Transmissão de cargo na Prefeitura de Feira de Santana é marcada por emoção, bajulação e apoio explícito a Roberto Tourinho e Justiniano França

Prefeito José Ronaldo promove mudança no secretariado. Evento foi marcado por bajulações e trocas de amabilidades. No plano material, mudanças objetivam manutenção do poder.

Prefeito José Ronaldo promove mudança no secretariado. Evento foi marcado por bajulações e trocas de amabilidades. No plano material, mudanças objetivam manutenção do poder.

No Paço Municipal Maria Quitéria, em Feira de Santana, na sexta-feira (01/04/2016), ocorreu a transmissão de cargo dos secretários Roberto Tourinho – Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SEMMAM), assumindo o ex-vereador Maurício Carvalho; e Justiniano França – Secretaria Municipal de Serviços Públicos (SESP), assumindo Ícaro Ivvin, por indicação do deputado federal Antonio Lazaro Silva (PSC).

Visivelmente emocionado, o prefeito José Ronaldo (DEM) fez uma digressão sobre a relação estabelecida com os secretários que deixavam o governo e os que estavam ingressando. Ao Ícaro Ivvin, alertou que ligações telefônicas em horários incômodos – tarde da noite e madrugadas – seriam realizados com a finalidade de responder aos reclames da comuna.

Encerrado o discurso, mais uma vez, os secretários descumpriram o protocolo e pediram a palavra. Ao que indica, em Feira de Santana, no governo municipal a última palavra não é do prefeito.

Bajulação

Primeiro, discursou Justiniano França, em um festival de bajulação inócuo, revelou que a esposa o questionou: “o que esse Ronaldo tem que você faz tudo que ele pede?”. Após a importante revelação, seguidos e repetitivos agradecimentos ao prefeito e a declaração de que era evangélico. Nesse momento, um cidadão, visivelmente irritado com o festival de bajulação comentou: “Por favor, alguém entrega a Constituição Federal ao ex-secretário para que ele possa ler e entender que o Estado é laico, e que transmissão de cargo é oportunidade para apresentar síntese das realizações.”.

Na sequência, discursou Roberto Tourinho. O mesmo espetáculo quixotesco de agradecimentos ao prefeito foi expresso. Em momento nostálgico, relembrou início da carreira, quando abdicou do termo de adoção de José Falcão da Silva, prefeito na época, falecido em 5 de agosto de 1997.

Alguém comentou, será que Roberto Tourinho não percebe que – ao falar que era servidor municipal nomeado pelo pai, e que burlou a Lei Eleitoral da época renunciando a paternidade para concorrer a um cargo eletivo – revela comportamentos criticados no momento político atual. Primeiro, era um caso de nepotismo, segundo de fraude a Lei Eleitoral. Observando que existia uma vedação para que filhos de prefeitos concorressem ao pleito. O cidadão disse que fazia essas ponderações, analisando sob o contexto do valores republicanos atuais.

Apoio explícito

Nos bastidores, os comentários versavam sobre o empenho do prefeito em eleger Tourinho vereador. Nesse sentido, deslocou o ex-vereador Maurício Carvalho para secretaria com a finalidade de apoiar a eleição de Tourinho. Esse não foi o único gesto de apoio de Ronaldo à Tourinho. Foi o mais explícito, mas não o único.

Com relação a Justiniano França, o prefeito age com mais discrição. Nos bastidores é unânime o fato do prefeito ser o principal responsável pela reeleição de França como vereador em 2012 pelo Democratas, oportunidade em que obteve 3.638 votos.

Além da reeleição em 2012, Ronaldo apoiou a eleição de França para presidente da Câmara Municipal. Em retribuição, o vereador foi responsável pela contratação de uma empresa que não apresentava as condições técnicas para executar o concurso público do Poder Legislativo. Não foi o único erro da França, enquanto vereador, mas, foi o mais explícito.

Um a menos

Com a nomeação de Ícaro Ivvin, com a finalidade de atender à exigência por cargos no governo, apresentada pelo deputado secundarista Lazaro, o prefeito eliminou um possível concorrente ao mandato de prefeito no pleito de 2016. Ao mesmo tempo, Ronaldo objetiva atrair parte do eleitorado formado pelos protestantes e neopentecostais, com a finalidade de obter a reeleição.

A síntese do evento é a evidente tentativa de manutenção no poder do grupo liderado pelo prefeito José Ronaldo. Nesse processo, inconfessáveis acordo políticos são celebrados. Alguns republicanos, outros questionáveis.

Sobre o autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto Oliveira da Silva (Carlos Augusto) é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF). Atua como jornalista e cientista social. Telefone: (75)98242-8000 | E-mail: diretor@jornalgrandebahia.com.br.