Salvador: Exposição celebra os 80 anos do xilogravurista de J. Borges

José Francisco Borges, o J. Borges.

José Francisco Borges, o J. Borges.

A arte de gravar na madeira e perpetuar na memória coletiva a essência do cotidiano nordestino fazem do xilogravurista e cordelista J. Borges um dos mais expressivos artistas populares do Brasil. Em 2016, os seus 80 anos de vida recém-completados ganham uma celebração especial com a exposição ‘J. Borges 80 anos’. A mostra gratuita, produzida pela Cactu’s Produções, será aberta no dia 4 de maio, na Caixa Cultural Salvador, e traz uma coletânea de 30 xilogravuras e suas matrizes, sendo 10 inéditas, com temas que retratam a trajetória de vida do artista que foi considerado pelo dramaturgo Ariano Suassuna como o melhor gravador popular do Brasil.

Até 16 de junho os visitantes poderão conferir obras que retratam diversas fases da história do artista com os temas ‘No Tempo da Minha Infância’, ‘Na Minha Adolescência’, ‘Vendendo Bolas Dançando e Bebendo’, ‘Serviços do Campo’, ‘Cantando Cordel’, ‘Plantio de Algodão’, ‘A vida na Mata’, ‘Plantio e Corte de Cana’, ‘Forró Nordestino’, ‘ Viagens a Trabalho e Negócios’. “Estou muito alegre com essa exposição sobre os meus 80 anos. E Salvador é um lugar que gosto muito. Eu ainda quero viver bastante. O que me inspira é a vida, é a continuação, é o movimento. É aquilo que eu vejo, aquilo que eu sinto”, afirma J. Borges.

Com curadoria de José Carlos Viana e Marcelle Farias, a exposição reserva um lugar especial para a poesia popular com um espaço dedicado à literatura de cordel. Cordelista há mais de 50 anos, os versos de J. Borges tratam do cotidiano do agreste, acontecimento políticos, fatos lendários, folclóricos e pitorescos da vida. A mostra trará ainda obras assinadas por J. Miguel e Manassés Borges, filhos e aprendizes do artista além da exibição de uma cinebriografia sobre vida e obra do artista assinada pelo jornalista Eduardo Homem.

José Francisco Borges, o J. Borges

Natural de Bezerros, no agreste pernambucano – onde vive e trabalha até hoje –, José Francisco Borges, o J. Borges, é Patrimônio Vivo de Pernambuco, título concedido pelo Estado aos mestres da cultura popular pernambucana, reconhecidos como patrimônio imaterial. Nascido em 1935, filho de agricultores, trabalhava desde os dez anos na lida do campo. O gosto pela poesia o fez encontrar nos folhetos de cordel um substituto para os livros escolares. “Eu me criei no sítio e a única informação era dada pelo cordel que meu pai comprava na feira pra gente ler. Era o jornalismo nosso”, revela Borges.

A influência fez com que, em 1964, fizesse a sua primeira publicação: “O encontro de dois vaqueiros no Sertão de Petrolina”, xilogravada por Mestre Dila, que vendeu mais de cinco mil exemplares em dois meses. Animado com o resultado, escreveu o segundo cordel intitulado “O Verdadeiro Aviso de Frei Damião Sobre os Castigos que Vêm”, que o conduziu pela primeira vez à xilogravura. Sem dinheiro para pagar um ilustrador, J. Borges resolveu ele mesmo entalhar na madeira a fachada da igreja de Bezerros, que usou no seu segundo folheto. Desde então não parou mais de fazer matrizes por encomenda e também para ilustrar as centenas de cordéis que lançou ao longo da vida.

Na década de 70, J. Borges começou a ampliar os horizontes de sua obra, gravando matrizes dissociadas dos cordéis, com grandes dimensões. Foi descoberto por marchands e colecionadores e seu trabalho ganhou imensa visibilidade sendo reconhecido, inclusive, internacionalmente, com exposições em países como França, Espanha, Estados Unidos, Venezuela, Alemanha e Suíça.

Criação

Considerado por Ariano Suassuna como o melhor gravador popular do Brasil, J. Borges desenha direto na madeira, equilibrando cheios e vazios com maestria, sem a produção de esboços, estudos ou rascunhos. O título é o mote para Borges criar o desenho, no qual as narrativas próprias do cordel têm seu espaço na expressiva imagem da gravura. O fundo da matriz é talhado ao redor da figura que recebe aplicação de tinta, tendo como resultado um fundo branco e a imagem impressa em cor. As xilogravuras não apresentam uma preocupação rigorosa com perspectiva ou proporção.

A originalidade, irreverência e personagens imaginários são notáveis nas suas obras. Os temas mais populares em seu repertório são: o cotidiano da vida simples do campo, o cangaço, o amor, os castigos do céu, os mistérios, os milagres, crimes e corrupção, os folguedos populares, a religiosidade, a picardia, enfim todo o rico universo cultural do povo nordestino.

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