fenômeno cultural recente denominado de neoayahuasqueiro. O uso religioso desta bebida é garantido e assegurado pelo Estado e governo da República Federativa do Brasil.

A Ayahuasca é usada para fins de desenvolvimento pessoal e autoconhecimento. Pode ser que na experiência vivida nos rituais de Ayahuasca se apresentem os efeitos não-desejados da bebida, porém que são partes constitutivas do seu uso dirigido e controlado. É a “peia”.

— Não achei bom no primeiro momento… foi ruim, experiência desesperadora, pensamentos ruins, tive sensação de morte…

Mesmo levando “peia” Rogério repetiu a experiência. Agora na Doutrina do Santo Daime, em Porto Velho e depois no Centro Divina Luz, da Madrinha Conceição, em Brasília (2002).

Nos anos seguintes, Rogério frequentou centros ayahuasqueiros como visitante, na média de duas vezes ao ano:

— Eu achava que a Ayahuasca trazia muitas informações… precisava de tempo para processar.

Bem… em meio as intensas psicoterapias desenvolvidas na Acuda, o presidente Luiz Marques, na condição de discípulo do psiquiatra chileno Claudio Naranjo — renomado pesquisador da Ayahuasca — teve a ideia de incorporar ao processo terapêutico de ressocialização dos apenados e egressos o uso desta bebida sacramental.

Em anos recentes, a Ayahuasca despertou a atenção e o interesse de pesquisadores da área de saúde e, no caso brasileiro, existem instituições universitárias com projetos de pesquisa em desenvolvimento, investigando o potencial e as possibilidades de uso psiquiátrico e terapêutico da beberagem ou dos seus princípios ativos.

Responsavelmente é autorizado no Brasil o uso religioso da Ayahuasca. O Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad), órgão do Ministério da Justiça, publicou no Diário Oficial da União, em 2010, resolução regulamentando o uso religioso da Ayahuasca.

Sobre o uso terapêutico da Ayahuasca a situação é a seguinte: apesar de não estar regulamentado, também não parece haver proibição ou disposição das instituições governamentais de interferir em tais práticas.

Todavia, sabedor desta limitação e dificuldade do uso terapêutico da Ayahuasca, Luiz Marques foi a procura de instituições religiosas ayahuasqueiras que pudessem ser parceiras da ONG Acuda na distribuição de Ayahuasca para os presidiários atendidos pela Instituição.

Fala Rogério Araújo:

— Eu e Luiz Marques fomos a alguns centros de distribuição de Ayahuasca aqui em Porto Velho, apresentávamos nosso desejo e fazíamos o pedido de cooperação e parceria. Todos achavam bonito, mas não abraçavam a causa do prisioneiro. Talvez considerassem uma causa perdida… Aliás, se a própria família do prisioneiro não confia nele… imagine os outros…

Até quando, em 2012, Luiz Marques e Rogério Araújo foram conhecer a Barquinha de Ji-Paraná (Rondônia) e seu presidente, o sr. Edilsom Fernandes da Silva.

Luiz Marques fez então a pergunta que marcaria indelevelmente a história das duas instituições:

— O senhor gostaria de nos ajudar? Permitiria que eu trouxesse um ou outro apenado aqui, para beber Ayahuasca e assistir o trabalho?

Este primeiro contato evoluiu para um convênio entre as duas organizações — Acuda e ‘Lar de Frei Manuel’ (Barquinha). Sobre esta colaboração interinstitucional, assim como as relações estabelecidas entre seus membros e análise de resultados, escrevi esclarecedor artigo, disponível em:

http://www.jornalgrandebahia.com.br/2016/02/uso-da-ayahuasca-para-a-reabilitacao-de-presidiarios-no-lar-de-frei-manuel-em-rondonia/

A Casa de Jesus e Lar de Frei Manuel – a Barquinha de Ji-Paraná

O ‘Centro de Regeneração Espiritual Casa de Jesus e Lar de Frei Manuel’ é uma instituição filantrópica sem fins lucrativos, juridicamente constituído, que pratica a Doutrina Espírita Cristã denominada Barquinha, fundada por Mestre Daniel Pereira de Mattos.

Nas atividades litúrgicas do Lar de Frei Manuel é ingerida a bebida de poder inacreditável denominada Daime (Ayahuasca), que é central para as cerimônias religiosas desta linha espiritual.

A Barquinha de Ji-Paraná (Rondônia) foi autorizada e consagrada pelo Velho Pastor Frei Manuel, e funciona ininterruptamente desde o ano de 1991, prestando obras de caridade em benefício dos irmãos necessitados, seguindo o lema do seu mentor: “fazer o bem sem olhar a quem”.

Esta instituição ayahuasqueira está sediada na aprazível Chácara Divina Luz, zona rural de Ji-Paraná (início da Estrada RO-135, saída para Nova Londrina) e é bastante conhecida e respeitada na sociedade local.

Pois foi nesta linda e agradável chácara que se erigiu o sagrado templo para as celebrações litúrgicas desta Casa Espírita.

Uma singularidade da linha espiritual denominada Barquinha é que ela é, ao mesmo tempo, Igreja, Escola, Hospital e Quartel dos santos exércitos de Jesus.

Vejamos:

  1. Igreja

O Lar de Frei Manuel é uma Igreja porque ali se congrega a comunidade evangélica do Nosso Salvador, confiante nas promessas de Jesus Cristo:

— Onde se reunirem dois ou três em meu Nome, ali Eu estarei no meio deles (Mateus 18:20).

O templo físico do Lar de Frei Manuel é uma estrutura arquitetônica dedicada ao serviço religioso. Um lugar sagrado. Porém, são os cânticos, as preces e os bons pensamentos dos devotos que o sacraliza.

Em sentido figurado, o templo (Igreja) é a habitação de Deus sobre a terra.

  1. Escola

Esta Casa Espírita é uma Escola porque ali o devoto ouve e guarda, no fundo do coração, as palavras sagradas cantadas em lindos salmos, melodiosas canções. Doutrina transmitida através dos hinos — valsas-serenatas, marchas e outros ritmos que embelezam os cânticos de louvor e instruções morais entoados.

É uma Escola Espiritual porque se aprende com o Daime, bebida de poder inacreditável, planta mestra, professor dos professores.

A Barquinha é uma Doutrina de Cristianismo Exotérico e Cristianismo Esotérico, sendo assim, esclarece Edilsom Fernandes da Silva, presidente da ‘Casa de Jesus e Lar de Frei Manuel’:

— Esta Casa é uma Escola de Ciências Ocultas. Aqui é uma Barquinha ou Arquinha onde as espécies culturais são muito bem-vindas. Dedicada a caridade em muitos níveis, acreditamos nos processos terapêuticos e outras aplicações do conhecimento para o fortalecimento da amplitude consciencional e consequentemente do conhecimento espiritual.

      3. Hospital

Esta Casa de Jesus e da Virgem da Conceição é também um Pronto Socorro Espiritual (Hospital), pronto a receber todos que chegar; atender os doentes — encarnados e desencarnados — que vêm em busca de um conforto, uma cura para os males físicos e espirituais.

  1. Quartel

O participante que decide permanecer neste navio-escola e navio-hospital, trabalhando em obras de caridade, ingressa como soldado dos Exércitos de Jesus — do Céu, da Terra e do Mar — recebe o Símbolo de Salomão (Hexagrama) e assume o compromisso de servir neste Quartel como marinheiro de luz no Barco Santa Cruz; e a Santa Cruz Bendita se torna a arma de defesa de quem decide assumir esta Missão como sua religião, no batalhão sob o comando de Mestre Daniel.

Assim explanou a Preta Velha Vovó Maria da Luz:

— Esta Igreja é um Hospital porque somos todos doentes. Escola porque temos muito a aprender. Quartel porque somos preparados para fazer parte dos Santos Exércitos de Jesus.

(Mensagem transmitida num Trabalho de Instrução, através do aparelho do irmão amigo Ribamar Frota, dirigente de uma casa-irmã, a Barquinha de Fortaleza – Ceará).

O convênio entre a Acuda e o Lar de Frei Manuel

Estreitaram-se os contatos entre a Acuda e a Barquinha de Ji-Paraná, entre Luiz Marques e Edilsom Fernandes. Luiz e Rogério passam a frequentar o Centro Espírita regularmente, aos sábados, e sempre são muito bem recebidos.

É realizado o convênio. Edilsom Fernandes, chamado carinhosamente de Fernando por seus amigos, afirma que “foi a Doutrina Cristã que motivou esse convênio com a Acuda”.

— Esta é uma Casa cristã e a Doutrina não foi feita para os sãos e sim os necessitados. Jesus aceitou os gentios e ele veio para os criminosos. Este é um Centro de Regeneração, de recuperação. Imitamos a trajetória de Cristo. Ser apenado é uma condição temporária. Ele é apenado hoje e amanhã pode ser livre.

Os diretores e coordenadores de projetos da Acuda passaram a frequentar o lugar. Além dos dois já citados, Pedro Lima Hurtado (Coordenador Terapêutico) Romualdo Tristão e Olívio de Andrade. Depois, começaram a vir os prisioneiros do regime fechado ou semiaberto.

Com autorização do Juiz Corregedor dos Presídios, pequenos grupos e, posteriormente, de 10 a 20 apenados passaram a frequentar as cerimônias religiosas uma vez ao mês ou mais. Eles iam sem nenhum tipo de escolta. Só os presos, a psicóloga e os diretores da ONG Acuda.

A originalidade deste convênio está em atender os prisioneiros fora da penitenciária. A maioria das denominações religiosas criam células dentro dos presídios, desenvolvem trabalhos dentro das prisões. Todavia, o presidente da Barquinha de Ji-Paraná, Mestre Fernando, estabeleceu que o Centro Espírita ayahuasqueiro por ele dirigido não iria às prisões ou à sede da Acuda, e sim o contrário.

— Quando o preso esta na igreja, aqui tomando Daime e convivendo conosco,  ele é um homem livre,  pode sentir o valor da liberdade, pode contemplar como seria bom recuperar a sua liberdade.

O Projeto Acuda já era relativamente conhecido no Brasil e no exterior como um bem sucedido trabalho de ressocialização de presidiários. Porém, o fato surpreendente de se usar Ayahuasca para o desenvolvimento pessoal e reinserção familiar e social do apenado ganhou visibilidade na imprensa nacional e internacional, a destacar a matéria do New York Times, imprensa europeia e, principalmente, o destaque como reportagem semanal do Programa Fantástico da TV Globo, de 24/05/2015.

Ver:

http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2015/05/presos-tomam-cha-alucinogeno-em-projeto-social-polemico-em-rondonia.html

No universo ayahuasqueiro a repercussão foi favorável, apesar da espetacularização midiática que é a tônica dos programas de Televisão Aberta. Todavia, essa excessiva visibilidade não contribuiu em nada para o bom andamento do Convênio Interinstitucional entre a Acuda e o Lar de Frei Manuel, pois este convênio é obrigado a passar permanentemente pelo crivo do Tribunal de Justiça de Rondônia.

Corre-se o risco de que a superexposição midiática de um projeto em andamento e trabalho de caridade, altruístico, gere resistências contrárias que possam ser dificultadores da sua continuidade.

As relações entre as duas instituições e mudanças comportamentais dos seus membros

  1. Lar de Frei Manuel

O mentor desta Casa Espírita, o Velho Pastor Frei Manuel, costumava dizer que “quem não vive para servir não serve para viver”, afirmando que o serviço caridoso ao próximo é a prática do verdadeiro amor a Deus.

— Foi a Doutrina Cristã que motivou esse convênio com a Acuda, esclarece Edilsom Fernandes.

Esta parceria entre as instituições completa 4 anos, e mudou significativamente a fisionomia das organizações e influenciou câmbios de comportamento nos seus membros.

No caso da Casa de Jesus e Lar de Frei Manuel, as psicoterapias e terapias alternativas passaram a fazer parte das vivências e experiências dos membros do grupo. Processos terapêuticos como gestalt, eneagrama, constelação familiar, biodança etc. se tornaram constitutivas das suas práticas extracotidianas, viraram elementos identitários referenciais.

— A relevância é a espiritualidade, e não a religião; é a consciência, não a informação, esclarece Mestre Fernando.

E a cooperação altruística da Barquinha de Ji-Paraná com a Acuda de Porto Velho não se dá apenas no âmbito das cerimônias religiosas, terapias realizadas e seus desdobramentos. Muitos membros do grupo, a começar do presidente Edilsom Fernandes, se tornaram trabalhadores voluntários da Acuda, prestando serviço caritativo.

Em novembro de 2015 os diretores da Acuda foram a Roma e Nápoles (Itália) participar de importantes eventos e o sr. Edilsom Fernandes, como presidente de uma instituição parceira, os acompanhou. Edilsom explanou sobre a experiência do uso da Ayahuasca para reabilitação de presidiários em Nápoles, assim como Luiz Marques apresentou os objetivos da Acuda.

Destas relações internacionais estabelecidas, um grupo de 15 italianos, liderados pelo terapeuta Antonio Ferrara, visitaram Porto Velho e Ji-Paraná (Rondônia) em fevereiro de 2016, e desenvolveram trabalhos terapêuticos tanto na sede da Acuda com os detentos, quanto em Ji-Paraná com os adeptos da Barquinha.

Numa semana de vivências intensas, como é o Retiro Espiritual do Lar de Frei Manuel no período carnavalesco, muitos destes italianos entraram em contato pela primeira vez com a sagrada bebida Daime (Ayahuasca) e conheceram a sua luz — que é a luz de Jesus.

Oriundos de uma sociedade de cultura laica, agnóstica e anticlerical — como é a sociedade europeia — surpreendente foi ouvir e ler os depoimentos destes italianos relatando as suas experiências e vivências com a Ayahuasca, estes usuários neófitos percebendo que é possível existir algo mais em suas vidas do que os limitados sentidos humanos — visão, olfato, paladar, audição e o tato — podem proporcionar.

Agora em maio de 2016, o terapeuta Antonio Ferrara e sua equipe retornaram a Rondônia para promover uma “Semana Terapêutica na Acuda”, visando atender detentos do regime fechado e semiaberto do Complexo Penitenciário de Porto Velho, com apoio da SEJUS – Secretaria de Estado de Justiça de Rondônia.

Ah… e também participar das cerimônias religiosas e beber Daime (Ayahuasca) na Barquinha de Ji-Paraná.

Alguns exemplos de serviços altruísticos dos membros da Barquinha para os presidiários atendidos pela Acuda: o professor de Yoga e policial federal Pedro Cruz Neto ministrou curso de iniciação ao ‘Shivam Yoga’ como processo de autoconhecimento para a ressocialização dos presidiários; o advogado, musico e cantor Eduardo Custódio Diniz, emprestou sua maviosa voz e virtuosismo instrumental realizando concerto musical na sede da Acuda; Edilsom Fernandes proferiu palestra sobre “caráter e personalidade” e o papel do Santo Daime como um instrumento da espiritualidade na ressocialização de presos através da expansão da consciência.

E mais: membros da Barquinha de Ji-Paraná também colaboram com o Projeto Acuda na condição de clientes: comprando os produtos ali produzidos ou contratando os serviços de suas oficinas, como o engenheiro e empresário de construção civil e industrial, Marcos Mesquita, que faz a manutenção dos veículos de sua empresa na oficina de autos da sede da Acuda.

Além disso, os participantes da Barquinha colaboram nas companhas de doações e arrecadação de fundos para a compra de equipamentos pela ONG Acuda, que busca ajuda para a sua manutenção em instituições parceiras e entre os amigos da organização.

  1. Acuda e sua diretoria

Uma característica da religiosidade ayahuasqueira brasileira é que as instituições não são proselitistas, não buscam novos adeptos nem conversões. Por isso, no convênio com a ONG Acuda não há o intuito de converter o presidiário, a não ser de reabilitá-lo e ressocializá-lo.

— Não há conversões e sim conscientizações, afirma o presidente da Barquinha de Ji-Paraná, Mestre Fernando (Edilsom Fernandes).

Se ocorreram conversões religiosas entre os presidiários atendidos pelo convenio Barquinha e Acuda é cedo para auferir. Todavia, o que se percebe é a participação ativa dos diretores da ONG Acuda e seus familiares na integração com o grupo, na condição de membros participantes. Estes foram grandes beneficiários de encontrarem e se identificarem com uma linda Doutrina.

Fala Rogério Araújo:

— A partir de 2012 eu e Luiz Marques começamos a frequentar a Barquinha todo sábado, ou até duas ou três vezes por semana. Para conhecer mais a casa e saber o que a espiritualidade reservava para nós. O que a espiritualidade estava trazendo para nos

Logo depois Rogério passou a levar a sua família: a esposa Márcia e a jovem Vitória.

— Para nós a Barquinha é um lugar diferenciado. Não nos aprisiona. Nos da total liberdade de sermos o que realmente somos. Tem uma espiritualidade que traz um alívio e um conforto pra minha alma. Como todo local tem suas regras, normativas, claro, tem uma disciplina muito boa. Mas nos deixa muito a vontade para freqüentar o espaço. Cada um tem sua experiência pessoal com o Daime (Ayahuasca). Não existe aquela questão categórica de te colocar na mente que você só será salvo se você fizer isso aquilo. Também não tem aquela coisa de se você não for não será salvo, pois não me sinto obrigado a ir.

E continua:

— A Barquinha respeita e abraça todas as religiões: budismo candomblé. espiritismo, evangélicos. Já presenciei pessoas de todas as denominações religiosas compartilhando o mesmo espaço e da bebida Ayahuasca. É um lugar de inclusão. Não é local de seleção nem de exclusão.

Sobre os benefícios para si e sua família:

— O ambiente amável e harmonioso faz com que a gente se encaixe no espaço, eu e minha família. Eu particularmente nunca segui nenhuma religião. A Márcia e a Vitória se encaixaram muito bem na filosofia do Santo Daime  A Vitória hoje tem 20 anos, já frequentou a religião católica e o espiritismo mas se identificou muito bem com o Daime, com a Doutrina da Barquinha.

Luiz Marques, Pedro Hurtado e Romualdo Tristão também se tornaram frequentadores assíduos. Percebe-se uma identificação muito grande entre eles e a Doutrina e o empenho na continuidade das relações estabelecidas, tanto da frequência às cerimônias na condição de adeptos, tanto no prosseguimento do convênio interinstitucional.

Não só isto. Outras ações também são desenvolvidas, como a construção do Centro de Recuperação Terapêutico Chácara Divina Luz, uma instituição em prol dos ex-detentos (egressos) que estão jogados pelas ruas de Porto Velho e de dependentes químicos que desejam auxilio, além de toda a comunidade em geral.

Este novo Centro Terapêutico em edificação está situado na zona rural de Porto Velho, no Km 15 após a nova ponte no sentido para a Cidade de Humaitá.

A construção deste espaço está sendo feito “devagar e com firmeza”, afirmam os diretores da Acuda. Mutirões são realizados nos fins de semana para construção de obras de alvenaria e para o plantio de árvores frutíferas, hortaliças e do cipó Jagube/Mariri (banisteriopsis caapi) e da folha Rainha/Chacrona (psychotria viridis).

Na alquimia sagrada do cipó, folha, água e fogo surge o Santo Daime (Ayahuasca), e o esforço para o plantio e cultivo dessas espécies é a promessa de que a colheita será próspera e farta. Para esta luz nunca faltar.

Seguimos todos no Barquinho…

O Projeto Acuda já era relativamente conhecido no Brasil e no exterior como um bem sucedido trabalho de ressocialização de presidiários. Porém, o fato surpreendente de se usar Ayahuasca para o desenvolvimento pessoal e reinserção social dos prisioneiros ganhou visibilidade na imprensa nacional e internacional.

No universo ayahuasqueiro a repercussão foi positiva, apesar da espetacularização midiática que é a tônica de parte da imprensa e de programas de televisão. Entretanto, essa excessiva visibilidade não contribuiu em nada para o bom andamento do Convênio Interinstitucional entre a Acuda e o Lar de Frei Manuel, pois este convênio é obrigado a passar permanentemente pelo crivo do Tribunal de Justiça de Rondônia.

Disso decorre que o risco de superexposição midiática do Projeto Acuda e o uso da Ayahuasca por presidiários gerem resistências contrárias que possam ser dificultadores da sua continuidade.

Por outro lado, esta parceria entre as instituições mudou significativamente a fisionomia das duas organizações e influenciou câmbios de comportamento nos seus membros.

No caso da Casa de Jesus e Lar de Frei Manuel, as psicoterapias e terapias alternativas passaram a fazer parte das vivências e experiências dos membros do grupo. Tornaram-se constitutivas das suas práticas extracotidianas, viraram elementos identitários referenciais.

Quanto a Acuda e seus dirigentes o que se percebe é a participação ativa destes e de seus familiares na integração com a Barquinha, na condição de novos adeptos. Estes indivíduos foram grandes beneficiários ao encontrarem e se identificarem com uma linda Doutrina e a Santa Luz do Daime.

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.