Exclusiva: ex-deputado Domingos Leonelli avalia a crise econômica e política e os reflexos na sociedade e nas estruturas de poder

Angelo Almeida, Domingos Leonelli e Carlos Augusto. Entrevista abordou cenário político nacional e a controversa posição do PSB Nacional e o PSB da Bahia.

Angelo Almeida, Domingos Leonelli e Carlos Augusto. Entrevista abordou cenário político nacional e a controversa posição do PSB Nacional e o PSB da Bahia.

Ex-deputado Domingos Leonelli Netto diz que não existe elementos para responsabilziar a presidente Dilma Rousseff por crime contra a administração pública.

Ex-deputado Domingos Leonelli Netto diz que não existe elementos para responsabilziar a presidente Dilma Rousseff por crime contra a administração pública.

O ex-deputado federal Domingos Leonelli Netto (PSB/BA) durante entrevista, concedida ao Jornal Grande Bahia, avalia a crise econômica e política e os reflexos na sociedade e nas estruturas de poder. Ele comenta, também, sobre a postura do PSB no plano nacional e a posição do partido na Bahia. A entrevista é conclusa com a análise sobre a saída do senador Waltger Pinheiro do Partido dos Trabalhadores (PT).

A entrevista exclusiva foi gravada no dia 7 de abril, em Feira de Santana, e subdivida em dois blocos, com os temas estadual e regional, destinados ao primeiro bloco; e nacional, destinado ao segundo bloco.

Com uma longa carreira política dedicada ao pensamento progressista, Domingos Leonelli tem formação como publicitário, e ocupou, além de mandatos parlamentares, a Secretaria de Comunicação, na gestão da prefeita Lídice da Mata, em Salvador; a Secretaria Trabalho, Emprego e Renda, na administração do prefeito de Salvador, João Henrique Carneiro; e foi Secretário Estadual de Turismo da Bahia, durante as duas gestões do governo Jaques Wagner.

Confira o 2º bloco de entrevista com o tema nacional

Jornal Grande Bahia— Como avalia o cenário político com relação ao processo de impeachment?

Domingos Leonelli – Nós estamos vivendo, talvez, uma das maiores crises políticas do Brasil nesse século XXI, a maior crise política de todos os tempos no Brasil. Uma presidente contestada a partir do primeiro ano do governo, contestada nas ruas, como forte movimento de massas, embora ainda que consideramos massas de classes médias.

É um quadro de aguda crise de governabilidade aliada a uma profunda crise econômica, com mais de 1,5 de bilhão de desempregados em um ano e isso é um fato que por si só é uma crise econômica que tem autonomia, pois é uma crise econômica por si e que também faz parte da crise econômica mundial. Mas, que aqui, no Brasil, se torna mais aguda e manchada por um fenômeno de corrupção, que não é novo, mas que se agudizou e se modificou. Porque, talvez, pela primeira vez na história, a corrupção tem se transformado um elemento mais institucional. Com alguns partidos participando dela formalmente, e isso compromete muito, tornando a crise mais profunda.

JGB – Os protestos que ocorrem no Brasil são bem demarcados no ponto de vista de classe, existem setores conservadores e reacionários da classe média, contra a classe trabalhadora. Como analisa o impacto dos direitos sociais das domésticas na adesão da classe média?

Domingos Leonelli – Me permita dividir em duas partes a sua pergunta. Primeiro eu não acho que os protestos contra o governo sejam apenas de setores reacionários, são dirigidos pelos setores reacionários, são capitalizados por esse setor, mas eu acho que a direita desse país não possui essa gente que levou para as ruas, é um projeto que reflete uma profunda insatisfação que não é só da classe média, é uma insatisfação de todo o povo brasileiro. É uma revolta contra a corrupção visibilizada.

Porque antes dessa fase de corrupção que envolve o PT e outros partidos, a corrupção sempre existiu, mas de uma maneira mais encoberta, de uma maneira mais discreta, e esse escândalo de corrupção revoltou uma parte da população também, e foi capitalizado pela direita, dirigido pela direita e embandeirou essa insatisfação.

Agora eu não vejo isso como um fato só, não creio que os elementos dos direitos sociais da doméstica têm influenciado. Eu creio que isso tem influenciado também, assim, como, para as elites brasileira ficou insuportável viajar no avião com um bocado de gente que só viajava de ônibus antes. O aeroporto agora tem cara de rodoviária e algumas rodoviárias são até melhores que alguns aeroportos. Ficou insuportável ter que pagar direitos as empregadas domésticas que eram escravas durante séculos, e isso deve ter contribuído também para abalar. Não creio que sejam fatores únicos, mas acho que isso também estimulou. Mas, não haveria protesto se não houvesse um catalizador, o PT, PP, o PMDB principalmente, e se esses partidos não tivessem organizados a corrupção, não teriam dado o pretexto para essa insatisfação e esse movimento de massas.

JGB – Existe um conflito de posição entre PSB nacional e o PSB da Bahia?

Domingos Leonelli – Existe. Nas eleições de 2014, com a candidatura de Eduardo Campos como alternativa a Dilma, o partido tinha tomado uma posição de se constituir uma postura de independência propositiva. Essa é a posição oficial do partido até hoje.

O presidente do partido, no entanto, sentindo a posição dos deputados, a maioria dos deputados e de alguns senadores, resolveu evoluir para a posição de oposição e levou a televisão uma propaganda eleitoral que era claramente oposicionista, e isso sem que tivesse feito um reunião, nem da executiva, nem do diretório nacional, e resolveu adotar uma posição de oposição. Mesmo que essa posição contemple uma certa excepcionalidade, para as alianças regionais que o PSB tem com o PT na Bahia e tem com o PT na Paraíba e no Amapá. Pelo menos, são esses estados que temos alianças formais com o PT e isso foi preservado pela direção nacional do partido.

JGB – Nesse aspecto, o PSB não se aproxima de outros partidos, a exemplo do PMDB, de fragmentação de unidade ideológica de princípios?

Domingos Leonelli – Não. O PSB, mesmo nessa posição de oposição, tem se caraterizado ou declarado por ter uma posição de esquerda, uma posição de assumir o papel, como o PSOL também faz. É uma posição de rede. Embora o pessoal tivesse tomado a atitude que eu achei correta, contra o impeachment, porque um impeachment sem a responsabilidade, sem crime, realmente se torna um golpe.

Se ficar provado que ela [Dilma Rousseff] cometeu um crime de responsabilidade, então é um processo normal o impeachment. O impeachment em si não é um golpe, se torna um golpe quando é tentado sem que exista um crime de responsabilidade. Até agora, ninguém conseguiu provar a responsabilização da presidente Dilma Rousseff. A presidente não está se quer investigada, nem processada e nem o próprio ex-presidente Lula.

JGB – O PSB tem uma identidade histórica com esses movimentos progressistas. Nesse momento, é evidente que o partido parece se alinhar ao que há de mais retrogrado na sociedade, e me parece que o PSB nacional neste se posiciona ao lado de pessoas como Eduardo Cunha?

Domingos Leonelli – Não está ao lado de pessoas como Eduardo Cunha. Está numa posição de oposição, com também estão outros partidos de esquerda, que não estão ao lado de Eduardo Cunha.

JGB – Eduardo Cunha lidera esse processo de impeachment?

Domingos Leonelli – Sim. Mas, no processo de impeachment é que o PSB se aproxima dessas forças de direita, que insistem em providenciar o impeachment da presidenta, sem que exista crime de responsabilidade tipificado. Pelo menos, até agora não foi tipificado o crime de responsabilidade. Então, contra isso nós estamos. O PSB da Bahia se posicionou claramente a esse respeito, e é contra o impeachment da presidenta, se não for demonstrado crime de responsabilidade.

O PSB da Bahia participou da marcha do dia 18 em Salvador. Foi a maior manifestação pública da história da Bahia. Ela ocorreu no Campo Grande, praça Castro Alves e Avenida Sete. Os espaços públicos estavam totalmente lotados.

JGB – Como analisa o anuncio do Senador Walter Pinheiro em deixar o PT, no mesmo momento em que o PMDB, os setores reacionários do PMDB, anunciaram o rompimento com o governo?

Domingos Leonelli – Acho que não teve nada a ver, foi uma coincidência. Acho que senador Walter Pinheiro é um homem da esquerda, e foi apenas uma infeliz coincidência.

JGB – Conversas no meio político indicam sentido contrário. Indica uma aproximação dele com os conservadores.

Domingos Leonelli – Eu não tenho conhecimento disso, e acho que isso não acontecerá. Eu confio no senador Walter Pinheiro e ele foi convidado pelo nosso partido. Se ele tivesse ingressado em nosso partido, teria o apoio para todas as suas pretensões.

Sobre o autor

Carlos Augusto
Carlos Augusto Oliveira da Silva (Carlos Augusto) é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF). Atua como jornalista e cientista social. Telefone: (75)98242-8000 | E-mail: diretor@jornalgrandebahia.com.br.