Ex-ministro Ciro Gomes avalia cenário político, econômico e financeiro, em palestra promovida pelas Universidades Harvard e MIT

Ex-ministro Ciro Gomes acredita existir vácuo de poder no Brasil e que sistema político está em colapso.

Ex-ministro Ciro Gomes acredita existir vácuo de poder no Brasil e que sistema político está em colapso.

Durante palestra no Brazil Conference 2016, promovido pelas instituições estadunidenses Universidade Harvard e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MTI), na sexta-feira e sábado (22 e 23 de abril de 2016), o ex-ministro da Fazenda e ex-governador do Ceará, Ciro Gomes, avaliou o cenário político atual. Segundo ele, o êxito civilizatório de uma nação depende da obra política, que coordena o desenvolvimento, mas observou que no Brasil, hoje, existe um vácuo de poder.

“Esse vácuo é substituído por interesses pessoais, um movimento de ascensão pentecostal e ladroeira. Eduardo Cunha não virou presidente da Câmara – sendo o bandido que é – por acaso. Ele comprou 250 deputados”, comentou Ciro. Ele criticou, também, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que em 1998 abandonou uma agenda de reformas estruturantes em troca da mudança na Constituição para autorizar sua reeleição.

Segundo Ciro, por detrás do êxito civilizatório de uma nação existem três elementos: alto nível de formação bruta de capital, “que é consequência de arranjos institucionais que a política faz”; coordenação estratégica entre governos empoderados, empreendedores em consenso com essa visão e universidades comprometidas a construir respostas; e investimento em formação de pessoal.

O ex-governador comentou que a recente melhora na balança comercial do Brasil ocorre apenas em função da recessão, mas o problema nas contas externas é estrutural. “Nosso déficit na balança comercial de manufaturados já está em US$ 110 bilhões. A gente foi adiando o confronto desse problema, atenuando a percepção da catástrofe, em função de um ciclo positivo de preços de commodities”, explicou.

Segundo ele, hoje esse superciclo das commodities acabou e isso afeta a economia brasileira, independentemente de quem seja o presidente. “Hoje, a produção do pré-sal custa US$ 41 o barril e nós estamos vendendo a US$ 30. Isso é real, não adianta dizer que é culpa de Dilma, de Lula”, comentou.

Impeachment e Golpe de Estado

“O Eduardo Cunha não virou presidente da Câmara, sendo o bandido que é, por acaso. Eu vi a construção dessa ascensão porque ele foi entregando e recebendo, entregando e recebendo e depois comprou 250 deputados”, disse.

“O Michel Temer é absoluta e indissociavelmente ligado ao Eduardo Cunha em tudo, inclusive nas suas piores práticas”, disse o ex-ministro, e avaliou ainda afirmou que um eventual governo Temer é “uma tragédia sem precedentes.”, e que eles estão juntos na condução do processo do impeachment.

“Nesta altura, o Temer está calculando como se livrar deste trambolho. E não tem a menor autonomia para se livrar, porque se o Cunha um dia for preso – e eu acho que ele vai – será a maior delação premiada da história da humanidade, leva o Michel Temer e mais 250 deputados”, criticou.

Ciro classificou o impeachment de “golpe”, dizendo que o processo não tem base legal e que o crédito de suplementação orçamentária e as pedaladas fiscais são só “pretextos formais” para o afastamento da presidente.

“A Dilma não praticou nenhum crime de responsabilidade. Você tem uma pessoa ameaçada de ruptura de seu mandato, sem ser acusada de nenhuma ilegalidade ou corrupção, sendo ameaçada de ser derrubada por uma quadrilha de ladrões, réus no STF”. Ele criticou o processo dizendo que “impeachment não é remédio para governo ruim.”

Ciro Gomes comparou ainda a situação brasileira à enfrentada pelo Paraguai, com a destituição do presidente Fernando Lugo, e também à da Venezuela. “Estão se utilizando de protocolos no País e da propaganda para implementar um golpe no País.”

Voltou a atacar o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. “É um gângster mesmo e está pilotando um golpe de Estado. É réu do Supremo Tribunal Federal (STF) por desvios, lavagem de dinheiro, contas ilícitas no exterior. A justiça só achou a ponta de iceberg”, declarou

Para o ex-governador, a realização de dois processos de impeachment no Brasil em 24 anos não são “pouca coisa”, mencionando a tentativa de, no passado, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu partido, o PT, tentar destituir Fernando Henrique Cardoso do comando do País.

Coalizão

Sobre o vazamento da ligação telefônica entre a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula, Ciro Gomes ponderou que “a solidariedade devida por ela a ele é uma questão privada.” Gomes avaliou que a presidente deixou o STF numa situação desagradável, pois o fez parecer o garantidor da impunidade do Lula. “Foi a atitude mais estúpida que eu vi alguém fazer na política nos meus 35 anos de militância. Mas isso não é a base de nenhuma das acusações pelas quais ela está respondendo”, acrescentou.

Crise bancária e fiscal

Ciro Gomes, fez um alerta, se dívida pública do Brasil não for controlada, a crise bancária será iminente. Em decorrência da proporção da dívida pública em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, e destacou o risco de o atual cenário político-econômico resultar em uma crise do sistema bancário.

“Hoje é preciso colocar muita clareza no manejo da dívida pública no País. É necessário compreender o galope da dívida como proporção do PIB, do contrário a iminência da crise será uma crise bancária no País”. Destacando a necessidade de promover as reformas tributária e fiscal.

Segundo ele, o Estado é ineficiente e gasta mais onde não devia. Diz que em setores necessários como educação e saúde, o desembolso público per capita está abaixo do ideal, enquanto os maiores gastos são com previdência e juros da dívida pública.

“Temos um estrangulamento do financiamento crônico no Brasil e a taxa de juros mais cara planeta”, destacou Gomes, reforçando a necessidade de um debate em torno do tema.

Eleições 2018

Gomes disse que cogita concorrer à presidência, mas que ainda não tomou uma decisão final. “Eu admiti para o meu partido, estou cumprindo as tarefas inerentes a um pré-candidato, mas eu vou pensar cem vezes antes de ser candidato.”

*Com informações da Folha e do Estadão.

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