Imprensa europeia vê carnaval e “insurreição de hipócritas” na votação do impeachment

Votação do pedido de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, na Câmara dos Deputados. Processo foi conduzido pelo imputado Eduardo Cunha.

Votação do pedido de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, na Câmara dos Deputados. Processo foi conduzido pelo imputado Eduardo Cunha.

Deputados aos berros, entoando canções e tirando selfies não estavam à altura da gravidade da situação, afirma a imprensa europeia, que destaca ainda que “inúmeros parlamentares são alvos de processos por corrupção”.

A imprensa europeia destaca nesta segunda-feira (18/04/2016) a derrota sofrida pela presidente Dilma Rousseff na votação do impeachment na Câmara dos Deputados, com especial atenção para o comportamento dos deputados federais no plenário.

Numa análise assinada pelo correspondente Jens Glüsing e intitulada “A insurreição dos hipócritas”, o site da revista Der Spiegel afirma que o Congresso brasileiro mostrou sua “verdadeira cara” e, com o uso de meios “constitucionalmente questionáveis”, colocou o “avariado navio Brasil” numa “robusta rota de direita”.

“A maior parte dos deputados evocou Deus e a família na hora de dar o seu voto. Jair Bolsonaro até mesmo defendeu, com palavras ardentes, um dos piores torturadores da ditadura militar”, escreve o jornalista, que lembra que tanto o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, como o vice-presidente Michel Temer são alvos de investigações por corrupção.

Segundo a revista, os deputados que votaram a favor do impeachment vão cobrar postos no governo de Temer, caso ele assuma a Presidência da República, e que muitos deles esperam que, com a vitória da oposição, as investigações da Operação Lava Jato desapareçam.O site do semanário alemão Die Zeit afirma que a votação na Câmara “mais parecia um carnaval” e que uma pessoa desavisada que visse a sessão não poderia ter ideia da gravidade da situação. “Nesse dia decisivo para o destino político da sétima maior economia do mundo, o que se viu foram horas de deputados aos berros, que se abraçavam, tiravam selfies e entoavam canções”, relata o correspondente Thomas Fischermann.

“Nos discursos dos representantes do povo havia tudo o que se possa imaginar: lembranças aos netos, xingamentos contra a educação sexual nas escolas, paz em Jerusalém, elogio a um torturador do antigo governo militar, o jubileu de uma cidade e assim por diante”, afirma o jornal.

Já o diário alemão Süddeutsche Zeitung destaca que “inúmeros parlamentares que impulsionaram o impeachment de Dilma são, eles próprios, alvos de processos por corrupção”. O correspondente Benedikt Peters lembra que o processo contra Rousseff é controverso e é considerado político. “Contra Dilma nenhum ato de corrupção foi comprovado.”

Segundo o jornal britânico The Guardian, um Congresso “hostil e manchado pela corrupção” votou pelo impedimento da presidente. “Uma derrota esmagadora”, afirma o jornal, que também destaca a votação no plenário. “O ponto mais baixo foi quando Jair Bolsonaro, o deputado de extrema direita do Rio de Janeiro, dedicou seu voto a Carlos Brilhante Ustra, o coronel que comandou a tortura do DOI-Codi durante a era ditatorial”, e levou “uma cusparada do deputado de esquerda Jean Wyllys”.

Para o jornal, é “improvável” que Temer também perca suas funções se for provado que ele praticou as chamadas “pedaladas fiscais”, já que tem “forte apoio” da maioria dos deputados.

O jornal espanhol El País diz que a aprovação do impeachment era mais do que esperada e que Dilma “está a um passo” de ser tirada do poder. “Dilma Rousseff recebeu um empurrão, talvez definitivo, para sair da presidência do Brasil pela porta de trás da história”, diz o artigo. “Uma derrota completa para o governo e Rousseff.”

O El País diz que a votação na Câmara foi marcada por tumulto e “cânticos um tanto ridículos às vezes” e destaca que a condução de Cunha, acusado de manter contas milionárias na Suíça com dinheiro da Petrobras, é “um sintoma da estrutura moral de boa parte do Congresso brasileiro”.

De acordo com o jornal espanhol, o “capital político” da presidente “será completamente diluído” com o voto favorável do Senado, “coisa que agora parece muito provável”, e o posterior afastamento dela do cargo por 180 dias, como prevê o rito do impeachment.

O francês Le Monde destaca a “descida ao inferno de Dilma Rousseff”, dizendo que até as últimas horas “ela acreditou” no voto dos 54 milhões de brasileiros que a elegeram em 2014. O jornal diz que o marketing do governo sobre a prática de “golpe” contra a presidente não teve sucesso, apesar de boa parte dos deputados favoráveis ao impeachment também serem acusados de corrupção.

Segundo a publicação, Dilma paga por “erros econômicos, diplomáticos e políticos que ajudaram a fazer dela a chefe de Estado mais impopular da história da jovem democracia brasileira”.

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