Mensagem do meu coração | Por Nelson Villaça Maringoni

Cecilia Camarero Maringoni (Ciça) ao lado do pai, Nelson Villaça Maringoni (24.4.1930 - 07.10.2007).

Cecilia Camarero Maringoni (Ciça) ao lado do pai, Nelson Villaça Maringoni (24.4.1930 – 07.10.2007).

Nelson Villaça Maringoni (24.4.1930 – 07.10.2007), acometido de grave doença e sentindo a hora do seu desencarne se aproximar, escreveu uma Carta aos filhos, noras, genro (eu) e netos. Nesta missiva afirmou ser contrário a fazer testamento, que no seu conceito não passava de um artificio “pelo qual a vontade de quem não deve mais ter nenhuma” vontade, porque já se foi, continua pretendendo intrometer-se na vida de quem ainda não concluiu a experiência aqui no Planeta Terra, e “bem por isso terá direito ao exercício pleno do livre arbítrio, sem nenhuma intromissão alheia”.

Todavia, as sábias palavras selecionadas desta Carta (não) testamental podem ser lidas como o testamento espiritual deste generoso e cortês homem que viveu entre nós, meu amigo e professor, ao qual devo algumas das minhas melhores qualidades — se as tenho — pelo seu ensino através do exemplo.

Mensagem do meu coração, por Nelson Villaça Maringoni

Quem analisar minha conduta nesta passagem por aqui, enquanto Nelson Villaça Maringoni, dirá que fui confuso, relapso e descuidado, porque deixo a vocês um punhado de encrencas…

Admito o fato. Porém, a causa primeira desse resultado sempre foi a constância de uma relativa limitação financeira, possivelmente reflexo da minha personalidade mais interessada nos assuntos ligados à filosofia e espiritualidade, que à materialidade; em outras palavras, sempre fui mais vinculado ao ser do que ao ter, focalizando certas questões ou condutas sob o prisma de marcante e progressivo desapego, (Graças a Deus), não ficando na luta incessante para cada dia mais acumular bens, valores e muitas outras coisas maravilhosas que constituem, para alguns, o foco único do seu viver, tão egocêntrico que se esquecem tantas vezes do próprio desfrute, saudável e generoso, com sua própria família e com os que mais lhe são caros, que restam privados desses gostosos e legítimos benefícios!

O mal não está na abundância. Abundância também é divina. E é muito mais divina que qualquer restrição: O equivoco está em só pensar em perseguir o ter pelo próprio ter em si mesmo, ter, ter mais, mais, só meu, só meu…

Realmente, quanto aos valores pecuniários que remuneraram os serviços que prestei, sempre estimados a níveis muito modestos, mais para o barato do que para o caro — isto quando não foram totalmente gratuitos — a remuneração pecuniária que chegava às minhas mãos nunca era suficiente para solucionar tudo que já se achava “dependurado”, à espera de solução…

Certas coisas convenientes, tinham de ser adiadas, para não causar prejuízo aos interesses fundamentais do cotidiano da família, como encargos prevalecentes a outros que poderiam comportar ainda algum adiamento.

Era mais ou menos como se eu vivesse o drama do cobertor mais curto que o dono: se cobrisse a cara e as orelhas, descobriria os pés…

Com recursos relativamente limitados, atendi o mais premente e posterguei o menos importante e adiável em cada ocasião, segundo critério. E infelizmente foi assim sempre, a bem dizer, até hoje!

Por isso vocês nem podem imaginar o júbilo que foi para o meu coração o dia em pude dar a cada um de vocês (os três filhos) uma bicicleta, a da Ciça (Cecilia Camarero Maringoni) verdinha e dobrável, que comprei no (Magazine) Mappin da Avenida São João (São Paulo – SP), com o fruto dos honorários recebidos da Editora Flamboyant!…

Ocorreu nestes últimos anos, que galguei um patamar mais cômodo, para quem já estava próximo dos 70 anos de idade, embora involuntariamente, pois certos créditos junto a clientes ou partes contrárias devedoras de honorários, foram sendo escalonadamente dificultados pelo apego deles, e com isso constituí uma reserva forçada para os dias atuais, que eu certamente não teria conseguido manter por iniciativa própria, se o dinheiro tivesse vindo, desde logo, todo ele para minhas mãos.

Se eu, gastador como sou, dispusesse desses recursos nos momentos menos prementes, certamente estaria passando hoje por maiores carências e dificuldades, que não cheguei a experimentar em dose amarga, porque fui levando o “andor” com certo equilíbrio, sem risco de tropeçar e cair, como chamo minha atitude menos apegada à vida material do ter, dedicando-me mais validamente ao ser, através do compartilhar!

Esta “introdução” pretende que vocês, meus filhos, noras, genro e netos, não me venham dizer como eu deveria ter feito o que já está feito à minha moda: não tolero ouvir “você deveria… isto e aquilo”. Nada disso faria sentido, de um lado, porque estou me reportando a fatos muito pretéritos, e de outro lado, porque, tendo a prerrogativa de pensar como seja de minha vontade, justamente porque temos o exclusivo privilégio cósmico, segundo certas fontes doutrinárias, do exercício do livre arbítrio que caracteriza o condicionamento humano limitadamente à crosta deste Planeta Terra, não se justificariam quaisquer críticas inúteis nesta altura — melhor dito — em nenhuma ocasião da vida de ninguém!

Desculpem-me se “encurto o papo”, mas com amor no coração e sem nada que a aparência de rudeza possa sugerir, peço a atenção de vocês, apenas para os enfoques feitos aqui, sem perderem tempo com os “deveria” ou com os “não deveria” fazer ou não fazer no passado inexoravelmente ultrapassado!

Quando se evolui de uma encarnação a outra, ou se muda de dimensão, é forçosa a desvinculação por inteiro da situação anterior, para que a vida (que é única) prossiga, fluindo normalmente na mesma ou noutra condição que siga à precedente, com total liberdade em relação à experiência encerrada, e sem influir no curso da vida dos que ainda ficaram por aqui, perseguindo as tarefas adequadas ao seu aperfeiçoamento.

Daí que reencarnamos, até concluirmos a evolução vinculada à dimensão atual, certo como é que depois de algum tempo, teremos “passado no vestibular” para prosseguir nossa evolução numa dimensão mais elevada, e por obrigação irrenunciável que nos cabe, teremos de cuidar da vida que vai prosseguir nessa nova dimensão, sejamos diligentes ou não, queiramos ou não! Chegada a hora, subiremos os degraus necessários ao estágio superior.

A razão única da vida, como a que temos aqui ou em qualquer planeta de qualquer universo, é a busca do aperfeiçoamento.

Onde há movimento, há vida: nos átomos, por exemplo, existe o movimento orbital dos elementos subatômicos, (prótons, nêutrons etc), que evidenciam uma vida ainda que nos pareça difícil concebê-la tão incipiente! Mas há vida em evolução!!!

Daí que saímos do nível mineral, atravessamos as etapas do Reino Vegetal e depois percorremos a escala do Reino Animal, até merecermos o Nível Hominal, e depois de muito labutar, alcançaremos o Nível de Mestre Ascencionado, depois o Angelical, até sermos convocados para nos reintegrarmos à fonte suprema da energia onde viemos!

Quando se dá uma “caprichada” nesses propósitos, e chegamos a perceber algo além do cotidiano, limitado a comer, dormir, amar, trabalhar, divertir, ou abusar dos sentidos e atirarmo-nos aos vícios, até, por vezes, à criminalidade, ou noutro extremo, seja o da pureza forçada de um claustro, seja através da meditação mais dirigida à busca interior, consciente e silenciosa, acabamos subindo um degrauzinho da escalada em direção à perfeição divina, que é a meta suprema e inexorável para todos nós, queiramos ou não alcança-la a partir de agora, ou no futuro, um dia, enfim, chegaremos a ter certeza dessa absoluta indispensabilidade!

Se descuidamos e continuadamente deixamos a busca da perfeição sempre para depois, e isso se dá enquanto ainda não estamos prontos para a busca mais profunda, vivendo um cotidiano excessivamente apegado aos prazeres peculiares ao lado material da vida, seremos exatamente como alunos repetentes: mudamos de escola, teremos novos professores, novos colegas, outra família, outro tipo de vida etc. Mas tudo mais se repete, ocorrendo uma encarnação depois da outra, até que um dia acordamos para à verdade, que é uma vida com o que acima indiquei, “quando se dá uma caprichada” em busca de uma evolução qualitativa!

Mas para isso é preciso tomarmos a decisão, manifestando a vontade de nos voltarmos para essa busca na direção do divino.

Não há prêmio nem castigo se formos diligentes ou se formos relapsos. Nós é que nos autojulgamos; nós é que somos nossos próprios algozes, que reconhecemos que o esforço, pelo menos, foi honesto e só por isso minimamente correto, e alcançarmos a tranquilidade do dever cumprido num grau diminuto, mas sem o sabor da vitória ou êxito, nem o de derrota ou fracasso.

Poderíamos até simbolizar que tivemos um empate nessa batalha, como se nós déssemos uma nota neutra, sem piorar nem melhorar na reencarnação que se siga à anterior.

Do contrário, teremos de passar pela vergonha de voltar à mesma classe, quando não ocorrer de na nossa recalcitrância, sem ter passado de ano, sermos direcionados a uma classe só de “repetentes”, ou pior, quando formos convidados a nos transferirmos para outro planeta-escola, fórmula quem sabe equivalente à transferência escolar obrigatória, a que costumamos chamar de aluno “jubilado”. Isso é o que suponho que ocorra, quando somos levados a encarnar compulsoriamente num planeta de grau evolutivo inferior ao precedente.

No mais, é como na vida comum do estudante: ainda que a nota seja péssima, ele apenas ficou reprovado porque não tomou a decisão de estudar com afinco a matéria aperfeiçoamento, e recomeçará tudo de novo, repetindo o ano da reprovação…

Tudo isto se passara com simples questão de consciência, mas questão com contornos cármicos que só no nível mais profundo da supraconsciência e que teremos vislumbres do que se passou no passado, lá atrás, em outras vidas, para estarmos repetindo a lição não apreendida ate agora…

Nenhum de nós se esquece completamente de algum erro cometido!  Nossa consciência é um juiz implacável: não apaga nunca de nossa memoria certas fraquezas, e sempre nos faz lembrar, jogando-nos na cara, o que fizemos equivocadamente…

Só para ilustrar, embora não seja um retrocesso a uma vida passada: estou agora lembrando esta passagem, que repetidamente me volta à mente consciente: enquanto cursei o ginásio em Bauru, de 1941 a 1943, numa manhã de inverno eu ia subindo, escuro ainda, para a aula de ginástica no Ginásio do Estado, construído no meio de um pasto, onde hoje está a Praça das Cerejeiras, do lado oposto ao da casa de seus tios Valente e Cireninha (cunhados); a aula começava às 7:00 hs, creio.

Estava quase chegando, quando cruzei na esquina da praça, com um garoto magrinho, com minha idade talvez, tiritando de frio, com uma camiseta surrada sobre o corpo, seu único agasalho.

Eu já ia abrindo o talabarte de couro, por cima da farda, para dar a ele o agasalho também já meio surrado que eu trazia sobre a camisa branca de flanela, por baixo da túnica, de aparência militarizada como era no tempo do “ Estado Novo de Getúlio Vargas, quando me lembrei da “bronca” que certamente levaria de minha mãe, se desse o pulôver ao garoto, e voltasse sem ele para casa.

Disfarcei, e segui em frente.

Até hoje, por mais que eu “siga em frente” nesta vida, dando-me conta de que dentro de minha consciência já comecei a coibir meus apegos, para poder compartilhar, dividindo com quem mais precise do que eu, o que eu já tenha conseguido a mais do quanto eu necessite, não perdoo a falta de coragem para enfrentar minha mãe, como tive naquele momento, embora ainda fosse um garoto nos seus aproximados 12 anos…

Pelo reverso, quando sentimos que cumprimos nosso dever junto ao próximo, sem desleixar a busca, simplesmente nos conformamos com a volta para prosseguirmos a caminhada, focados numa perfeição evidentemente maior, até que um dia entenderemos que subimos um degrau, depois mais outro, outro mais, dos infinitos que teremos de vencer até o fim dos conceitos da duração da vida, por aqui e em outros universos, desta ou em outras galáxias afora, eternamente!

Por esses enfoques se vê que sou contrário a fazer testamento, que no meu conceito não passa de um artificio pelo qual a vontade de quem não deve mais ter nenhuma, nem mais poderia exercê-la porque já se foi, continua pretendendo intrometer-se na vida de quem ainda não concluiu a experiência por estas bandas, no Planeta Terra, e bem por isso terá direito ao exercício pleno do livre arbítrio, sem nenhuma intromissão alheia: se for mais diligente, parabéns, se mais recalcitrante no aprendizado, será uma pena ficar marcando passo no mesmo lugar, sem romper a marcha em busca da perfeição divina, que em verdade não é mais do que reencontrarmos dentro de nosso coração, o “átomo” da energia divina em torno do qual se foram aglutinando energias angelicais, depois espirituais, seguindo-se das mais diáfanas até as menos diáfanas, seguindo-se elementos materiais sutis, e os demais necessários à nossa constituição corpórea, da menos densa até a mais densa, como fomos todos criado em torno da presença da centelha de luz do EU SOU o que EU SOU do próprio Deus (Êxodo 3:11-15), que nos fez seus herdeiros, criados mais que à sua semelhança — com a identidade de sua própria e sublime essência!!!

(Embu das Artes, São Paulo, 31 de março de 2007)

Nelson Vilaça Maringoni

Sobre o autor

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. com.br.