Palhaçada e corrupção | Por Luiz Holanda

Manifestantes protestam em frente ao Jaburu contra Michel Temer.

Manifestantes protestam em frente ao Jaburu contra Michel Temer.

Por ocasião da votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff na Câmara Federal, comandada por Eduardo Cunha, acusado de corrupção por tudo quanto é lado, alguns deputados, entre os quais os 40 que, segundo a imprensa, respondem a processo por ladroagem, lavagem de dinheiro, estelionato e outras fraudes, em vez de dizerem qual o crime cometido pela presidente Dilma, votaram pelo impeachment da presidente invocando suas imaculadas famílias, esposas, filhos, pais e outros bichos.

Uma delas, enrolada numa bandeira do Brasil, uma tal de Raquel Muniz, do PSD de Minas Gerais, elogiou o marido, Ruy Muniz, prefeito de Montes Claros, como exemplo de que “o Brasil tem jeito”. No dia seguinte, o impoluto marido foi preso pela Policia Federal como suspeito de corrupção e por beneficiar, em detrimento dos hospitais públicos, um hospital particular de gente de sua família. O casal está sendo acusado de falsidade ideológica, dispensa indevida de licitação, estelionato, e outras fraudes.

Gente desse tipo, comandada por Eduardo Cunha, votou pelo impeachment da presidente Dilma, que é incompetente, incivilizada, grosseira, mas, pelo menos até agora, não foi acusada de nada, se   quer de corrupção. As chamadas pedaladas fiscais, pelas quais ela agora pode perder o mandato, todos os ex-presidentes praticaram, inclusive Fernando Henrique, e nenhum deles foi ac crime de responsabilidade.

Já o capitão do golpe, Michel Temer, não pode dizer que nunca foi acusado de nada. Suspeito por corrupção, Temer foi alvo de uma investigação do Supremo tribunal Federal sobre corrupção e cobrança de propina no porto de Santos, conforme denúncia publicada pelo jornal Folha de São Paulo. A reportagem se referia aos viciados contratos administrativos pela Companhia de Docas de Santos-Codesp, presidida por Marcelo de Azeredo entre os anos 1995 e 1998, indicado por Temer, segundo a imprensa.

O levante Popular da Juventude, que promoveu uma manifestação na frente da casa de Temer, em São Paulo, neste último 21 de abril, apresentava cartazes declinando os quatro motivos pelos quais Temer não poderia ser presidente da República. Segundo a imprensa, o0s quatros motivos são: “Temer é golpista”, “Temer é corrupto”, “Temer é conspirador” e “Temer é a ponte para o abismo”.

Em nota à imprensa, o Levante Popular da Juventude explicou porque “escrachou” Temer com uma manifestação na frente de sua casa, além de denunciar à sociedade que a residência do vice-presidente era “o Quartel General do Golpe”. Os integrantes do movimento aproveitaram a ocasião para entregar a Temer uma Constituição do Brasil.

Além da manifestação, os manifestantes fizeram questão de dizer para a imprensa que “se há alguém envolvido em denúncias de corrupção é Temer. Além de ser citado em delações da Lava Jato, Temer já teve seu nome citado 21 vezes em planilhas da Camargo Correa (Operação Castelo de Areia), O Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, divulgou indícios de que Temer recebera R$ 5 milhões da OAS. Essa grave crise política que o país se encontra não teria chegado a este ponto não fosse a aliança entre Temer e Cunha, ambos do PMDB”.

Os manifestantes ainda teceram comentários sobre cada motivo apontado para Temer não ser presidente, apontando para o fato de que, se Temer assumir o governo, Eduardo Cunha será o vice-presidente da República. Daí ninguém acreditar que haverá alguma mudança. Aliás, se a simples retirada de Dilma resolvesse os problemas nacionais ou ao menos a corrupção, o Brasil inteiro não estaria pedindo a volta dos militares. Assim, como tudo o que se passa na política é apenas promessa e inverdades, acreditar que um homem como Michel Temer pode salvar o país, é o mesmo que acreditar –como prometia um dos cartazes dos manifestantes-, “trazer a pessoa amada em sete dias”.

Os excessos dessa palhaçada são saques contra a nação, cujos juros, impagáveis, serão cobrados em breve. Que República!

*Luiz Holanda é advogado e professor universitário.

Sobre o autor

Luiz Holanda
Luiz Holanda é advogado e professor universitário, possui especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (SP); Comércio Exterior pela Faculdades Metropolitanas Unidas de São Paulo; Direito Comercial pela Universidade Católica de São Paulo; Comunicações Verbais pelo Instituto Melantonio de São Paulo; é professor de Direito Constitucional, Ciências Políticas, Direitos Humanos e Ética na Faculdade de Direito da UCSAL na Bahia; e é Conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/BA. Atuou como advogado dos Banco Safra E Econômico, presidiu a Transur, foi diretor comercial da Limpurb, superintendente da LBA na Bahia, superintendente parlamentar da Assembleia Legislativa da Bahia, e diretor administrativo da Sudic Bahia.